Como, direto e reto, mandar Bolsonaro aos quintos do inferno

1- A “reunião” de Bolsonaro com os embaixadores estrangeiros escancarou o golpismo. Para quem defende o estado de direito a única tática é derrotar Bolsonaro. Mas qual a estratégia?

Aí moram os poréns dos entretantos e o atrapalho da terceira via. A tática para derrotar Bolsonaro exige alguma frouxidão ética para conseguir firmeza política. Na defesa da democracia a política “do bem” age pragmaticamente com o modus operandi vigente (que pode ser moldável a posteriori), porém, a “do mal”, que almeja a ditadura, piora fatalmente. Tradução: as reservas sobre Lula devem ser relevadas para através dele derrotarmos o autoritarismo. Nesse quadro, a terceira via não passa de pudicícia para justificar o nojo de meter a mão na massa.

Na política burguesa todos se aliam circunstancialmente aos mesmos corruptos e disputam as graças de idênticos corruptores: o centrão, a coronelada das finanças e do agronegócio, o militarismo. Mas há uma questão de grau, o que disfarça o bodum de uns e destaca o fartum de outros. Se taparmos o nariz o mais fedorento vence.

Sonhar com pureza ética ou ideologia ajuda o golpismo. Como a política brasileira é uma contradição em termos, mistura de metafísica e dialética, preservar a ética por pruridos morais ou ideológicos, renegando a “realpolitik” por repúdio a Bolsonaro, sem levar em conta o que está em jogo, favorece o golpe.

É um erro pensar que votar em Lula é render-se a tática que busca nossa submissão estratégica para encobrir a flexibilidade moral petista – este seria o discurso bolsonarista, se fosse minimamente racional. Os dois antagonismos têm dificuldade para entender que uma “suspensão ética” em vista da hecatombe política está acima do julgamento moral. Mas não há tempo para firulas “filosóficas”.

2- Protágoras dizia que o homem é a medida de todas as coisas. Para ele não existe uma verdade absoluta. É o filósofo por excelência para justificar escorregões éticos quando, conscientemente, aderimos ao “mal menor”, iludindo-nos que atravessaremos o lodo e chegaremos à margem boa do rio – fechando os olhos para o pântano que nos engolirá e reciclará nossa consciência política, marcada pelo antípoda daquele que renegamos.

Voltando a Protágoras, sua frase completa é: “O homem é a medida de todas as coisas, das que são pelo que são e das que não são pelo que não são”. As “coisas que são”, na política brasileira, visivelmente são. E as que “não são”, não são. A sofística de Protágoras não serve, aqui, para disfarçar o que é do que não é – tudo é muito claro. Ninguém está confuso, pois nesse jogo de antípodas as ideias são primárias, toscas e, até, primitivas.

Eis porque este blog deu (e dará) um tempo: para não levar água ao moinho que nos mói.

3- Oque fazer?

Melhor pensar nisso depois de derrotar Bolsonaro. Um caminho, talvez, seria preservar a memória coletiva e reprocessar a desmemoria individual. Com a memória histórica enfrentamos o mundo real que nos esmaga. A memória pessoal é uma cilada que cultiva ilusões passadas.

            Assim como lembramos nossos desastres históricos, não olvidemos a dominação de classes e seus instrumentos atuais. É preciso enfrentar o opressor com os fatos à mão, para denunciar o tirano e o torturador. Mesmo sabendo que as ditaduras criam monstros, desprezemos toda vingança, pois esse sentimento nos sufoca. Só seremos politicamente honrados quando nos tornarmos negros, mulheres, indígenas, lgbtqiap+ e excluídos em geral na luta pela justiça. Depois, quando não houver trevas, sim – o que fazer?

Só se interessar pelo homem feito de derrotas. Aquele que tropeça no tapete, o filho da puta, o que nada tem e perde o que não tem. Nesse caminho não é preciso ser amado, mas amar. Nada querer; dar. Desprezar a felicidade. Suportar a vida, vil como ela é. Não fazer parte dos mecanismos que favorecem os vencedores, brutos de alegria, embriagados de ter. Apenas ser.

            Enfim, deixar a vida renascer dentro da morte na alma. Sorrir, para que não pisoteiem suas lágrimas. Quem sabe não surgirá uma nova tática para nossa estratégia?

            Sei que é ingenuidade. Mas é assim que mandarei Bolsonaro pros quintos do inferno.