Mês: março 2022

A humanidade sempre acreditou na mentira e consagra a mediocridade

O homem aprendeu a pensar com a mentira. A mãe de todas as mentiras é Deus, invenção humana para superar sua ignorância. Sem entender a chuva e os raios, a explicação só poderia ser mágica. Dos deuses ao monoteísmo, um pulinho. O imperativo de Deus perdura como a origem de tudo. Do divino ao sagrado e do sagrado ao consagrado. A Bíblia confirma a balela.

Dispensável dizer que isso é arma da dominação etc. O importante é “sofrer” a realidade presente herdada do homo sapiens: é mais fácil (e prazeroso) acreditar na mentira do que na verdade. A mentira não é fabulada apenas para proveito do mentiroso, mas usada também para agradar o enganado. Crer na vida após a morte e esperar “vivê-la” no céu é menos chocante do que saber que seremos comidos pelos vermes – ironicamente, esta é a “vida eterna”: o corpo não morre, transforma-se e multiplica-se em células e todos os etcs. que os cientistas sabem. Muitos crentes estão informados, o problema é que a crença polui o saber.

O filósofo contenta-se em interpretar. O chato é que eu, tu, nós, vós, eles, pessoas comuns, sofremos as consequências. Ora direis ouvir estrelas, Lula cai e Bolsonaro sobe nas pesquisas. Só se surpreendem os tolos programados para as surpresas – que na sociedade neoliberal se apresentam como simulacros da esperança. O que se espera? – o que se alcança.

Há seis meses, e há três, quando se “esperançava” que Lula venceria no primeiro turno, aqui, nesse espaço, denunciava o ledo engano crido pelos que acreditam na mendacidade do sistema: bastava o capitão deixar de falar palavrões que a classe voltaria ao seu redil. São carneiros, deles, sim, podemos esperar aonde chegam – ao curral, e todos contentes seguirão o mito.

Para o Brasil não há esperança verdadeira, apenas consolação. É balsâmico saber que sobreviveremos a mais alguns anos sob as botas e, quem sabe, em um futuro que nem nossos netos verão, o país se safa dos safados.

O “véio da Havan” e Damares, mais os abençoados pelos pastores, serão eleitos senadores. Edir Macedo e esposa já estão de passaporte diplomático novo. O ministro sacerdote da Educação tem as bênçãos da primeira dama. Por falar nela, seu miliciano de estimação, Fabrício Queiroz, será deputado – provavelmente continuará “operando” suas finanças. Todos os filhos presidenciais terão cargos eletivos na República dos pangarés.

Este é um país sem povo, ainda não é uma nação, apenas uma “federação” governada pela classe média associada aos ricos e poderosos que dão as cartas e o GPS. Sempre deram “um jeitinho”, da independência à república, da abolição ao militarismo e na volta à democracia nunca encaramos as coisas pela raiz. Quem espera que algo mude, saiba: a classe média, que se expressa pela mediocridade dos meios de comunicação (na imprensa, na literatura e nas artes) não abre mão da velha ideologia: Deus, Pátria e Família.

Por outro lado, os pobres estão anestesiados ou procurando o que comer (ou comprar). As domésticas tomam quatro ônibus diariamente para ir às casas dos ricos, que lhes negam até as migalhas. Reclamam, mas continuam na lida. 40% dos crentes votarão em quem o pastor mandar (às vezes, nele mesmo, para fortalecer a bancada da bíblia – e daqueles que exigem propinas em ouro).

A esquerda fugiu da raia e a direita tomou conta – não por acaso Lula associa-se àquele picolé de chuchu. Quem pratica o jus sperniandi (como é o meu caso) certamente será ridicularizado, pois demonstra a incompreensão da “política real” – aliás, realpolitik,expressão alemã preferida por Henry Kissinger para justificar a opressão dos ricos sobre os pobres, dos fortes sobre os fracos.

O que fazer?

Pouco – ou nada. Afinal, só resta à humanidade mais uns dez mil, talvez vinte mil anos antes que todos os humanos desapareçam da Terra. O aquecimento global está derretendo as geleiras nos dois polos e mudando drasticamente o clima. Quem se importa?

