Mês: abril 2022

Bolsonaro é apenas o pus do tumor que vai explodir e envenenar o Brasil

Enquanto Bolsonaro não sair da pauta jornalística – e política – o Brasil continuará como sempre foi: um país que concilia a podridão política com a corrupção misturada às injustiças sociais – e suspira ao se iludir que assim se preserva a “democracia”. Essa conciliação é o que interessa ao poder econômico e sustenta a safadeza política. Bolsonaro cai como uma luva no processo: dele discute-se a exceção que se faz regra. Ele substitui o antigo político finório e bem comportado, que adulava o eleitor, e entra como o golpista salvador da pátria que açula seus milicianos. Tudo visto e sabido. Por que continuar nessa “pauta”?

Porque, entre outras causas, não há disposição acadêmica nem dos meios de comunicação para enfrentar uma crítica ao conteúdo social e econômico da sociedade. Enquanto se bate em Bolsonaro escamoteia-se o estudo sobre as origens, causas e efeitos da miséria brasileira. Nesse exato momento gente morre de fome, crianças são abusadas, mulheres estupradas e o que resta dos direitos humanos está em vias de extinção.

É óbvio que uma estrutura econômica desnivelada produz miséria para muitos e riqueza para poucos – e que essa “equação” cria uma cultura consequente à sua manutenção, justificando a desigualdade, premiando a “meritocracia” e distribuindo migalhas enquanto colhe nacos enormes do trabalho da maioria.

Falar de Bolsonaro, com suas ex-mulheres envolvidas em rachadinhas, a primeira dama “servida” pelo tal Queiroz (que pode se eleger deputado), além dos filhos empoleirados na grande mamata que os idiotas acham que o presidente combate, pois, perder tempo com Bolsonaro é fazer o jogo do sistema. Um jogo em que ele, intuitivamente, é mestre: acuado pelas investigações que apontam falcatruas nos seus ministérios, inventa o “perdão” ao aliado que ataca o STF (Supremo Tribunal Federal). Caímos na esparrela: desancamos Bolsonaro e esquecemos o desemprego, a inflação, o cinismo e a hipocrisia alimentada pela manipulação religiosa ao simular um confronto entre o bem e o mal.

Mais que isso: esquecemos que 1% da população é dona de quase metade da riqueza produzida por 99% dos trabalhadores. E não nos preocupamos em desvendar porque as classes médias (alta, baixa e média-média) unem-se aos poderosos cavando seu túmulo.

Esse blog vai sair cada vez menos. Porque não gosto de falar o óbvio. E o óbvio é o que está escrito acima. Mais óbvio ainda é saber que a escolha é entre socialismo e barbárie.

Porém, “ó irmão da opa!”, a barbárie está na cara, mas, qual socialismo?

Eis a questão. O mundo mudou e a esquerda parou no tempo ou se esconde. Ou se ilude na defesa da “democracia” – e vale perguntar: qual democracia? Tudo mudou, Bolsonaro é sintoma do tumor prestes a explodir (ganhe ou perca a eleição). Mas a intelligentsia brasileira faz beletrismo com a forma democrática da dominação e foge como o diabo da cruz de encarar seus conteúdos.

Balança caixão, dá um tapa na bunda e vá se esconder

Antigamente estávamos nas mãos de Deus. Hoje estamos nas garras do uatizapi e das redes sociais. O Brasil é o campeão desse fenômeno mundial – aqui, quanto mais estupidez maior o sucesso.

O grande feito da internet foi democratizar a “ignorantsia” (não existe intelligentsia?) e dar voz a quem devia ficar calado. O prodígio se espalhou pela parte oprimida da sociedade, através do pentecostalismo. Gilberto Freyre ficaria encantado com a “democracia racial” em nome de Jesus: observem e confiram sem medo de parecerem racistas – a maioria absoluta dos pastores são mulatos (a hipocrisia brasileira cancelou essa palavra e pensa que eliminou o preconceito). Finalmente, os pobres, excluídos e ignorantes, os brutos e safados, alguns bem intencionados dentro da sua alienação, tornaram-se gente, pessoas. Falam para seus iguais que entendem a mensagem – e aqui, outra constatação “reacionária”: não é que o meio é a mensagem?

