Autor: juliochiavenato

Coerência de Bolsonaro

Políticos e profissionais da área da saúde estão estarrecidos com o pronunciamento de Bolsonaro, ontem, em rede nacional. Parece que ainda não acordaram: o tipo só fala e faz besteiras e nem a ameaça à vida de milhões de brasileiros o detém. Portanto, se ele chama o conivid-19 de “gripezinha” e “resfriadinho”, nada a admirar; repete o seu repertório.

O que realmente nos falta é o “diagnóstico” feito pelos psicólogos, psiquiatras, psicanalistas e neurologistas sobre o presidente. Falta-nos um profissional arguto para analisar os cacoetes de Bolsonaro ao ler no teleponto o seu comunicado.

Comecemos pela leitura: ele deve ser disléxico, diria um psicólogo amador. Não me arrisco a afirmar, porque não sou tão irresponsável quanto ele ao invadir a seara alheia. Mas, observem como ele tem notória dificuldade para ler, dar ritmo à fala e, até mesmo, entender o que está dizendo. Ao ler, seus olhos se apertam ou se abrem excessivamente, as palavras saem aos solavancos, as frases entre vírgulas sofrem um intervalo inquietante – a impressão é que ele não sabe quando deve continuar ou por o ponto final.

Ao se referir aos seus desafetos, reais ou imaginários, entorta a boca e aparece um ensaio de esgar, por exemplo, ao fazer alusão “àquele médico daquela televisão” – e esta simples lembrança soa como um ato falho, ou coisa do gênero.

Um psiquiatra talvez fosse mais rigoroso. Perceberia certos sintomas na entonação da voz e na postura corporal, na imobilidade facial acompanhada de involuntários tiques nas comissuras dos lábios. O presidente seria um “caso clínico”, deveria ser observado mais atentamente e, quem sabe, talvez precisasse de um daqueles ansiolíticos de tarja preta para se acalmar?

Com um psicanalista o “caso” seria mais interessante. Além da gestualidade e as emoções contidas ou enrustidas, ele procuraria as raízes das preocupações sexuais do presidente, que aparecem, vez por outra, indisfarçadamente. Bolsonaro já disse preferir um filho morto a um homossexual. E gosta de piadinhas infames e ofensivas contra as mulheres.

Por fim, o que faria um neurologista? Como sou muito ignorante só sei que o neurologista trata clinicamente as doenças nervosas e que uma das especialidades da neurologia é a neurocirurgia, que cuida das mazelas do sistema nervoso com intervenção cirúrgica. Epa!, esse é o profissional que pode operar o cérebro.

Deus nos acuda! Na minha santa e imensa ignorância não sei qual terapeuta recomendar ao presidente Bolsonaro. Além de saber que nada sei, sei uma coisa só: nada do que ele fizer me espanta.

O vírus como metáfora

Como fica, ou deveria ficar, o exercício político em tempos de pandemia?

A pergunta não se refere aos políticos, mas aos cidadãos comuns que direta ou indiretamente participam da vida política. Em específico, jornalistas. E entre eles, quem opina.

O coronavírus tem duas frentes de combate principais: a ciência e a política. Depois vêm as consequências no cotidiano, incluindo as mudanças econômicas e restrições pessoais. A ciência precisa da política. São os políticos no governo que decidem os financiamentos necessários à pesquisa e ações práticas. Eis o primeiro, e mais grave, problema enfrentado pelo Brasil. O presidente Bolsonaro é hostil aos pesquisadores e despreza a ciência. Logo no início do mandato começou o desmonte das instituições científicas e universidades, cortando verbas, extinguindo programas essenciais e, o pior, nomeando para cargos chaves nos ministérios da Educação e da Ciência e Tecnologia, pessoas incompetentes, desqualificadas para o cargo e ressentidas.

