Mês: fevereiro 2022

O futurismo que faltou nas comemorações da semana modernizante

Um ferro elétrico é mais bonito do que uma escultura? É o que proclamavam os futuristas italianos, no começo do século passado. Na Itália o futurismo empolgou a vanguarda cultural e tornou-se vanguardista. Seus poetas eram fascinados pela velocidade e as máquinas. Seu mais estridente representante, Fillippo Marinetti, afirmou: “O esplendor do mundo se enriqueceu com uma nova beleza: a beleza da velocidade. Um automóvel de corrida é mais belo que a Vitória de Samotrácia”.

Automóvel de corrida a Globo mostra nas transmissões da Fórmula 1. A Vitória de Samotrácia é aquela “estátua” da mulher sem cabeça nem braços, com asas de anjo, mais de três metros de altura. Foi esculpida em 190 aC para celebrar uma vitória naval. Está no Louvre.

O futurismo italiano celebrava o progresso. Enaltecia a técnica e o “novo homem”. Com um sentimento patriótico e nacionalista, a partir dos anos 1920 incorporou-se ao fascismo de Mussolini. Tornou-se intolerante e agressivo.

O modernismo brasileiro todos sabem o que é (e principalmente o que não é), destacado nesse centenário da Semana de Arte Moderna. Mário e Oswald de Andrade arrebentaram a cara da cultura tradicional, nas famosas apresentações, conferências e recitais no Teatro Municipal de São Paulo. A pauliceia ficou desvairada, Serafim Ponte Grande deu as cartas e Macunaíma foi o rei da folia. Como diria Bolsonaro, o grande pacificador da pendenga Rússia/Ucrânia, o que “isso daí” tem a ver com o futurismo itálico fascista?

Pois, é o que falta nas polêmicas, debates e ensaios sobre a Semana. No entanto, já em 12 de Maio de 2002, no extinto caderno Mais, da Folha, o professor de literatura da Universidade do Rio, João Cezar de Castro Rocha, publicou um interessante texto sobre as relações dos futuristas, especialmente Marinetti, com os modernistas brasileiros. Hoje, quase ninguém quer tocar no assunto: o fascismo, que nasceu como uma “modernidade” é um anacronismo de triste memória. Seus heróis políticos ficaram na história como histriões (Mussolini) ou tiranos genocidas (Hitler) – os poetas e intelectuais foram convenientemente esquecidos (suas ideias, nem tanto). Mas naquele tempo confuso e difuso, que resvalaria no periférico capitalismo brasileiro, o futurismo era uma tentação. Afinal, cantava o progresso, as máquinas e um “novo homem”.

Claro, Mário e Oswald não eram bobos. Apenas, “tão Brasil” – isto é, sem aquela formação cultural sólida nem a experiência política europeia que sabia separar o joio do trigo, embora, na Europa, produzissem mais joio do que trigo.

As comemorações da Semana estão no fim. Pena que esqueceram os “futurismos”.

Sim, há outros futuristas, como Maiakovski, que oferecia “o crânio cheio de versos, como um copo de vinho”, e Juan Larrea, Apollinaire etc. E naqueles “tempos sombrios”, poetas maiores amantes do fascismo, como Ezra Pound – e geniais escritores nazistas e antissemitas, como Ferdinand Celine. E o mau-caratismo surrealista de Luiz Buñuel e Salvador Dali já estava brotando, anunciando o assassinato de Garcia Lorca. Como se vê, não é uma simples escolha entre um carro de corrida e a Vitória de Samotrácia.

Tudo “isso daí” renderia um instigante ensaio, acima da minha (in)competência.

Os grandes mortos não se aquietam nas suas tumbas

Sou dominado pelos mortos do século xix. Alguns me piscam, outros franzem a testa. Todos me flagelam, menos Stendhal, que me ensinou mais sobre a luta de classes e o domínio das ideias dominantes do que Marx.

Dostoievski e Tolstói cutucam meus remorsos. Flaubert joga-me na cara o que eu deveria ter feito e não fiz pelas mulheres. O baile em que Emma Bovary desfruta entorpecida o luxo da nobreza provinciana rivaliza com a passagem do rei francês Carlos X, pelas aldeias, descrita por Stendhal. Os dois gênios mostram que nós, os perdedores por nascimento ou falta de mérito, somos pequenos intelectuais de segunda classe, burguesinhos lambe-botas do poder dos “superiores” – tanto do dinheiro que mendigamos em sórdidos empregos como do saber, que eles nos dão em gotas que escapam das suas torres de marfim. O maior opressor nesse reino de dominação é Deus – renegá-lo é um dever das almas livres: é preciso crer nele, para desmascará-lo. O ateísmo é uma fuga confortável.

Quando se fala de Dostoievski geralmente cita-se o Grande Inquisidor. Eu vejo Raskólnikov a beijar os pés de Sônia – “ao beijar seus pés beijo a humanidade”. A humanidade é uma inocente e desgraçada puta. O réprobo redimido é uma impossibilidade humana.

