A cacologia de Lula expõe a sabujice dos intelectuais de plantão

Cacologia não é um amontoado de cacos – embora possa ser, se o “ator” inventar um texto fora da pauta. Segundo os doutores, cacologia é um vício de linguagem ou o uso de uma palavra fora do contexto. Às vezes está em uma frase defeituosa que deturpa a interpretação da fala. Mas, nos todavias da política, o cacólogo, ao cair no cacologismo, traduz o que realmente pensa. O diabo, que não dorme e tudo vê (se Deus lhe seguisse o hábito estaríamos livres de Bolsonaro), pinça o defeito dentro da narrativa e o expõe para outros usos.

Lula não tem culpa de não saber essas esquisitices: não é doutor, o que antes de o diminuir, o engrandece. Imaginem se conhecesse as artes filosóficas aonde estaria!? Porém, está na capa da Times, de onde as más línguas extraem, do conjunto geral, o particular: estão dizendo que ele disse o que não disse. Mas o que ele disse já disseram muitos: Zelensky e Putin (com a OTAN assoprando) são dois malucos responsáveis pela guerra na Ucrânia.

Mesmo eu não sendo doutor, o que me apequena, dizem, gosto do latinório e não rejeito as greguices. Assim, digo mais sobre o escorregão lulístico: sua cacologia foi provocada pelo cacoetes loquendi, que os mais sabidos já desconfiaram ser uma expressão latina. E não de latim pagão, mas vaticanês, usado por santos e papas. O cacoetes loquendi é a mania que o paciente tem de falar aos quatro ventos, sem medir as consequências. Ele não controla a língua (como eu, mim mesmo, controlo meu latim) e solta o que lhe vai n’alma.

Foi apenas isso o que aconteceu com o Lula na Times. Pensando bem, embora rigorosamente não o seja, Lula tem sido, nos últimos dias, um cleuasmata – essa greguice indica o tolo que fala contra si mesmo. Pois, o cleuasmo, nome da doença falatória, vem do grego kleuasmós, que pode ser entendido como sarcasmo – mas, nesse caso, o cleuasmata suicida-se semanticamente pondo em si próprio os defeitos alheios e dando aos outros as suas qualidades. Perceberam a dialética?

Tradução: Lula disse a verdade, mas a autenticidade dói. Assim, os sacripantas aproveitaram-se da verborragia lulânica para crucificá-lo no altar da democracia, jurando defender os valores humanos. Para tal (mal)feito, se esquece que Zelensky é um picareta que faz da guerra o que fez da sua vida associada e financiada por mafiosos, inclusive russos; e usa a crueldade de Putin e a morte dos ucranianos como palco do seu “heroísmo” político. A OTAN agradece e a indústria bélica aplaude – a morte impulsiona os negócios.

Foi preciso que eu apelasse aos doutores, que sabem tudo e mais alguma coisa, inclusive das filosofices do ofício de bem viver com grana correndo por baixo dos panos, e usasse o palavrório deles, para denunciar o cratilismo que vitupera o ex-metalúrgico, ex-presidente e quem sabe o que será se não brecar a boca.

O quê? Sim, cratilismo é outra helenice (não a moça, a palavra) inspirada em um diálogo de Crátilo ao debater a natureza dos nomes. Ora direis, ou diria Crátilo, o nome das coisas não tem o significado convencional em relação a existência das coisas em si. Entendeu, classe?

Eis porque Lula pode dizer besteira sem se queimar na fogueira da fugacidade cultural de uma elite jornalística metida a besta.