A dura tarefa para quem sobreviver (porém, com vergonha na cara)

Perguntam-me porque não escrevo este blog com mais frequência. Simples: depois de meio século de jornalismo se eu não soubesse que os brasileiros não têm conserto seria outro idiota.

Aliás, os idiotas ditam as pautas. Bolsonaro só pilota moto, cavalga jegue e come pão com leite condensado porque a idiotia é a base de sustentação das classes dominantes. Falar em classe dominante incomoda muita gente, pois a maioria não entende a classe a que pertence. A classe média, que é a pedra de toque da burrice nacional, não tem sentimento de classe – seu “pertencimento” é o corporativismo. Explicando: a camada intelectualizada dessa classe média sente-se deslocada como classe. Afinal, é oprimida e vê seus salários comidos pela inflação. Mas reage corporativamente – não percebe, e às vezes nem sente, ser parte da massa trabalhadora que alimenta os endinheirados. Mais, essa classe média fornece a intelligentsia que mantem o sistema funcionando: professores, dentistas, médicos, engenheiros, contadores, burocratas etc.

Por isso Bolsonaro conquistou um terço do eleitorado e tem pelo menos um quarto de fanáticos seguidores, todos prontos para perpetuar o regime opressivo e opressor que leva a nação à miséria econômica e à queda moral (em decadência ética estamos há tempos). No entanto, apesar das evidências e dos preços nos supermercados e ao matricular os filhos nas escolas que lhes ensinam a se esquivar dos conteúdos do saber, essa classe média “esclarecida” busca ilusoriamente uma “terceira via”.

Resultado: voltarão às origens – a Bolsonaro, o idiota esperto que já não engana sequer os idiotizados, mas é a “barreira” contra a esquerda. Na visão imbecilizada a esquerda é um monstro que negará as “liberdades democráticas” das “pessoas de bem”. Ora, quem está atrapalhando o “ir e vir” (alienados adoram esses dois verbos da ignorância política) é justamente a direita no poder, ao sucatear os transportes coletivos, aumentar o preço das passagens e da gasolina.

Só uma classe média idiotizada engole um boçal que defende a ditadura, humilha as mulheres, enaltece a tortura e insere sua família e milicianos no centro político do país. O descaramento é cada vez mais indecente: chegou a nomear para dirigir a Petrobras um oportunista, ligado a predadores do gás e do petróleo, que “não sabia” que seus negócios particulares eram incompatíveis com a presidência da maior empresa do Brasil. Teve que desistir, como outro também da mesma espécie, que recusou a chefia do Conselho da Petrobras (está nos jornais, com os detalhes escabrosos – Pires, o quase presidente da petroleira, é acusado de ser financeiramente íntimo de um devedor de mais de R$ 600 milhões ao fisco e pretender uma fatia da Petrobras).

Já dancei todos esses tangos, mas nunca vi tanta conivência da nação com a cafajestagem corrupta como atualmente. Os militares eram claros: a ditadura torturou e permitiu fortunas surgirem da noite para o dia. Mas tinham um mínimo de pudor, o que não acontece com esses milicianos que tomaram o poder, democraticamente!, e nos ameaçam com mais sujeira do que são capazes de produzir – para isso associam-se com gangsteres internacionais: Steve Bannon, ex-estrategista de Trump, “organizou” a mitologia bolsonarista e ainda tenta transformar a Mata Atlântica em um cassino para lavar o dinheiro da indústria bélica, da especulação financeira e da prostituição. Para isso ele precisa de um “governo forte” e, naturalmente, corrupto e desmoralizado internamente.

Como tudo o que pode piorar, piora, a ameaça oculta é a mais perigosa. Por trás do “um manda, outro obedece” esconde-se a justificativa para atos hediondos. A recente anuência do ex-ministro da Educação à corrupção exigida por Bolsonaro, usando os indefectíveis pastores, não é grave apenas pelo crime em si, mas por revelar um estado de submissão popular à vontade autoritária. Esse é o primeiro passo, às vezes sem volta, para a prepotência do Estado alicerçada em uma “ética” especial e específica – a fidelidade ao chefe, dono de uma verdade acima de qualquer suspeita, porta-voz da moralidade imposta por Deus.

Um poema de Brecht diz que “a água posta no vinho não podemos mais separar/ Mas tudo muda: com o último alento podemos de novo começar”.  Tarefa para quem estiver vivo (e com vergonha na cara).