O consolo é que o homem não fará falta ao planeta. Pelo contrário, sua extinção será benfazeja – os ecossistemas se reorganizarão, espécies de animais sobreviventes ficarão livres dos predadores, a água se tornará pura e o mar – depois de invadir as cidades litorâneas, deixará de ser um caldo de lixo urbano e industrial. Com a extinção da humanidade a vida se regenerará.

No fim das contas, tanto faz.

O macho predador, madame Bovary, o suicidio e a Ucrânia

Um filme exibido na televisão, “adaptado” do romance de Flaubert, transforma madame Bovary, de vítima da sua burrice e presa da lascívia e cupidez dos homens – inclusive da mediocridade boçal do marido – em culpada por ser explorada sexual, emotiva e economicamente. É a regra atemporal: as mulheres são culpadas quando violentadas.

O suicídio da esposa do ginecologista famoso fez a mídia recordar os incidentes profissionais do médico com suas pacientes. Segundo alguns depoimentos ele as agredia com métodos condenados eticamente pela medicina e uma delas foi insultada como “viadinha”, porque não fazia força suficiente para completar o parto.

Mas a esposa suicida ficou ao seu lado e atacou pela internet as mulheres que denunciaram o médico ou se solidarizavam com as parturientes abusadas. E se matou. Horas depois da morte o médico disse aos repórteres que a suicida vivia em “constante irritabilidade”. Assim, presume-se, explica-se o suicídio provavelmente pela “culpa” da morta, que tomava “remédios controlados”.

Terêncio foi um teatrólogo que viveu há 21 séculos e escreveu muito sobre as mulheres (Molière “aproveitou” uma das suas peças e a transformou em Escola para maridos). Ele dizia que nada do que era humano lhe era estranho, “porque sou homem”. Eis o ponto: em que momento o que é “humano” deixa de ser medida para justificar o comportamento do homem?

Como esse blog é uma salada e não pretende “esclarecer” o leitor (que, afinal, nem existe) passemos ao que, aparentemente, não tem nada a ver, porém, todavia e contudo, tudo a ver.

Como analisar, entender, justificar ou condenar a invasão da Ucrânia distanciando-se do horror pela violência implícita na guerra? Crianças e velhos bombardeados no hospital recebem a compaixão que nos desvia das razões geopolíticas do conflito – desse modo, a solidariedade humana torna-se uma barreira irracional para, inclusive, detectarmos os verdadeiros motivos da desumanidade. Essa atitude “humana” diante do massacre coloca o sentimentalismo e a piedade acima das racionalidades que explicam a barbárie.

Parece simples (e brutal): se o homem deixa os sentimentos e foca-se rigidamente nos fatos, desprezando o sangue e o sofrimento, pode chegar mais perto de soluções para impedir a guerra. Mas, se ele é “humano” poderá, também, ser racional e investigar a desumanidade das gentes pelos seus motivos reais e mecanismos sociais, econômicos e psicológicos que levam à guerra? Como o humanismo deslindará os falsos conceitos de “honra” e “patriotismo” que promovem a barbárie? O “humano” não seria uma cortina a tapar a canalhice do “herói”?

No tempo de Terêncio o certo e o errado eram mais ou menos evidentes. Outros (e nessa questão os filósofos importam menos que os romancistas) trataram da questão em profundidade. Como Stendhal, em O vermelho e o negro, que, de certa forma, mostrou como os canalhas se passaram por vítimas heroicas para ludibriar o povo. Flaubert, com uma frieza racional espantosa mostra-nos, através do drama de Emma Bovary o cinismo da sociedade do seu tempo (o capítulo 5 [ou o 7?], na longa narrativa do baile é a melhor “história” da França através do olhar abobado de madame Bovary que, coincidência, também, se suicidou).

Voltemos ao suicídio mais recente – Emma Bovary sempre está viva e pronta para sua tragédia flaubertiana em terras tropicais dominadas pelo macho predador.

A face não tão oculta de um especulador : Zelensky, presidente da Ucrânia

A grande imprensa, com seu cabedal técnico de investigação e apesar de uma rede jornalística mundial ter revelado os Pandora Papers em outubro de 2021, “esquece” que Volodymir Zelensky, presidente da Ucrânia, é sócio de mafiosos e testa de ferro de especuladores internacionais.