Ao começar a epidemia, sem perceber sua gravidade o presidente fez uma série de declarações absurdas e agiu irresponsavelmente, sendo obrigado a se corrigir para voltar a reincidir nos erros. Tomou medidas contra a classe trabalhadora, que foi obrigado a cancelar e mentir sobre suas razões. Foi o caso da medida provisória permitindo a suspensão de contratos de trabalho sem o pagamento de salários: ao revogar o ato insinuou que parte do texto teria sido sabotada, ao “desaparecer pelo caminho”. No seu estilo nunca afirma; mente e lança as dúvidas que alimentam seus seguidores nas redes sociais.

Apesar de tudo, no início da crise o ministro da Saúde conseguiu impor-se e tomar medidas satisfatórias para combater o vírus. Mas, não demorou, até ele começa a ser contestado. A evolução da crise superou a capacidade mobilizadora do ministro, limitado pelas medidas iniciais do governo. O ministro Mandetta é mais gestor político do que cientista e suas ações condicionam-se pelo empirismo da “governança”, sem força política nem capacidade intelectual para confrontar um sistema de poder populista – a partir de certo ponto começa a inflexão.

O resto é sabido, apesar da pouca informação concreta sobre o que nos espera. Pode ser ruim, pior do que se pensa e, talvez, Deus ajude. O problema é que em casos de pandemia a tendência é piorar sempre, até o fim, com a indiferença de Deus, que às vezes atrapalha, como queria o pastor Malafaia ao teimar em manter seus templos abertos, propiciando a concentração humana e favorecendo a disseminação do vírus.

O que um jornalista de opinião deve fazer?

Lavar as mãos com água, sabão e, se necessário, álcool gel. Mas, também, meter as mãos na política e lembrar que se não há culpados existem responsáveis. Entre os responsáveis, os inconsequentes que não assumem sua irresponsabilidade: são os políticos idiotizados por estranhas esquisitices e crenças ideológicas, como o presidente Bolsonaro. De mãos lavadas, confinados em casa, aproveitemos para ler, ou reler, “A peste”, de Camus, um livro que não trata apenas de ratos vomitando sangue e pessoas que morrem em hospitais fétidos ou jogadas pelas ruas, mas, também, é uma metáfora sobre a politica contaminada pelo vírus da estupidez.

Da bizarrice à necessidade

Como explicar a bizarrice dos bolsonaros?

Pela própria bizarria do Brasil. Somos um país em que a ignorância predomina e a mentalidade primitiva explica o mundo. Não importa se há dois mil anos descobriu-se que a Terra é redonda, se no cotidiano o sujeito anda no chão plano. A evolução das espécies e as teorias científicas são derrotadas pelas crenças. Tudo óbvio.

            Óbvio, também, que os bolsonaros são parte desse ambiente e usam os preconceitos e a ignorância como armas políticas. Como os senhores medievais eles têm um “filósofo” particular que lhes ensina como funciona o mundo. Desconhecem a ética porque nunca entendem a lógica e o paralogismo está à mão. Nada melhor do que as teorias da conspiração para “provar” que eles estão no caminho certo: contam com o “bom senso” popular.

            Portanto, é ocioso discutir a bizarrice dos bolsonaros sem levar em conta o país e a cultura bizarra que os produziu. São uns idiotas, mas têm o poder. E este poder é legitimado pela base de incultos que encontraram, finalmente, um clã sem pudor para defender seus preconceitos. Note-se, o poder é legitimado por uma maioria precária, suscetível de mudanças, mas não é legítimo.

            A bizarrice brasileira apresenta essa bizarria, que nem chega a ser uma contradição em termos: em nome da democracia permite-se ao populismo arrogante agir contra a democracia. Isto não significa nenhum paradoxo, mas a “lógica” bizarra do sistema que se vale da mistificação das massas ignaras e alienadas para manter o status quo da dominação. Eis que, bizarramente, a manutenção do status quo, com as classes dominantes financiando os bolsonaros, pode levar a uma ruptura política, embora, praticamente, não a perda do controle destas “classes superiores” sobre a sociedade.

            Em termos de uma sociedade excludente e que assim quer permanecer, os bolsonaros nem chegam a ser o mal necessário – são a necessidade de um sistema perverso.

