O macho predador, madame Bovary, o suicidio e a Ucrânia

Um filme exibido na televisão, “adaptado” do romance de Flaubert, transforma madame Bovary, de vítima da sua burrice e presa da lascívia e cupidez dos homens – inclusive da mediocridade boçal do marido – em culpada por ser explorada sexual, emotiva e economicamente. É a regra atemporal: as mulheres são culpadas quando violentadas.

O suicídio da esposa do ginecologista famoso fez a mídia recordar os incidentes profissionais do médico com suas pacientes. Segundo alguns depoimentos ele as agredia com métodos condenados eticamente pela medicina e uma delas foi insultada como “viadinha”, porque não fazia força suficiente para completar o parto.

Mas a esposa suicida ficou ao seu lado e atacou pela internet as mulheres que denunciaram o médico ou se solidarizavam com as parturientes abusadas. E se matou. Horas depois da morte o médico disse aos repórteres que a suicida vivia em “constante irritabilidade”. Assim, presume-se, explica-se o suicídio provavelmente pela “culpa” da morta, que tomava “remédios controlados”.

Terêncio foi um teatrólogo que viveu há 21 séculos e escreveu muito sobre as mulheres (Molière “aproveitou” uma das suas peças e a transformou em Escola para maridos). Ele dizia que nada do que era humano lhe era estranho, “porque sou homem”. Eis o ponto: em que momento o que é “humano” deixa de ser medida para justificar o comportamento do homem?

Como esse blog é uma salada e não pretende “esclarecer” o leitor (que, afinal, nem existe) passemos ao que, aparentemente, não tem nada a ver, porém, todavia e contudo, tudo a ver.

Como analisar, entender, justificar ou condenar a invasão da Ucrânia distanciando-se do horror pela violência implícita na guerra? Crianças e velhos bombardeados no hospital recebem a compaixão que nos desvia das razões geopolíticas do conflito – desse modo, a solidariedade humana torna-se uma barreira irracional para, inclusive, detectarmos os verdadeiros motivos da desumanidade. Essa atitude “humana” diante do massacre coloca o sentimentalismo e a piedade acima das racionalidades que explicam a barbárie.

Parece simples (e brutal): se o homem deixa os sentimentos e foca-se rigidamente nos fatos, desprezando o sangue e o sofrimento, pode chegar mais perto de soluções para impedir a guerra. Mas, se ele é “humano” poderá, também, ser racional e investigar a desumanidade das gentes pelos seus motivos reais e mecanismos sociais, econômicos e psicológicos que levam à guerra? Como o humanismo deslindará os falsos conceitos de “honra” e “patriotismo” que promovem a barbárie? O “humano” não seria uma cortina a tapar a canalhice do “herói”?

No tempo de Terêncio o certo e o errado eram mais ou menos evidentes. Outros (e nessa questão os filósofos importam menos que os romancistas) trataram da questão em profundidade. Como Stendhal, em O vermelho e o negro, que, de certa forma, mostrou como os canalhas se passaram por vítimas heroicas para ludibriar o povo. Flaubert, com uma frieza racional espantosa mostra-nos, através do drama de Emma Bovary o cinismo da sociedade do seu tempo (o capítulo 5 [ou o 7?], na longa narrativa do baile é a melhor “história” da França através do olhar abobado de madame Bovary que, coincidência, também, se suicidou).

Voltemos ao suicídio mais recente – Emma Bovary sempre está viva e pronta para sua tragédia flaubertiana em terras tropicais dominadas pelo macho predador.