Apurou-se que ele e sua equipe da produtora de televisão Kvartal 95, onde ele se apresentava como comediante, fazendo críticas a políticos corruptos, montaram uma rede de offshores desde 2012, para ajudar o milionário Ihor Kolomoisky a “esconder” seus lucros em paraísos fiscais.

Kolomoisky é acusado de fraudes fiscais bilionárias, mas Zelensky também tem relações com outros personagens estranhos, como Ivan Kavanov, chefe do Serviço de Segurança da Ucrânia e suspeito de golpes financeiros. Os documentos da Pandora Papers mostraram que pouco antes de ser eleito – com 73% dos votos – Zelensky “doou” sua participação em uma das suas offshores (Maltex Multicaxpital Corp), registrada nas Ilhas Virgens Britânicas, para Serhiy Shefir, seu principal assessor presidencial – foi um acordo que se tornou “legal” quando ele assumiu o poder, que permite o repasse de dividendos para a primeira dama.

Os documentos relevados pelos Pandora Papers comprovam que Zelensky e vários familiares, com a ajuda de uma consultoria offshore, a Fidelity Corporate Services, parte de um conglomerado de outras 14 financeiras, usaram empresas das Ilhas Virgens Britânicas, Chipre e Belize. Essa manobra possibilitou a compra de imóveis em Londres por US$ 2,28 milhões, em 2016. Outro imóvel, adquirido por US$ 3,5 milhões já tinha sido comprado em 2014 e em 2018 foi “transferido” para outra offshore, a SHSN Limited.

Há mais “expertise” na vida de Zelensky, usado por milionários mafiosos, como Andrii Iakovlev, acionista da Kvartal 95 (a televisão em que se exibia). Mas Zelensky tanto foi usado como usou fraudadores para chegar à presidência. Isso não impede que a mídia ocidental o considere herói: como sempre, as circunstâncias fazem as conveniências. Talvez já seja normal roubar do povo e transferir o dinheiro para paraísos fiscais. Putin é até pior e mais rico do que Zelensky. E os Pandora Papers tem uma lista de milionários brasileiros que, embora devendo para a Receita Federal mantêm depósitos em offshores – vai de Eike Batista até Paulo Guedes, passando por muita gente boa – todas “pessoas de bem”.

Como se sabe, Zelensky teve grande sucesso na televisão ao se exibir, a partir de 2015, o programa Servo do povo, onde denunciava a corrupção financeira e política. Ele se apresentava como um professor de história dando um curso contra a corrupção, que foi filmado por um aluno e posto nas redes sociais. Foi um sucesso e em 2018 ele se elegeu presidente da Ucrânia.

É possível analisar uma guerra apenas pelos fatos, sem juízo de valor?

Na guerra fria falava-se muito no “agente provocador”. Na ditadura brasileira, especialmente depois do AI-5, manifestações mais agressivas em público contra os militares causavam desconfiança e suspeitas de ser provocação (entendia-se que se o sujeito tinha “coragem” para denunciar os generais estaria sendo insuflado por eles para provocar simpatias ao redor e dar a conhecer os reais inimigos do sistema).

A guerra fria e a ditadura acabaram e já não se fala no agente provocador. Porém, quando uma autoridade desconsidera sua inferioridade bélica e incita o enfrentamento contra uma força nitidamente superior, colocando em risco a vida daqueles que pretensamente defende, isto não seria ação de um “agente provocador”?

Vamos nos ater aos fatos, deixando fora qualquer juízo de valor ou posição ideológica. Zelensky sabe que a Rússia não aceita a entrada da Ucrânia na OTAN. Mísseis na fronteira russa é uma ameaça real. A segunda invasão da Tchetchênia mostrou que Putin não tem escrúpulos para massacrar civis. Por que seria diferente com a Ucrânia?

Partindo desses fatos – e não de meras hipóteses – pode-se analisar o esforço de Zelensky para a Ucrânia entrar na OTAN como provocação à Rússia. Configurando-se o papel de agente provocador, a quem interessaria a provocação?, já que o provocador não age guiado apenas pelos seus interesses?