Fale besteira, não trabalhe

É comum os críticos de Bolsonaro reclamarem que ele deve parar de falar e fazer besteiras e comece a trabalhar. Nada disso: se ele trabalhasse estaríamos na pior. Falando besteiras ele faz o melhor pelo país, justamente porque não “trabalha” as idiotices que propaga. Ele afirmou, por exemplo, que o perigo do coronavírus está superestimado, que o bichinho não é tão letal e outras “gripes” mataram mais. Falando assim, ninguém o leva a sério, a não ser meia dúzia de fanáticos. Mas se ele “trabalhasse” aquilo que fala poderia demitir o ministro da Saúde e colocar um olavista no lugar. Então, culparia o marxismo cultural pela epidemia e tudo voltaria ao “normal”: jogos de futebol, manifestações contra o Congresso e o Supremo etc. – como consequência o vírus se espalharia. Portanto, melhor que prossiga falando besteiras. É o que ele sabe. Que não se disponha a trabalhar, pois desgraçaria o Brasil.

Os idiotas somos nós

Se um idiota diz que o coronavírus é uma tática de Satanás, o que pensar? O paspalho é o bispo Edir Macedo, portanto, corrijam a pergunta: ele não é idiota. Construiu e lidera um império financeiro sustentado por uma rede religiosa mundial, elegeu deputados e senadores, fez do sobrinho prefeito do Rio, foi peça fundamental na eleição de Bolsonaro e sua emissora de televisão é um dos veículos do populismo presidencial.
Alguém diria que ele obtém tanto sucesso justamente porque é idiota. O paradoxo é “lógico”: imbecis sem pudor, e muita esperteza, são úteis para desempenharem o papel necessário à engrenagem de dominação.
Começou expulsando demônios e curando câncer, aproveitando-se da ignorância popular ou fraudando imagens. Para ele afluíram os desvalidos, atraídos pelo poder da sugestão.
Não era idiota. Não é imbecil. Mas aconselhou a não se preocupar com o coronavírus, “Porque essa é a tática, ou mais uma tática, de Satanás. Satanás trabalha com o medo, o pavor. Trabalha com a dúvida. E quando as pessoas ficam apavoradas, com medo, em dúvida, as pessoas ficam fracas, débeis e suscetíveis. Qualquer ventinho que tiver é uma pneumonia para elas”.
Diante da epidemia e do risco comprovado, como julgar a fanfarronice de Bolsonaro, participando de uma manifestação que ele fingiu desaconselhar e abraçando correligionários? Como julgar sua “desculpa”, dizendo que a responsabilidade é dele. Conhecerá o presidente do Brasil o conceito de responsabilidade que o cargo exige?
Poderíamos dizer que os eleitores de Bolsonaro foram idiotas? E que os patéticos que gritam “mito” são imbecis? E que as instituições e todos os que assistem ao espetáculo estão paralisados pelo ineditismo da situação?
Talvez chegou a hora de mudar o conceito das coisas: os idiotas somos nós.

As profundas raízes

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“Um espectro ronda a Europa: o espectro do comunismo”. Quando Marx/Engels cunharam esta frase de abertura do Manifesto Comunista, publicado em fevereiro de 1848, havia a perspectiva da revolução que colocaria o proletariado no poder e derrotaria o capitalismo. A reação burguesa foi brutal, de 1848 até a queda do muro de Berlin, em 1981. A vitória bolchevique em 1917, na Rússia, respondeu com a mesma brutalidade.

Mas o mundo gira e o império soviético caiu, levando para a cova o chamado socialismo real. Restou Cuba, caso à parte, que nos remete mais ao carisma de Fidel do que à luta de classes; e é necessária muita boa vontade (ou má) para achar que regimes como o da China e da Coreia do Norte sejam socialistas; quanto à Venezuela o caso é de ignorância e má fé.