Tolstói de Guerra e Paz ensina mais sobre a história da Rússia do que todos os historiadores. Ninguém entenderá Stalin – e o fervor revolucionário russo – sem ler Guerra e Paz. Porém, é A morte de Ivan Ilich que me abespinha a alma, ao revelar como somos de extrema importância “em si”, e de nenhuma relevância “para si” – e os outros –, às vezes nossa morte até atrapalha um carteado.

Há escritores do século xx que repercutem o xix, ao se tornarem críticos das tragédias do “nosso tempo”. A maioria é presunçosa, como Hanna Arendt, agressivamente ofensiva às vítimas do Holocausto ao reportar o julgamento de Eichmann. A compaixão não faz parte do seu repertório heideggeriano. Mesmo ao exaltar intelectuais e artistas ela joga-lhes sua arrogância que ignora Terêncio (nada do que é humano me é desconhecido). Caso dos seus textos sobre Walter Benjamin e Bertolt Brecht, por exemplo, admirados, sem atingir-lhes a alma. Ela é capaz de ser eruditamente oportunista, como no ensaio sobre Lessing, ao agradecer o prêmio com o nome do poeta e louvá-lo, sem “sentir” o que escreveu e ater-se ao que ele representou.

Não cito os escritores de língua portuguesa porque nenhum deles me tocou o coração. Exceto o padre Vieira, que me sensibilizou para o bem, enquanto o colombiano Vargas Villa me afligia para o mal.

Por que escrevo isso?

Se soubesse não escreveria. Sabe-se lá como o inconsciente dita as ações.

O Brasil é um substrato do escravismo disfarçado de “cordialidade”

O assassinato brutal do congolês Moïse Kabagambe reforçou as polêmicas sobre o nosso racismo estrutural e muita gente acrescentou-lhe uma pitada de xenofobismo.

Em dez mil anos de história o nacionalismo é um fenômeno recente: aparece pra valer a partir do século XVII, expandiu-se no seguinte e provocou a tragédia entre as guerras de 1870 e as duas últimas mundiais. Nesse tempo, especialmente depois da reforma religiosa – que deu aos acumuladores de dinheiro o “alvará” para emprestar a juros – o capitalismo conheceu extraordinário progresso tecnológico em todas as áreas produtivas. Para ser breve (ninguém mais tem paciência), o humanismo encolheu, a ética adaptou-se e uma nova moral, hipócrita e cínica, prevalece nas relações sociais.

O Brasil é filho da escravidão. O racismo é seu subproduto. A rigor ainda não somos uma nação e nosso nacionalismo é capenga, a serviço de negocistas, na política, no comércio, na educação – & etc. (o que inclui as manifestações da superestrutura). Os colonialistas portugueses e as potencias da época mudaram o sentido da escravidão. O que antes era “simples” submissão de povos vencidos, passou a ser justificada como destino inevitável de “raças inferiores”. A necessidade dos europeus escravizarem a mão de obra foi apresentada como um esforço da civilização branca para “cristianizar” os pretos. A Igreja e vários papas abençoaram os escravistas. Os protestantes, idem, de outra forma.

Nosso país é formado por vários guetos, inseridos nas suas classes sociais que, justamente por não sermos uma nação, não têm coesão interna. Na mesma classe social há diferenças tanto materiais como espirituais. Esses guetos às vezes se subdividem em castas e só se unem para defender o que a sociedade tem de pior – e, nesse caso, movidas por medo. É o que explica a eleição de Bolsonaro, por exemplo.

Será mais verdadeiro dizer que o Brasil é a (con)sequência de um país escravista – nossos conceitos nas relações de trabalho são heranças da escravatura. Assim se entende a docilidade dos milhões de desempregados que se tornam “empreendedores” ao aceitarem o subemprego, o que acarreta a perda dos direitos trabalhistas e das garantias sociais que deveriam ser obrigação do Estado: educação, saúde, aposentadoria, segurança etc.

Historicamente o escravismo é a parte essencial da sociedade brasileira. Isto é, nosso ser como pseudo-nação é um substrato, portanto, o racismo brasileiro é um resíduo, resto do escravismo incrustado na memória nacional, como indica a origem latina da palavra. Esse racismo, substrato, portanto, é o “material sobre o qual um organismo cresce, ou ao qual está fixado; substância, ou estrato, subjacente a esse organismo (…) é também aquilo que restou, o resíduo, a sobra, é ainda o motivo, a origem” – tão simples que está nos dicionários.

O Brasil é um país em que os pobres se matam e os brancos ricos sobrevivem da sua riqueza e não são afetados pelas mortes dos excluídos. Os policiais que assassinam no Rio e São Paulo são, em sua maioria, oriundos das “classes baixas” e de famílias negras. Nem sua origem e as dificuldades que passaram os impedem de matar a sua própria gente – mais do que classe, agora, fardados, pertencem a uma casta privilegiada (hierarquizada em várias categorias), que sofreu lavagem cerebral nas escolas militares para matar pretos e pobres.

