Bolsonaro é apenas o pus do tumor que vai explodir e envenenar o Brasil

Enquanto Bolsonaro não sair da pauta jornalística – e política – o Brasil continuará como sempre foi: um país que concilia a podridão política com a corrupção misturada às injustiças sociais – e suspira ao se iludir que assim se preserva a “democracia”. Essa conciliação é o que interessa ao poder econômico e sustenta a safadeza política. Bolsonaro cai como uma luva no processo: dele discute-se a exceção que se faz regra. Ele substitui o antigo político finório e bem comportado, que adulava o eleitor, e entra como o golpista salvador da pátria que açula seus milicianos. Tudo visto e sabido. Por que continuar nessa “pauta”?

Porque, entre outras causas, não há disposição acadêmica nem dos meios de comunicação para enfrentar uma crítica ao conteúdo social e econômico da sociedade. Enquanto se bate em Bolsonaro escamoteia-se o estudo sobre as origens, causas e efeitos da miséria brasileira. Nesse exato momento gente morre de fome, crianças são abusadas, mulheres estupradas e o que resta dos direitos humanos está em vias de extinção.

É óbvio que uma estrutura econômica desnivelada produz miséria para muitos e riqueza para poucos – e que essa “equação” cria uma cultura consequente à sua manutenção, justificando a desigualdade, premiando a “meritocracia” e distribuindo migalhas enquanto colhe nacos enormes do trabalho da maioria.

Falar de Bolsonaro, com suas ex-mulheres envolvidas em rachadinhas, a primeira dama “servida” pelo tal Queiroz (que pode se eleger deputado), além dos filhos empoleirados na grande mamata que os idiotas acham que o presidente combate, pois, perder tempo com Bolsonaro é fazer o jogo do sistema. Um jogo em que ele, intuitivamente, é mestre: acuado pelas investigações que apontam falcatruas nos seus ministérios, inventa o “perdão” ao aliado que ataca o STF (Supremo Tribunal Federal). Caímos na esparrela: desancamos Bolsonaro e esquecemos o desemprego, a inflação, o cinismo e a hipocrisia alimentada pela manipulação religiosa ao simular um confronto entre o bem e o mal.

Mais que isso: esquecemos que 1% da população é dona de quase metade da riqueza produzida por 99% dos trabalhadores. E não nos preocupamos em desvendar porque as classes médias (alta, baixa e média-média) unem-se aos poderosos cavando seu túmulo.

Esse blog vai sair cada vez menos. Porque não gosto de falar o óbvio. E o óbvio é o que está escrito acima. Mais óbvio ainda é saber que a escolha é entre socialismo e barbárie.

Porém, “ó irmão da opa!”, a barbárie está na cara, mas, qual socialismo?

Eis a questão. O mundo mudou e a esquerda parou no tempo ou se esconde. Ou se ilude na defesa da “democracia” – e vale perguntar: qual democracia? Tudo mudou, Bolsonaro é sintoma do tumor prestes a explodir (ganhe ou perca a eleição). Mas a intelligentsia brasileira faz beletrismo com a forma democrática da dominação e foge como o diabo da cruz de encarar seus conteúdos.