Balança caixão, dá um tapa na bunda e vá se esconder

Antigamente estávamos nas mãos de Deus. Hoje estamos nas garras do uatizapi e das redes sociais. O Brasil é o campeão desse fenômeno mundial – aqui, quanto mais estupidez maior o sucesso.

O grande feito da internet foi democratizar a “ignorantsia” (não existe intelligentsia?) e dar voz a quem devia ficar calado. O prodígio se espalhou pela parte oprimida da sociedade, através do pentecostalismo. Gilberto Freyre ficaria encantado com a “democracia racial” em nome de Jesus: observem e confiram sem medo de parecerem racistas – a maioria absoluta dos pastores são mulatos (a hipocrisia brasileira cancelou essa palavra e pensa que eliminou o preconceito). Finalmente, os pobres, excluídos e ignorantes, os brutos e safados, alguns bem intencionados dentro da sua alienação, tornaram-se gente, pessoas. Falam para seus iguais que entendem a mensagem – e aqui, outra constatação “reacionária”: não é que o meio é a mensagem?

Antigamente votávamos no PT “sem medo de ser feliz”. Hoje, recalcamos nossa infelicidade ao obedecer as regras do politicamente correto, do feminismo autoritário e dos identidarismos: se o distinto for “consciente” nunca dirá lésbica, mas elegebetê alguma coisa. Assim, jamais dirá que o Pelé é negro, pois ele é claramente afrodescendente, embora eu, neto de italianos não seja eurodescendente, mas sim, por vias tortas, afro-ascendente (não explico o que poucos entendem).

O vereador carioca Gabriel Monteiro (PL), naturalmente bolsonarista, simplesmente ex-policial militar e logicamente youtuber milionário, consequentemente contra a corrupção, o que é um paradoxo, pois Bolsonaro afirmou que ela não existe mais, pois, ele criava perfis falsos no youtube para aparecer como benfeitor da humanidade e da animalidade. Dos humanos, preferia defender as crianças “com cara de pobre”, e dos animais, cãozinhos abandonados por tutores desalmados (tutores!).

Para isso apresentava crianças relatando maus tratos e abusos sexuais. Bem assessorado por um advogado para escapar de possíveis punições legais, usava a esposa de um dos seus funcionários, vestida com uniforme escolar e bem maquiada para parecer uma menina, com a aparência alterada por um aplicativo que transforma rostos adultos em infantis. A “menina” relatava como foi violada por um adulto. Em seguida, o vereador “descobria” o falso pedófilo, também criado por um programa & etc.

Assim se fabrica um herói caçador de votos.

Outros heróis surgem naturalmente. Bolsonaro, por exemplo, um mentiroso contumaz, não finge ser o que não é. Ele é. Na motociata de cara ao vento ou montando um jegue, ou cuspindo farofa, ou comendo pão com merda, de qualquer forma ele é o que é: Mito.

Desde os gregos sabemos que quem (que quem?) faz o mito não é o mito, mas quem acredita no mito. O mito é uma necessidade de quem precisa do mito. Assim, Bolsonaro, um genocida mendaz, defensor da tortura e padrinho de milicianos, líder e cúmplice de patetas e prevaricadores, inclusive nos seus ministérios, é inocente, “apenas” fruto do mal do mundo – ele não é culpado por ser o que ele é, pois, quem o criou foram os necessitados de um mito. Um mito que os protegesse, mitologicamente, da “ameaça vermelha” (“nossa bandeira jamais será vermelha”).

Como a história se repete como farsa, os novos mitos são farsantes. Hitler e Mussolini eram revolucionários, foram conduzidos por um processo de mudança política e social que mudaram não só seus países, mas o mundo. Bolsonaro é um farsante que veio para que nada mudasse – confirmando a ironia cínica de Lampedusa (O leopardo), com o apoio hipócrita dos endinheirados que, como sempre, manipulam o medo dos seus vassalos da classe média idiotizada, que nunca deixou de brincar de “balança caixão, dá um tapa na bunda e vá se esconder”.

Eu não me escondo. Taí o perigo…