Nossos acadêmicos usam um jargão abstrato nas suas teses e cascatas. Iludem-se e satisfazem os iludidos. Não temos cientistas com empatia popular nem revolucionários. Sobram-nos doutores, empoados com seus títulos e subterfúgios diante da matança de pobres, pretos, homossexuais e demais vítimas da perversidade das classes dominantes – em que se situam aqueles que doutoralmente tentam explicá-la.

O PCC atua no garimpo ilegal e já chegou às terras dos yanomami

Notícia no UOL: o PCC atua em áreas de garimpo nas terras yanomami, no rio Uraricoera, em Roraima. Além do tráfico de drogas a organização criminosa “explora casas de prostituição, venda de gasolina, alimentos, bebidas e segurança particular”. A Dicap (Divisão de Inteligência e Captura do Sistema Prisional de Roraima) confirma e, segundo seu chefe, Roney Cruz, 25 militantes do PCC, foragidos dos presídios, escondem-se nos garimpos da área.

Nenhuma surpresa. É fatal que o crime organizado se imponha em áreas em que o governo – mais do que o Estado – deixa abertas à especulação. As etapas são pré-anunciadas: primeiro, o garimpo ilegal, depois, sua “oficialização”, por empreendedores com capital e relações “exteriores”. O garimpo ilegal, que começa com aventureiros que se tornam bandidos e genocidas, relaciona-se com as autoridades locais (governadores, deputados, prefeitos, vereadores, policiais etc.), aos quais suborna. Já o crime organizado atua em larga escala e usa foragidos das prisões para o extermínio de ribeirinhos, indígenas e caboclos, para depois se estabelecer “legalmente” – então, necessita das relações “exteriores” (leia-se: Brasília) que o PCC cultiva em todas as bancadas da Câmara: da bíblia, da bala e do boi. No resumo da ópera todos têm interesses comuns.

Essa situação é uma decorrência do excesso de capital no sistema criminoso. O capitalismo, em qualquer dos seus ramos, exporta o excesso de grana. Tanto faz se é o banqueiro, o industrial, o Estado ou o tráfico. É um processo “normal” que está implícito na velha piada: “O crime não é assaltar um banco, é fundar um banco”. Os velhos bancos brasileiros (quase todos assimilados por outros mais poderosos) foram fundados por escravistas que acumularam tanto dinheiro com o sangue negro que em uma “etapa superior” precisaram exportá-lo para financiar novos empreendedores que se transformaram em neocapitalistas e reproduziam o ciclo. Assim a máquina capitalista funciona bem lubrificada enquanto houver povo que consuma, pague impostos e obedeça a lei sem bufar.

Não há capitalismo sem corrupção nem degeneração ética, mas como o capitalista não é besta recicla tanto o processo quanto o conceito moral predominante na sociedade, inclusive usando a democracia burguesa e os princípios cristãos. Dessa forma o Brasil pôde e pode passar de Lula a Bolsonaro e de Bolsonaro a Lula (com Moro no meio e Dilma no intervalo) sem tugir nem mugir.

Um exemplo: o que soterra casas e mata seres humanos sufocados na lama não é o “deslizamento de encosta” – é a especulação imobiliária e o descompromisso da turma do poder com a segurança social. Na essência, os mortos em Franco da Rocha e em Brumadinho foram vítimas da mesma insensibilidade política e social. Os políticos justificam o crime do capitalismo com o discurso assistencialista e a distribuição de verbas para a “reconstrução” material e “reposição” de famílias desabrigadas, que ficam à espera do novo desastre – já anunciado no cinismo e hipocrisia do socorro governamental.

Voltando à presença do PCC nas terras yanomami: a surpresa está por vir. Se a “política indígena” do Estado continuar, as tribos podem ser cooptadas pelo crime organizado, pois, traficantes e garimpeiros levam aos “povos da floresta” atrativos e vantagens ainda insondáveis na cultura tribal. E não se deve esquecer: os políticos antagonizam as Ongs que tentam defender os indígenas. Além do mais, os pentecostais oferecem um deus mais prático e contam com apoio tanto dos garimpeiros ilegais como dos governos locais – e não por acaso o PCC une-se a eles no combate às religiões “inferiores”, como acontece na periferia do Rio e São Paulo com o vandalismo contra os terreiros de umbanda e candomblé. E quando um político esperto, testa de ferro de picaretas internacionais e dos idiotas profissionais brasileiros, mostrar aos índios que eles podem ter cassinos nas suas terras e se tornarem capitalistas? Qual o nível de resistência das novas gerações indígenas criadas entre a cruz e a espada – de um lado, a mentira da proteção do Estado e de outro, a ferocidade dos desmatadores e garimpeiros?