Antigamente votávamos no PT “sem medo de ser feliz”. Hoje, recalcamos nossa infelicidade ao obedecer as regras do politicamente correto, do feminismo autoritário e dos identidarismos: se o distinto for “consciente” nunca dirá lésbica, mas elegebetê alguma coisa. Assim, jamais dirá que o Pelé é negro, pois ele é claramente afrodescendente, embora eu, neto de italianos não seja eurodescendente, mas sim, por vias tortas, afro-ascendente (não explico o que poucos entendem).

O vereador carioca Gabriel Monteiro (PL), naturalmente bolsonarista, simplesmente ex-policial militar e logicamente youtuber milionário, consequentemente contra a corrupção, o que é um paradoxo, pois Bolsonaro afirmou que ela não existe mais, pois, ele criava perfis falsos no youtube para aparecer como benfeitor da humanidade e da animalidade. Dos humanos, preferia defender as crianças “com cara de pobre”, e dos animais, cãozinhos abandonados por tutores desalmados (tutores!).

Para isso apresentava crianças relatando maus tratos e abusos sexuais. Bem assessorado por um advogado para escapar de possíveis punições legais, usava a esposa de um dos seus funcionários, vestida com uniforme escolar e bem maquiada para parecer uma menina, com a aparência alterada por um aplicativo que transforma rostos adultos em infantis. A “menina” relatava como foi violada por um adulto. Em seguida, o vereador “descobria” o falso pedófilo, também criado por um programa & etc.

Assim se fabrica um herói caçador de votos.

Outros heróis surgem naturalmente. Bolsonaro, por exemplo, um mentiroso contumaz, não finge ser o que não é. Ele é. Na motociata de cara ao vento ou montando um jegue, ou cuspindo farofa, ou comendo pão com merda, de qualquer forma ele é o que é: Mito.

Desde os gregos sabemos que quem (que quem?) faz o mito não é o mito, mas quem acredita no mito. O mito é uma necessidade de quem precisa do mito. Assim, Bolsonaro, um genocida mendaz, defensor da tortura e padrinho de milicianos, líder e cúmplice de patetas e prevaricadores, inclusive nos seus ministérios, é inocente, “apenas” fruto do mal do mundo – ele não é culpado por ser o que ele é, pois, quem o criou foram os necessitados de um mito. Um mito que os protegesse, mitologicamente, da “ameaça vermelha” (“nossa bandeira jamais será vermelha”).

Como a história se repete como farsa, os novos mitos são farsantes. Hitler e Mussolini eram revolucionários, foram conduzidos por um processo de mudança política e social que mudaram não só seus países, mas o mundo. Bolsonaro é um farsante que veio para que nada mudasse – confirmando a ironia cínica de Lampedusa (O leopardo), com o apoio hipócrita dos endinheirados que, como sempre, manipulam o medo dos seus vassalos da classe média idiotizada, que nunca deixou de brincar de “balança caixão, dá um tapa na bunda e vá se esconder”.

Eu não me escondo. Taí o perigo…

A dura tarefa para quem sobreviver (porém, com vergonha na cara)

Perguntam-me porque não escrevo este blog com mais frequência. Simples: depois de meio século de jornalismo se eu não soubesse que os brasileiros não têm conserto seria outro idiota.

