Mês: julho 2022

O doutor Pimenta mostra que o Brasil não mudou desde a sua morte

Entrevista com Pimenta da Cunha, ex-militar que foi jornalista e escritor. É autor de um livro famoso, do qual saíram, sem tirar nem pôr, as respostas às perguntas que lhe fizemos.

Doutor Pimenta da Cunha, embora imortal o senhor morreu há 113 anos, mas sua voz reverbera. Diga: por que o Brasil continua a mesma zorra e tolera Bolsonaro?

“É um caso vulgaríssimo de psicologia coletiva: colhida de surpresa, a maioria do país inerte e absolutamente neutral constituiu-se veículo propício à transmissão de todos os elementos condenáveis que cada cidadão, isoladamente, deplorava.”

Como o energúmeno chegou à presidência?

“Ora, as maiorias conscientes, mas tímidas, revestiam-se, em parte, da mesma feição moral dos medíocres atrevidos que lhes tomavam a frente. Surgiram, então, na tribuna, na imprensa e nas ruas — sobretudo nas ruas —, individualidades que nas situações normais tombariam à pressão do próprio ridículo. Sem ideais, sem orientação nobilitadora, peados num estreito círculo de ideias, em que o entusiasmo suspeito pela República se aliava a nativismo extemporâneo e à cópia grosseira de um jacobinismo pouco lisonjeiro à história…”

Até que o senhor é estiloso. Mas se eu bem entendi, as “pessoas de bem” carrearam seus preconceitos em Bolsonaro esperando que os militares sofreassem o tipo?

“Aconteceu que a retração criminosa da maioria pensante do país permitia todos os excessos; e no meio da indiferença geral todas as mediocridades irritadiças conseguiram imprimir àquela quadra, felizmente transitória e breve, o traço mais vivo que a caracteriza. Não lhes bastavam as cisões remanescentes, nem os assustava uma situação econômica desesperadora: anelavam avolumar aquelas e tornar a última insolúvel. E como o exército se erigia, ilogicamente, desde o movimento abolicionista até à proclamação da República, em elemento ponderador das agitações nacionais, cortejavam-no, captavam-no, atraíam-no afanosa e imprudentemente…”

 De sorte que (como o senhor diz abrindo vários parágrafos [o Jânio Quadros te imitou, sabia?]), mas, doutor Pimenta, as “pessoas de bem” botaram uma cavalgadura no poder por acreditar que os generais o domariam?

“O feiticismo político exigia manipansos de farda.”

Peraí, caro defunto. Hoje ninguém sabe o que é manipanso. No seu tempo, quando queriam dizer que um pateta seria manipulado, diziam que ele parecia um ídolo africano gorducho, o tal manipanso. No nosso caso deu errado: o tal manipanso é que manipula os idiotas. Porém, antigamente, os militares tinham fama de patriotas imarcescíveis, como os milicos diziam do Caxias. Verdade ou era só fachada?

“Eles ostentavam o mais simples e emocionante gênero de oratória — a eloquência militar, esta eloquência singular do soldado, que é tanto mais expressiva quanto é mais rude — feita de frases sacudidas e breves, como as vozes de comando, e em que as palavras magicas — Pátria, Glória e Liberdade — ditas em todos os tons, são toda a matéria-prima dos períodos retumbantes. Os rebeldes seriam destruídos a ferro e fogo…”

Doutor Pimenta, parece que o senhor fala do Bolsonaro… O senhor escreveu sobre um coronel meio doido, o Corta Cabeças, que foi herói da República…

“Era ainda um capitão e embora nunca houvesse arrancado da espada em combate, recordava um triunfador — o homem para as crises perigosas e para as grandes temeridades.”

O povo, não chiava? E os colegas de farda?

“A insânia estava exteriorizada. Espelhavam-na a admiração intensa (…) A multidão poupara-lhe o indagar torturante acerca do próprio estado emotivo, o esforço dessas interrogativas angustiosas e dessa intuspecção delirante, entre os quais envolve a loucura nos cérebros abalados. Remodelava-o à sua imagem.”

 Existem seis mil militares em cargos no governo Bolsonaro. Os militares, quando criticados, falam de patriotismo, heroísmo…

“Uma caricatura do heroísmo. Os heróis imortais de quarto de hora, destinados a suprema consagração de uma placa à esquina das ruas, entravam, surpreendidos e de repente, pela história dentro, aos encontrões, como intrusos desapontados, sem que se pudesse saber se eram bandidos ou santos, envoltos de panegíricos e convícios, surgindo entre ditirambos ferventes, ironias e invectivas despiedadas…”

O que fazer com Bolsonaro?

“Cabe à sociedade, nessa ocasião, dar-lhe a camisa de força ou a púrpura. Porque o princípio geral da relatividade abrange as mesmas paixões coletivas. Se um grande homem pode impor-se a um grande povo pela influência deslumbradora do gênio, os degenerados perigosos fascinam com igual vigor as multidões tacanhas. Ora, entre nós, se exercitava o domínio do caput mortuum das sociedades.”