Na época do Manifesto, com Marx e Engels vivos, a posterior criação das Internacionais e o surgimento de revolucionários de grande capacidade intelectual e poder de aglutinação política (e provocadores de “rachas”), como Lenine e Trotsky, o comunismo era citado como um fantasma pelos próprios comunistas, porém, foi possibilidade real e representou perigo de fato para a ordem capitalista.

Hoje, que não existe nem é ameaça, continua como ilusório risco iminente, mas ao contrário: fantasmagórico, é usado pela direita desvairada para justificar a concentração de renda e poder político e garantir sistemas de privilégios sociais e exploração econômica. A consequência imediata é um golpe na democracia e nas liberdades civis, que são os fundamentos da ordem burguesa. A meta é acuar toda oposição democrática denunciando-a como comunista. Se não há comunistas no mundo real, cria-se um espectro: o fantasma do marxismo cultural.

Por que esse processo grosseiro tem sucesso?

Como sempre, a resposta está na história.

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Os gregos desenvolveram uma civilização em que a filosofia e as artes floresceram entre contradições e conflitos, e nos legaram a fonte do que hoje pensamos ser os grandes valores da humanidade. Na arquitetura o Partenon é o modelo perfeito da “regra de ouro”, sugerindo proporções quase obrigatórias. Na escultura o padrão estético de Fídias e sua escola é admirado e estudado até hoje. Sócrates, Platão, Arquimedes, Aristóteles, Demócrito unem-se a Sófocles, Eurípedes, Aristófanes, Ésquilo e tantos outros gênios.

Por motivos que não cabem aqui, essa civilização, de várias nuances, acabou materialmente, mas penetrou espiritualmente no novo mundo que surgia com o fim do imperialismo romano e a ascensão do cristianismo em aliança com as novas monarquias. Este processo solidificou-se a partir do século IV, com a vitória do Papado e o estabelecimento de um novo centro de poder em Roma.

Fazendo um corte abrupto: do século IV ao XIV a chamada civilização ocidental e cristã destaca-se por fazer o caminho inverso da cultura grega, embora apelando ao seu “rescaldo” cultural: sai Platão, entra Aristóteles e com Tomás de Aquino impõe-se a escolástica. O pensamento é preso por dogmas e o autoritarismo ortodoxo faz do combate às heresias e aos heréticos uma arma ideológica para subjugar a “sociedade civil” e submetê-la à Igreja (isto é, o poder papal aliado às várias expressões de dominação política e econômica).

Este longo período de quase mil anos destaca-se por produzir as piores forças repressivas da história. Surgiram as Cruzadas, a Inquisição, a caça às bruxas e aos sodomitas, a submissão das mulheres, a perseguição aos judeus e as guerras santas contra os ímpios. Os grandes intelectuais foram perseguidos e muitos morreram na fogueira. Até bem depois, no século XIX, ainda se queimavam hereges e reformadores sociais.

A partir dos anos 1400 abrem-se brechas no sistema de dominação e na Renascença as artes e a literatura renovam as ideias, porém a política permanece anárquica e corrupta– com Machiavel tenta-se por ordem na casa, mas é difícil verificar a sua importância no processo desse tempo. Além do mais o estrago já estava feito e tínhamos um legado de intolerância cujas raízes sustentam o conservadorismo reacionário até nossos dias – reforçado pela Reforma e seu sectarismo.

O que isso tem a ver com o Brasil atual?

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Ao que interessa, se é que chegaram até aqui.

O problema não é Bolsonaro, mas o complexo da herança medieval que perpassou a história e estacionou no conservadorismo religioso que, por sua vez, alimenta os preconceitos que justificam um governo fascistóide, insciente até das forças reacionárias que o levou ao poder.

Não são as “arminhas” e as mentiras, sequer a ligação com as milícias, mas o discurso religioso-populista, principalmente nas redes sociais, que garante o “caráter” do presidente. Enquanto Bolsonaro tem prazo de validade, determinado pelas eleições, a raiz do bolsonarismo consolida-se na “pregação” pela internet e no púlpito. O pastor falando à “sua” comunidade é um risco maior do que o comportamento agressivo da família presidencial. O presidente passa, o fanatismo bíblico fica. Não é difícil entender: ainda hoje, tantos séculos depois, os preconceitos da Inquisição e a moralidade medieval estão manifestos nas crenças da maioria do povo.

