Mês: maio 2022

A dupla face da política tem uma só face. Qual é a face real de Bolsonaro e Elon Musk?

Se observarmos criticamente a dupla face da política tem uma só face. Os Estados Unidos, por exemplo, explodiram bombas atômicas sobre o Japão, o segregacionismo racial prevalece, mas usam um discurso humanista salpicado de cristianismo. Exaltam a democracia, porém, a desigualdade econômica e política é imensa, agravada pelo racismo e exclusão social. Seu judiciário é famoso pelo sucesso de advogados caros na defesa dos privilégios dos ricos. Qual é a sua face real?

O Brasil, a filial mais importante do Tio Sam, segue o mesmo modelo, com as variações óbvias. Bolsonaro é o governante mais mentiroso da história. No entanto cita a Bíblia: “a verdade vos libertará”. Sua família está envolvida em denúncias de corrupção (os filhos, as ex-mulheres e a atual, incluindo outros parentes) e ele se apresenta como modelo de honestidade. Uns 20% de “pessoas de bem” o seguem fanaticamente e outros tantos o preferem ao “perigo vermelho”. Quem está olhando qual face?

Bolsonaro passou trinta anos defendendo a tortura. É tão tosco que foi repudiado até pela ditadura: praticamente foi expulso do Exército com o “elogio” do general Geisel (“é um mau militar”). Apoiado por militares convive com outra parcela da impostura brasileira, os pastores pentecostais. Debocha das minorias, é racista e agride mulheres, além de contribuir para o agravamento da epidemia. & etc. Porém, e daí? – como ele mesmo diz.

Daí que um tipo desses que desmontou o frágil estado de direito e arrebentou a economia, permitiu a agressão impune sobre a Amazônia e ameaça vender a Petrobras, usa da mentira para entregar o que ainda temos, justamente a quem? – aos asseclas de Trump, aos especuladores internacionais que diariamente são desmascarados pela imprensa, mas que continuam “respeitados” por muitos empresários e são acolhidos por governos da periferia capitalista. Trata-se de Elon Musk, um vigarista de alta classe e megalômano ridículo, que procura minérios indispensáveis para fabricar as baterias dos carros elétricos da Tesla.

Com Bolsonaro no Brasil e Trump nos Estados Unidos a Amazônia será uma fonte para o saque de minérios. Entre outros metais e minerais, a região é rica em cobre, ouro e, principalmente manganês, níquel e estanho, o que interessa a Musk. Para quem ainda não perdeu a memória não custa relembrar o golpe na Bolívia, em 2020. Questionado sobre seu papel no episódio, ele “tuitou”: “Nós derrubaremos quem quisermos” – falava respaldado pela CIA e por megacorporações transnacionais.

Imaginem Bolsonaro reeleito, Trump de volta e Musk dono do Twitter – é o cenário perfeito para a bananização do Brasil – voltaremos à nossa “vocação” histórica: República das Bananas (e dos bananas). Esse complexo político tem dupla face que ao fim, mostra sua verdadeira face: ao fazer um discurso que se choca com a realidade, revela a face real – a da empáfia, da mentira, da mendacidade. O problema é que, por uma série de razões que não cabem aqui, a dupla face contribui para que o povo não acredite ou não perceba a verdade – a única face que interessa.

Cenários para a materialização do golpe dado por Bolsonaro e milicos

Discutir se vai ou não haver golpe é perda de tempo. E o tempo não urge, ruge, como se pode constatar pelos urros de Bolsonaro. A questão é: materializado o golpe, quem defenderá a legalidade?

            Cenário 1 – Bolsonaro perde as eleições (se chegarmos até lá). Meia hora depois, ou antes, suas milícias estarão nas ruas. Os órgãos da justiça, tribunais etc., condenam a baderna. Quem será encarregado de “manter a ordem”? As forças armadas, incluindo as polícias militares e civis, justamente as interessadas no golpe. Os milicos reagem com dissimulação e, por fim, encontram o argumento para aderir ao que sempre estiveram grudados: o “movimento cívico” bolsonarista – reproduzindo o papel histórico dos militares: ser a guarda noturna das classes dominantes.

        Qual o argumento/pretexto verde-oliva? O tradicional que historicamente repetem quando exercem a tutela da caserna sobre a nação: evitar uma “guerra civil”. Pois os “cidadãos de bem”, armados e ameaçadores, vociferam nas ruas e nas redes sociais. Os militares dirão que seria um banho de sangue se tentassem conter os “revoltosos” (não custa usar a linguagem deles). Assim, ocorrerá uma “conciliação”, que nada mais será do que a reciclagem da violência política instalada por Bolsonaro e apoiada pelas forças armadas – não digam que entre os fardados há exceções, pois nenhum deles se manifesta contra a bandidagem bolsonarista.