Aliás, os idiotas ditam as pautas. Bolsonaro só pilota moto, cavalga jegue e come pão com leite condensado porque a idiotia é a base de sustentação das classes dominantes. Falar em classe dominante incomoda muita gente, pois a maioria não entende a classe a que pertence. A classe média, que é a pedra de toque da burrice nacional, não tem sentimento de classe – seu “pertencimento” é o corporativismo. Explicando: a camada intelectualizada dessa classe média sente-se deslocada como classe. Afinal, é oprimida e vê seus salários comidos pela inflação. Mas reage corporativamente – não percebe, e às vezes nem sente, ser parte da massa trabalhadora que alimenta os endinheirados. Mais, essa classe média fornece a intelligentsia que mantem o sistema funcionando: professores, dentistas, médicos, engenheiros, contadores, burocratas etc.

Por isso Bolsonaro conquistou um terço do eleitorado e tem pelo menos um quarto de fanáticos seguidores, todos prontos para perpetuar o regime opressivo e opressor que leva a nação à miséria econômica e à queda moral (em decadência ética estamos há tempos). No entanto, apesar das evidências e dos preços nos supermercados e ao matricular os filhos nas escolas que lhes ensinam a se esquivar dos conteúdos do saber, essa classe média “esclarecida” busca ilusoriamente uma “terceira via”.

Resultado: voltarão às origens – a Bolsonaro, o idiota esperto que já não engana sequer os idiotizados, mas é a “barreira” contra a esquerda. Na visão imbecilizada a esquerda é um monstro que negará as “liberdades democráticas” das “pessoas de bem”. Ora, quem está atrapalhando o “ir e vir” (alienados adoram esses dois verbos da ignorância política) é justamente a direita no poder, ao sucatear os transportes coletivos, aumentar o preço das passagens e da gasolina.

Só uma classe média idiotizada engole um boçal que defende a ditadura, humilha as mulheres, enaltece a tortura e insere sua família e milicianos no centro político do país. O descaramento é cada vez mais indecente: chegou a nomear para dirigir a Petrobras um oportunista, ligado a predadores do gás e do petróleo, que “não sabia” que seus negócios particulares eram incompatíveis com a presidência da maior empresa do Brasil. Teve que desistir, como outro também da mesma espécie, que recusou a chefia do Conselho da Petrobras (está nos jornais, com os detalhes escabrosos – Pires, o quase presidente da petroleira, é acusado de ser financeiramente íntimo de um devedor de mais de R$ 600 milhões ao fisco e pretender uma fatia da Petrobras).

Já dancei todos esses tangos, mas nunca vi tanta conivência da nação com a cafajestagem corrupta como atualmente. Os militares eram claros: a ditadura torturou e permitiu fortunas surgirem da noite para o dia. Mas tinham um mínimo de pudor, o que não acontece com esses milicianos que tomaram o poder, democraticamente!, e nos ameaçam com mais sujeira do que são capazes de produzir – para isso associam-se com gangsteres internacionais: Steve Bannon, ex-estrategista de Trump, “organizou” a mitologia bolsonarista e ainda tenta transformar a Mata Atlântica em um cassino para lavar o dinheiro da indústria bélica, da especulação financeira e da prostituição. Para isso ele precisa de um “governo forte” e, naturalmente, corrupto e desmoralizado internamente.

Como tudo o que pode piorar, piora, a ameaça oculta é a mais perigosa. Por trás do “um manda, outro obedece” esconde-se a justificativa para atos hediondos. A recente anuência do ex-ministro da Educação à corrupção exigida por Bolsonaro, usando os indefectíveis pastores, não é grave apenas pelo crime em si, mas por revelar um estado de submissão popular à vontade autoritária. Esse é o primeiro passo, às vezes sem volta, para a prepotência do Estado alicerçada em uma “ética” especial e específica – a fidelidade ao chefe, dono de uma verdade acima de qualquer suspeita, porta-voz da moralidade imposta por Deus.

Um poema de Brecht diz que “a água posta no vinho não podemos mais separar/ Mas tudo muda: com o último alento podemos de novo começar”.  Tarefa para quem estiver vivo (e com vergonha na cara).