À Rússia certamente não, pois Putin reagiu mandando sua força militar invadir a Ucrânia. Valeria o risco de a Ucrânia ser admitida na OTAN desafiando Putin e sofrendo as consequências? Parece que não, pois além dos mortos e feridos um milhão de ucranianos já foram para o exílio e o país está sendo destruído. Militarmente não há perspectiva de sucesso; a resistência ucraniana contra as armas russas é complicada. No entanto, Zelensky incita seu povo a fabricar bombas molotov para atacar os tanques russos. O resultado será alguns tanques incendiados e milhares de ucranianos mortos. A quem interessa?

Nesse raciocínio logo aparece um interessado oculto, aliás, solicitado por Zelensky aos países “amigos”: a indústria bélica internacional. O negócio das armas – fabricação, venda, tráfico – é o maior “empreendimento” econômico-financeiro do mundo. No congresso norte-americano tem representantes poderosos: no tempo da guerra fria eram chamados de “falcões” e estavam nos partidos republicano e democrata. Há um episódio significativo dessa indústria da morte: com o fim da guerra da Coreia um tipo de avião de combate ficou obsoleto e desnecessário. Mas os fabricantes continuaram a fabricá-lo e o governo dos Estados Unidos a comprá-los, descartando-os como sucata. Isso porque o investimento nas fábricas foi grande e os acionistas (a maioria da classe média que apostou na guerra… e votavam) não poderiam ficar sem os seus dividendos. A história está contada em O estado militarista, pelo jornalista norte-americano Fred J. Cook.

Não se repudia esse raciocínio sobre o agente provocador como se fosse mais uma teoria da conspiração. Pelo contrário, a “conspiração” é estimulada pelo próprio Zelensky, provocando a reação de Putin que, aliás, precisava de um pretexto para aparecer ao seu povo, novamente, como o herói defensor da “sagrada pátria russa”. Pode-se afirmar que, mesmo não havendo explicitamente um agente provocador clássico, as ações do governo ucraniano foram provocadoras na prática – a mídia e todos os governos sabiam como Putin reagiria. Assim, criou-se uma realidade brutal, como é a guerra – desse modo, a condenação à agressividade russa não pode ser feita sem levar em conta tal situação.

Um velho ditado diz que “em tempo de guerra há mentira como terra”. Pode ser que tudo o que escrevi até seja mera suposição, aproveitando-me da evidência dos fatos. Mas, também, os fatos podem indicar que os agentes provocadores não estão mortos: enquanto a opinião pública for suscetível de manipulação pela mídia a provocação será cúmplice da ideologia.

Mais que a notícia “nova” é a velha história antiga que explica a guerra atual

A leitura dos clássicos russos, de Gogol e Lermontov a Dostoievski, Turguêniev, Tolstói, Tchekhov (e mesmo Gorki e Pasternak), explica melhor a guerra contra a Ucrânia do que se embaralhar no noticiário e análises apressadas da mídia. (Quem não se sentir “explicado”, pelo menos lerá grandes livros.)

Toda a literatura russa tem uma convergência comum: a Rússia. Os personagens dos romances russos do século xix vivem suas tragédias, dramas e comédias enquadrados por uma realidade social, política e religiosa que cultiva e cultua a relação entre a “mãe pátria” e seus “filhos” – antes de Freud, Tchekhov já explicava…

Crime e Castigo, de Dostoievski, por exemplo, expõe a conduta de policiais, os trâmites da justiça e o procedimento dos juízes e funcionários públicos com precisão sociológica – sem que a dissertação sobre a burocracia czarista perturbe a narrativa. O mesmo acontece com Tolstói, em Guerra e Paz ou Ana Karenina e nos seus contos e novelas curtas. A estrutura do exército imperial, as relações da alta aristocracia com a pequena nobreza e a burguesia nascente e o conflito religioso surgem naturalmente do texto tolstoiniano, sem nenhum “sociologismo” e às vezes sem que o leitor se dê conta.

Gogol é, literalmente, um caso fantástico. Ele nasceu em Velyki Sorotchints, em 1809, então território russo, depois ucraniano e até hoje disputado pelos dois países. Nos seus contos mais surrealistas, como nas extensas descrições da vida no campo, com suas peculiaridades que só a Rússia teve, penetra-se no âmago da nação – seus loucos são investigados por dentro da psique e ao mesmo tempo entende-se que tal loucura só pode ser russa. Por falar em psique, Tchekhov nos diz até como a comida e os trajes russos influenciam no cotidiano das pessoas, sejam condes ou mujiques, homens ou mulheres.