            Cenário 2 – Não haverá eleições, pois os donos do poder, reunidos, decidem que não existem condições para um pleito eleitoral. Alegam que para defender a democracia e garantir a paz social deve-se prorrogar o mandato do cretino atual ou indicam algum pau-mandado para embromar o povo até que encontrem uma solução “legal” à direita e institucionalizem a ditadura disfarçada. Qualquer Castelo Branco servirá…

            Cenário 3 – Em qualquer hipótese a “sociedade civil” reagirá como manda o figurino: manifestos, declarações, apelos ao bom senso etc. A grande imprensa “compreenderá” as “dificuldades momentâneas” do “impasse” e para não aderir imediatamente e se desmoralizar de vez, oferecerá um “apoio crítico” aos governantes do momento, esperando que a situação se “normalize”. E la nave va, já que em qualquer situação o poder econômico e financeiro não será afetado. Muito pelo contrário, um regime ditatorial permitirá com maior facilidade espoliar o potencial do país. A Amazônia está aí para ser destruída na busca de minérios e pastos para a pecuária. Existe melhor negociata privatista no mundo do que a Petrobras? (Talvez só uma grande guerra). E o povo, aquele que ninguém vê? Continuará como está acostumado: passando necessidades, vendo os filhos se perderem nas drogas e no desemprego, mas consolado com as igrejas e o futebol. O melhor de tudo no horizonte da mentira capciosa: a possibilidade de um novo “milagre econômico” para anestesiar as mentes e os corações.

            O que fazer?

A cacologia de Lula expõe a sabujice dos intelectuais de plantão

Cacologia não é um amontoado de cacos – embora possa ser, se o “ator” inventar um texto fora da pauta. Segundo os doutores, cacologia é um vício de linguagem ou o uso de uma palavra fora do contexto. Às vezes está em uma frase defeituosa que deturpa a interpretação da fala. Mas, nos todavias da política, o cacólogo, ao cair no cacologismo, traduz o que realmente pensa. O diabo, que não dorme e tudo vê (se Deus lhe seguisse o hábito estaríamos livres de Bolsonaro), pinça o defeito dentro da narrativa e o expõe para outros usos.

Lula não tem culpa de não saber essas esquisitices: não é doutor, o que antes de o diminuir, o engrandece. Imaginem se conhecesse as artes filosóficas aonde estaria!? Porém, está na capa da Times, de onde as más línguas extraem, do conjunto geral, o particular: estão dizendo que ele disse o que não disse. Mas o que ele disse já disseram muitos: Zelensky e Putin (com a OTAN assoprando) são dois malucos responsáveis pela guerra na Ucrânia.

Mesmo eu não sendo doutor, o que me apequena, dizem, gosto do latinório e não rejeito as greguices. Assim, digo mais sobre o escorregão lulístico: sua cacologia foi provocada pelo cacoetes loquendi, que os mais sabidos já desconfiaram ser uma expressão latina. E não de latim pagão, mas vaticanês, usado por santos e papas. O cacoetes loquendi é a mania que o paciente tem de falar aos quatro ventos, sem medir as consequências. Ele não controla a língua (como eu, mim mesmo, controlo meu latim) e solta o que lhe vai n’alma.

Foi apenas isso o que aconteceu com o Lula na Times. Pensando bem, embora rigorosamente não o seja, Lula tem sido, nos últimos dias, um cleuasmata – essa greguice indica o tolo que fala contra si mesmo. Pois, o cleuasmo, nome da doença falatória, vem do grego kleuasmós, que pode ser entendido como sarcasmo – mas, nesse caso, o cleuasmata suicida-se semanticamente pondo em si próprio os defeitos alheios e dando aos outros as suas qualidades. Perceberam a dialética?

Tradução: Lula disse a verdade, mas a autenticidade dói. Assim, os sacripantas aproveitaram-se da verborragia lulânica para crucificá-lo no altar da democracia, jurando defender os valores humanos. Para tal (mal)feito, se esquece que Zelensky é um picareta que faz da guerra o que fez da sua vida associada e financiada por mafiosos, inclusive russos; e usa a crueldade de Putin e a morte dos ucranianos como palco do seu “heroísmo” político. A OTAN agradece e a indústria bélica aplaude – a morte impulsiona os negócios.

Foi preciso que eu apelasse aos doutores, que sabem tudo e mais alguma coisa, inclusive das filosofices do ofício de bem viver com grana correndo por baixo dos panos, e usasse o palavrório deles, para denunciar o cratilismo que vitupera o ex-metalúrgico, ex-presidente e quem sabe o que será se não brecar a boca.

O quê? Sim, cratilismo é outra helenice (não a moça, a palavra) inspirada em um diálogo de Crátilo ao debater a natureza dos nomes. Ora direis, ou diria Crátilo, o nome das coisas não tem o significado convencional em relação a existência das coisas em si. Entendeu, classe?

Eis porque Lula pode dizer besteira sem se queimar na fogueira da fugacidade cultural de uma elite jornalística metida a besta.