A humanidade sempre acreditou na mentira e consagra a mediocridade

O homem aprendeu a pensar com a mentira. A mãe de todas as mentiras é Deus, invenção humana para superar sua ignorância. Sem entender a chuva e os raios, a explicação só poderia ser mágica. Dos deuses ao monoteísmo, um pulinho. O imperativo de Deus perdura como a origem de tudo. Do divino ao sagrado e do sagrado ao consagrado. A Bíblia confirma a balela.

Dispensável dizer que isso é arma da dominação etc. O importante é “sofrer” a realidade presente herdada do homo sapiens: é mais fácil (e prazeroso) acreditar na mentira do que na verdade. A mentira não é fabulada apenas para proveito do mentiroso, mas usada também para agradar o enganado. Crer na vida após a morte e esperar “vivê-la” no céu é menos chocante do que saber que seremos comidos pelos vermes – ironicamente, esta é a “vida eterna”: o corpo não morre, transforma-se e multiplica-se em células e todos os etcs. que os cientistas sabem. Muitos crentes estão informados, o problema é que a crença polui o saber.

O filósofo contenta-se em interpretar. O chato é que eu, tu, nós, vós, eles, pessoas comuns, sofremos as consequências. Ora direis ouvir estrelas, Lula cai e Bolsonaro sobe nas pesquisas. Só se surpreendem os tolos programados para as surpresas – que na sociedade neoliberal se apresentam como simulacros da esperança. O que se espera? – o que se alcança.

Há seis meses, e há três, quando se “esperançava” que Lula venceria no primeiro turno, aqui, nesse espaço, denunciava o ledo engano crido pelos que acreditam na mendacidade do sistema: bastava o capitão deixar de falar palavrões que a classe voltaria ao seu redil. São carneiros, deles, sim, podemos esperar aonde chegam – ao curral, e todos contentes seguirão o mito.

Para o Brasil não há esperança verdadeira, apenas consolação. É balsâmico saber que sobreviveremos a mais alguns anos sob as botas e, quem sabe, em um futuro que nem nossos netos verão, o país se safa dos safados.

O “véio da Havan” e Damares, mais os abençoados pelos pastores, serão eleitos senadores. Edir Macedo e esposa já estão de passaporte diplomático novo. O ministro sacerdote da Educação tem as bênçãos da primeira dama. Por falar nela, seu miliciano de estimação, Fabrício Queiroz, será deputado – provavelmente continuará “operando” suas finanças. Todos os filhos presidenciais terão cargos eletivos na República dos pangarés.

Este é um país sem povo, ainda não é uma nação, apenas uma “federação” governada pela classe média associada aos ricos e poderosos que dão as cartas e o GPS. Sempre deram “um jeitinho”, da independência à república, da abolição ao militarismo e na volta à democracia nunca encaramos as coisas pela raiz. Quem espera que algo mude, saiba: a classe média, que se expressa pela mediocridade dos meios de comunicação (na imprensa, na literatura e nas artes) não abre mão da velha ideologia: Deus, Pátria e Família.

Por outro lado, os pobres estão anestesiados ou procurando o que comer (ou comprar). As domésticas tomam quatro ônibus diariamente para ir às casas dos ricos, que lhes negam até as migalhas. Reclamam, mas continuam na lida. 40% dos crentes votarão em quem o pastor mandar (às vezes, nele mesmo, para fortalecer a bancada da bíblia – e daqueles que exigem propinas em ouro).

A esquerda fugiu da raia e a direita tomou conta – não por acaso Lula associa-se àquele picolé de chuchu. Quem pratica o jus sperniandi (como é o meu caso) certamente será ridicularizado, pois demonstra a incompreensão da “política real” – aliás, realpolitik,expressão alemã preferida por Henry Kissinger para justificar a opressão dos ricos sobre os pobres, dos fortes sobre os fracos.

O que fazer?

Pouco – ou nada. Afinal, só resta à humanidade mais uns dez mil, talvez vinte mil anos antes que todos os humanos desapareçam da Terra. O aquecimento global está derretendo as geleiras nos dois polos e mudando drasticamente o clima. Quem se importa?

O consolo é que o homem não fará falta ao planeta. Pelo contrário, sua extinção será benfazeja – os ecossistemas se reorganizarão, espécies de animais sobreviventes ficarão livres dos predadores, a água se tornará pura e o mar – depois de invadir as cidades litorâneas, deixará de ser um caldo de lixo urbano e industrial. Com a extinção da humanidade a vida se regenerará.

No fim das contas, tanto faz.