Esse caput mortuum é supimpa. Somos mesmo um país de cabeças mortas. Obrigado doutor Pimenta. Seu livro continua imortal, embora o senhor tenha abusado do cientificismo, mas a gente dá um desconto.

Notao nome completo do nosso entrevistado é Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha, autor de Os Sertões, entre outros livros.

Como, direto e reto, mandar Bolsonaro aos quintos do inferno

1- A “reunião” de Bolsonaro com os embaixadores estrangeiros escancarou o golpismo. Para quem defende o estado de direito a única tática é derrotar Bolsonaro. Mas qual a estratégia?

Aí moram os poréns dos entretantos e o atrapalho da terceira via. A tática para derrotar Bolsonaro exige alguma frouxidão ética para conseguir firmeza política. Na defesa da democracia a política “do bem” age pragmaticamente com o modus operandi vigente (que pode ser moldável a posteriori), porém, a “do mal”, que almeja a ditadura, piora fatalmente. Tradução: as reservas sobre Lula devem ser relevadas para através dele derrotarmos o autoritarismo. Nesse quadro, a terceira via não passa de pudicícia para justificar o nojo de meter a mão na massa.

Na política burguesa todos se aliam circunstancialmente aos mesmos corruptos e disputam as graças de idênticos corruptores: o centrão, a coronelada das finanças e do agronegócio, o militarismo. Mas há uma questão de grau, o que disfarça o bodum de uns e destaca o fartum de outros. Se taparmos o nariz o mais fedorento vence.

Sonhar com pureza ética ou ideologia ajuda o golpismo. Como a política brasileira é uma contradição em termos, mistura de metafísica e dialética, preservar a ética por pruridos morais ou ideológicos, renegando a “realpolitik” por repúdio a Bolsonaro, sem levar em conta o que está em jogo, favorece o golpe.

É um erro pensar que votar em Lula é render-se a tática que busca nossa submissão estratégica para encobrir a flexibilidade moral petista – este seria o discurso bolsonarista, se fosse minimamente racional. Os dois antagonismos têm dificuldade para entender que uma “suspensão ética” em vista da hecatombe política está acima do julgamento moral. Mas não há tempo para firulas “filosóficas”.

2- Protágoras dizia que o homem é a medida de todas as coisas. Para ele não existe uma verdade absoluta. É o filósofo por excelência para justificar escorregões éticos quando, conscientemente, aderimos ao “mal menor”, iludindo-nos que atravessaremos o lodo e chegaremos à margem boa do rio – fechando os olhos para o pântano que nos engolirá e reciclará nossa consciência política, marcada pelo antípoda daquele que renegamos.

Voltando a Protágoras, sua frase completa é: “O homem é a medida de todas as coisas, das que são pelo que são e das que não são pelo que não são”. As “coisas que são”, na política brasileira, visivelmente são. E as que “não são”, não são. A sofística de Protágoras não serve, aqui, para disfarçar o que é do que não é – tudo é muito claro. Ninguém está confuso, pois nesse jogo de antípodas as ideias são primárias, toscas e, até, primitivas.

Eis porque este blog deu (e dará) um tempo: para não levar água ao moinho que nos mói.

3- Oque fazer?

Melhor pensar nisso depois de derrotar Bolsonaro. Um caminho, talvez, seria preservar a memória coletiva e reprocessar a desmemoria individual. Com a memória histórica enfrentamos o mundo real que nos esmaga. A memória pessoal é uma cilada que cultiva ilusões passadas.

            Assim como lembramos nossos desastres históricos, não olvidemos a dominação de classes e seus instrumentos atuais. É preciso enfrentar o opressor com os fatos à mão, para denunciar o tirano e o torturador. Mesmo sabendo que as ditaduras criam monstros, desprezemos toda vingança, pois esse sentimento nos sufoca. Só seremos politicamente honrados quando nos tornarmos negros, mulheres, indígenas, lgbtqiap+ e excluídos em geral na luta pela justiça. Depois, quando não houver trevas, sim – o que fazer?

Só se interessar pelo homem feito de derrotas. Aquele que tropeça no tapete, o filho da puta, o que nada tem e perde o que não tem. Nesse caminho não é preciso ser amado, mas amar. Nada querer; dar. Desprezar a felicidade. Suportar a vida, vil como ela é. Não fazer parte dos mecanismos que favorecem os vencedores, brutos de alegria, embriagados de ter. Apenas ser.

            Enfim, deixar a vida renascer dentro da morte na alma. Sorrir, para que não pisoteiem suas lágrimas. Quem sabe não surgirá uma nova tática para nossa estratégia?

            Sei que é ingenuidade. Mas é assim que mandarei Bolsonaro pros quintos do inferno.