O que isso tem a ver com a invasão da Ucrânia?

Invadir a Ucrânia é uma “naturalidade” russo-eslava usada como pretexto por Putin, mas já provocada por Napoleão em 1812 e por Hitler em 1941. Porém, antes, os impérios europeus do centro-oeste e da distante Inglaterra “alertavam” aos russos da inevitabilidade da russificação da Ucrânia e do risco de um corredor polonês – a Polônia, também, é outra “fatalidade” geopolítica russa.

Alguém dirá que isso acabou. Impérios ruíram, inclusive a União Soviética. Mas os países da Europa ocidental, os Estados Unidos e alguns oportunistas do Leste europeu fortaleceram a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte, NATO na sigla original em inglês), aproveitando-se da bancarrota do estado soviético e do Partido Comunista. Ou seja, ampliaram as condições para uma desestabilização do que os russos, historicamente, viam como “natural”: a influência ou o domínio da Ucrânia – (Lenine apoiava uma Ucrânia livre, mas Stalin)…

Assim, a geopolítica de mais de cinco séculos (pelo menos) “justifica” a inevitabilidade da invasão e domínio da Ucrânia, especialmente para um autocrata como Putin – espécie de Bolsonaro que não fala palavrão, mas envenena seus desafetos e herdou o poder nuclear soviético. O “sentimento histórico” não se manifesta racionalmente – é uma comoção (acima da emoção) que só quem a vivencia entende. Por outro lado, desde a globalização a Ucrânia é presa de mafiosos e demagogos, o que culminou com o atual presidente, Volodymir Zelensky, cômico de televisão, judeu, porém, fascistóide: a principal força do seu Exército usa símbolos e saudações nazistas – nada disso impede que a mídia atual o promova a estadista: as circunstâncias favorecem o mito adequado ao momento. O que se admira é que a Rússia e a Ucrânia, ambas atualmente com seus negócios controlados por máfias inescrupulosas não se entendam – o que comprova, mais uma vez, que os “fundamentos” históricos e nacionais acabam por superar os “interesses de classe”. Quando isso acontece, o povo morre nas guerras – talvez seja por isso que Samuel Johnson disse que “o patriotismo é o último refúgio do canalha”.

Não é demais lembrar que russos e ucranianos, mais que primos, são etnicamente irmãos e pelo menos trinta por centro da população da Ucrânia tem o russo como língua materna (inclusive o seu presidente e a elite política). É fácil perceber como tais sentimentos varam os séculos e explicam situações contraditórias e antagônicas: leiam A cavalaria vermelha e Contos de Odessa, de Isaac Babel (ele próprio um ucraniano nascido em Odessa em 1904 e morto nas prisões stalinistas em 1940). São textos curtos sobre os soldados comunistas, cossacos e judeus – nesses relatos percebe-se que a voz dos personagens de Tolstói, por exemplo, salta do passado czarista aos dias revolucionários e os russos podem seguir tanto Lenin como  Trotsky ou Stalin, o rabino ou o padre.

Chegou a vez de sabermos se a história se repetirá como farsa e o povo russo seguirá Putin.

Mais que a notícia “nova” é a velha história antiga que explica a guerra atual

A leitura dos clássicos russos, de Gogol e Lermontov a Dostoievski, Turguêniev, Tolstói, Tchekhov (e mesmo Gorki e Pasternak), explica melhor a guerra contra a Ucrânia do que se embaralhar no noticiário e análises apressadas da mídia. (Quem não se sentir “explicado”, pelo menos lerá grandes livros.)

