Tirar o time de campo ou tirar o cavalo da chuva?

Qual a diferença entre tirar o time de campo e tirar o cavalo da chuva?

            Tiramos o cavalo da chuva se esperamos tempos melhores. Tiramos o time de campo quando não há esperança. As pessoas de “esquerda”, com mais de sessenta anos, devem tirar o cavalo da chuva ou o time de campo?

            Quem viveu a mocidade em meio à efervescência política, debates e confrontos ideológicos no desejo de mudança revolucionária, na expectativa de que poderiam mudar o mundo, dispondo-se à luta e muitos se sacrificando, vítimas da ditadura, como estão hoje? Como se sentem, eles que foram formados cultural e humanisticamente lendo os clássicos da literatura russa, de Turgueniev, Tchekhov e Dostoievski a Tolstói, e mergulharam nos franceses, de Balzac a Flaubert, desembocando naturalmente em Camus e Sartre, e nessa caminhada cultivaram os mestres de todas as cores e nacionalidades, de Dante, Camões, Goethe e Shakespeare a Guimarães Rosa (e na estrada encantaram-se com Machado), sem se descuidar de Marx, pois, esse pessoal antigo não estranha a sociedade contemporânea, brutalizada pelo menosprezo ao que é antológico e universal? Esses velhos, quando jovens, viveram a utopia de um humanismo manifesto nas artes: a música e o teatro embalavam os corações e as mentes. O que fazem tais deserdados na atual distopia?

            Os ainda esperançosos podem tirar o cavalo da chuva. Devem acreditar que dias melhores virão. Porém, os que esperavam construir um mundo melhor e foram derrotados, tratem de tirar o time de campo. Não há mais jogo limpo, as regras mudaram e o juiz é ladrão.

            Sabem que Bolsonaro não será vencido. Sairá de cena por não cumprir a “missão” que dele esperava a burguesia. Não será repudiado por ser proto-fascista, populista da pior espécie, nepotista, misógino e entre outras coisas, xenófobo sem saber bem porque tem aversão à humanidade que ele não compreende.

            Assim, o populismo moralista de direita, incentivado pelas classes dominantes e bandeira das classes médias, continuará predominante, apesar do que vier após Bolsonaro, já que ele não será rejeitado por ser quem é, mas substituído por não ser o que a burguesia esperava que ele fosse. Ou seja, todo o sistema que produziu tal energúmeno político continuará intocável, com seus centrão, judiciário, militares, corruptos etc.

            Quem tem mais de sessenta anos, com a provável formação tradicional “de esquerda”, se não perceber que as coisas mudam para continuar como sempre, provavelmente está às portas da senilidade.

            É preciso reconhecer: fomos derrotados. “Logicamente”, se insistirmos em deixar o time em campo, nesse jogo com as regras subvertidas e com o juiz ladrão, estaremos, como se diria antigamente, “dando trela” aos safados que nos venceram.

            Mas a história é feita de longos intervalos, pausas, reciclagens e a conhecida dialética da tese/antítese/síntese prevalece. Portanto, a derrota é dolorida, mas não é o final trágico: estamos em um processo. A vitória do sistema é uma contradição a marcar a inelutável marcha rumo ao caos do neoliberalismo. Não tenhamos medo da incoerência: racionalmente é hora de tirar o time de campo, mas continuamos, apesar de… quem sabe?, e sequer tiramos o cavalo da chuva.

            Como dizia Ramon Velasco, o personagem de Tarcísio Meira no filme de Hugo Carvana, “não se preocupe, nada vai dar certo”.