É possível analisar uma guerra apenas pelos fatos, sem juízo de valor?

Na guerra fria falava-se muito no “agente provocador”. Na ditadura brasileira, especialmente depois do AI-5, manifestações mais agressivas em público contra os militares causavam desconfiança e suspeitas de ser provocação (entendia-se que se o sujeito tinha “coragem” para denunciar os generais estaria sendo insuflado por eles para provocar simpatias ao redor e dar a conhecer os reais inimigos do sistema).

A guerra fria e a ditadura acabaram e já não se fala no agente provocador. Porém, quando uma autoridade desconsidera sua inferioridade bélica e incita o enfrentamento contra uma força nitidamente superior, colocando em risco a vida daqueles que pretensamente defende, isto não seria ação de um “agente provocador”?

Vamos nos ater aos fatos, deixando fora qualquer juízo de valor ou posição ideológica. Zelensky sabe que a Rússia não aceita a entrada da Ucrânia na OTAN. Mísseis na fronteira russa é uma ameaça real. A segunda invasão da Tchetchênia mostrou que Putin não tem escrúpulos para massacrar civis. Por que seria diferente com a Ucrânia?

Partindo desses fatos – e não de meras hipóteses – pode-se analisar o esforço de Zelensky para a Ucrânia entrar na OTAN como provocação à Rússia. Configurando-se o papel de agente provocador, a quem interessaria a provocação?, já que o provocador não age guiado apenas pelos seus interesses?

À Rússia certamente não, pois Putin reagiu mandando sua força militar invadir a Ucrânia. Valeria o risco de a Ucrânia ser admitida na OTAN desafiando Putin e sofrendo as consequências? Parece que não, pois além dos mortos e feridos um milhão de ucranianos já foram para o exílio e o país está sendo destruído. Militarmente não há perspectiva de sucesso; a resistência ucraniana contra as armas russas é complicada. No entanto, Zelensky incita seu povo a fabricar bombas molotov para atacar os tanques russos. O resultado será alguns tanques incendiados e milhares de ucranianos mortos. A quem interessa?

Nesse raciocínio logo aparece um interessado oculto, aliás, solicitado por Zelensky aos países “amigos”: a indústria bélica internacional. O negócio das armas – fabricação, venda, tráfico – é o maior “empreendimento” econômico-financeiro do mundo. No congresso norte-americano tem representantes poderosos: no tempo da guerra fria eram chamados de “falcões” e estavam nos partidos republicano e democrata. Há um episódio significativo dessa indústria da morte: com o fim da guerra da Coreia um tipo de avião de combate ficou obsoleto e desnecessário. Mas os fabricantes continuaram a fabricá-lo e o governo dos Estados Unidos a comprá-los, descartando-os como sucata. Isso porque o investimento nas fábricas foi grande e os acionistas (a maioria da classe média que apostou na guerra… e votavam) não poderiam ficar sem os seus dividendos. A história está contada em O estado militarista, pelo jornalista norte-americano Fred J. Cook.

Não se repudia esse raciocínio sobre o agente provocador como se fosse mais uma teoria da conspiração. Pelo contrário, a “conspiração” é estimulada pelo próprio Zelensky, provocando a reação de Putin que, aliás, precisava de um pretexto para aparecer ao seu povo, novamente, como o herói defensor da “sagrada pátria russa”. Pode-se afirmar que, mesmo não havendo explicitamente um agente provocador clássico, as ações do governo ucraniano foram provocadoras na prática – a mídia e todos os governos sabiam como Putin reagiria. Assim, criou-se uma realidade brutal, como é a guerra – desse modo, a condenação à agressividade russa não pode ser feita sem levar em conta tal situação.

Um velho ditado diz que “em tempo de guerra há mentira como terra”. Pode ser que tudo o que escrevi até seja mera suposição, aproveitando-me da evidência dos fatos. Mas, também, os fatos podem indicar que os agentes provocadores não estão mortos: enquanto a opinião pública for suscetível de manipulação pela mídia a provocação será cúmplice da ideologia.