Toda a literatura russa tem uma convergência comum: a Rússia. Os personagens dos romances russos do século xix vivem suas tragédias, dramas e comédias enquadrados por uma realidade social, política e religiosa que cultiva e cultua a relação entre a “mãe pátria” e seus “filhos” – antes de Freud, Tchekhov já explicava…

Crime e Castigo, de Dostoievski, por exemplo, expõe a conduta de policiais, os trâmites da justiça e o procedimento dos juízes e funcionários públicos com precisão sociológica – sem que a dissertação sobre a burocracia czarista perturbe a narrativa. O mesmo acontece com Tolstói, em Guerra e Paz ou Ana Karenina e nos seus contos e novelas curtas. A estrutura do exército imperial, as relações da alta aristocracia com a pequena nobreza e a burguesia nascente e o conflito religioso surgem naturalmente do texto tolstoiniano, sem nenhum “sociologismo” e às vezes sem que o leitor se dê conta.

Gogol é, literalmente, um caso fantástico. Ele nasceu em Velyki Sorotchints, em 1809, então território russo, depois ucraniano e até hoje disputado pelos dois países. Nos seus contos mais surrealistas, como nas extensas descrições da vida no campo, com suas peculiaridades que só a Rússia teve, penetra-se no âmago da nação – seus loucos são investigados por dentro da psique e ao mesmo tempo entende-se que tal loucura só pode ser russa. Por falar em psique, Tchekhov nos diz até como a comida e os trajes russos influenciam no cotidiano das pessoas, sejam condes ou mujiques, homens ou mulheres.

O que isso tem a ver com a invasão da Ucrânia?

Invadir a Ucrânia é uma “naturalidade” russo-eslava usada como pretexto por Putin, mas já provocada por Napoleão em 1812 e por Hitler em 1941. Porém, antes, os impérios europeus do centro-oeste e da distante Inglaterra “alertavam” aos russos da inevitabilidade da russificação da Ucrânia e do risco de um corredor polonês – a Polônia, também, é outra “fatalidade” geopolítica russa.

Alguém dirá que isso acabou. Impérios ruíram, inclusive a União Soviética. Mas os países da Europa ocidental, os Estados Unidos e alguns oportunistas do Leste europeu fortaleceram a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte, NATO na sigla original em inglês), aproveitando-se da bancarrota do estado soviético e do Partido Comunista. Ou seja, ampliaram as condições para uma desestabilização do que os russos, historicamente, viam como “natural”: a influência ou o domínio da Ucrânia – (Lenine apoiava uma Ucrânia livre, mas Stalin)…

Assim, a geopolítica de mais de cinco séculos (pelo menos) “justifica” a inevitabilidade da invasão e domínio da Ucrânia, especialmente para um autocrata como Putin – espécie de Bolsonaro que não fala palavrão, mas envenena seus desafetos e herdou o poder nuclear soviético. O “sentimento histórico” não se manifesta racionalmente – é uma comoção (acima da emoção) que só quem a vivencia entende. Por outro lado, desde a globalização a Ucrânia é presa de mafiosos e demagogos, o que culminou com o atual presidente, Volodymir Zelensky, cômico de televisão, judeu, porém, fascistóide: a principal força do seu Exército usa símbolos e saudações nazistas – nada disso impede que a mídia atual o promova a estadista: as circunstâncias favorecem o mito adequado ao momento. O que se admira é que a Rússia e a Ucrânia, ambas atualmente com seus negócios controlados por máfias inescrupulosas não se entendam – o que comprova, mais uma vez, que os “fundamentos” históricos e nacionais acabam por superar os “interesses de classe”. Quando isso acontece, o povo morre nas guerras – talvez seja por isso que Samuel Johnson disse que “o patriotismo é o último refúgio do canalha”.

Não é demais lembrar que russos e ucranianos, mais que primos, são etnicamente irmãos e pelo menos trinta por centro da população da Ucrânia tem o russo como língua materna (inclusive o seu presidente e a elite política). É fácil perceber como tais sentimentos varam os séculos e explicam situações contraditórias e antagônicas: leiam A cavalaria vermelha e Contos de Odessa, de Isaac Babel (ele próprio um ucraniano nascido em Odessa em 1904 e morto nas prisões stalinistas em 1940). São textos curtos sobre os soldados comunistas, cossacos e judeus – nesses relatos percebe-se que a voz dos personagens de Tolstói, por exemplo, salta do passado czarista aos dias revolucionários e os russos podem seguir tanto Lenin como  Trotsky ou Stalin, o rabino ou o padre.

Chegou a vez de sabermos se a história se repetirá como farsa e o povo russo seguirá Putin.