Assim como os inquisidores eram descartados pela Igreja e a Inquisição prosseguia, se não nos defendermos os bolsonaros da vida deixarão o palco, mas o reacionarismo prevalecerá com novos atores. Será pior, porque já existe uma base populista que controlará o sistema repressivo-político condicionado pelas crenças da massa alienada.

A solução? Precisa ser inventada.

O SUS é nossa grande conquista

Estamos perdendo da dengue e o coronavirus já chegou. A população se apavora. As autoridades pedem calma. Mas a epidemia anunciada não é tão letal e temos condições de superá-la.

E a dengue? Bastaria limpar o quintal e por sal nos ralos. Cortar os matagais. Simples tarefas. Mas não conseguimos. No pico da crise os hospitais se enchem e os postos de saúde entram em colapso. Em Ribeirão Preto, como em todo o país, crianças ainda morrem de uma picada de mosquito. O que fazer?

Um pouco de história

Entre o fim do século XIX e o começo do XX várias epidemias atingiram o Brasil; Ribeirão Preto e São Simão sofreram muito. Em São Simão, em 1903, a epidemia de febre amarela, que vinha intermitente desde 1876, chegou ao auge. A cidade, dominada pelos coronéis do café, tremeu. Naquela época se acreditava que a febre amarela se propagava pelo contágio com os doentes. Muito naturalmente os coronéis encerram os lavradores nas fazendas. Não adiantou: a febre se espalhou e muita gente morreu. Os ricos abandonaram a cidade e os pobres morriam abandonados.

Um médico mandado pelo governo do estado tentou curar os enfermos com medidas tradicionais. Até ele morreu da febre. Emílio Ribas chegou a São Simão. Ele sabia que a febre era causada pela picada do mosquito. Para convencer a coronelada e a população fez seus auxiliares serem picados pelo mosquito, comprovando como se propagava a epidemia.

Nem assim os donos da terra aceitaram. Então, ele comeu restos de comida dos doentes e dormiu nas camas dos mortos, provando que não havia transmissão por contágio. Finalmente concordaram em erradicar os criadouros. E a febre foi vencida.

Emílio Ribas combateu os mosquitos antes de Oswaldo Cruz. Em Jaú ele quase foi linchado pela população ao denunciar um curandeiro que prometia curar a febre amarela com rezas e mezinhas. Teve de apelar à força armada para limpar os focos do mosquito.

Em Ribeirão Preto a febre amarela foi vencida em poucos dias, em 1905, porque o prefeito Ricardo Guimarães e os fazendeiros seguiram o exemplo de Emílio Ribas em São Simão – um mutirão que envolveu toda a população limpou rapidamente terrenos, quintais e praças.

Mas em 1918 chegou a gripe espanhola. Então os coronéis fecharam as porteiras e as estradas; ninguém saía e ninguém entrava, para evitar o contágio. A epidemia matou à vontade, inaugurou-se um cemitério só para suas vítimas. Mas como veio, a “espanhola” se foi.

Primeira lição: O pânico aumenta o risco. Devemos ouvir os especialistas.  Segunda lição: É preciso evitar o contágio, tomando cuidados indicados pelas autoridades de saúde pública e deixar a vida correr.

Conclusão: Ainda hoje não conseguimos erradicar os criadouros do mosquito da dengue. Mas o ministro da Saúde diz que estamos preparados para o corona vírus. Conclusão da conclusão: que conclusão tirar?

Viva o SUS

Nesse tempo de desmonte de tudo que é “social” no Brasil e uma adoração cega para o que vem dos Estados Unidos, é preciso cuidado com a nossa saúde pública. O sistema de saúde pública norte-americano é um dos mais perversos do mundo e na verdade é praticamente inexistente.

Reportagem de Diogo Bercito (https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/02/sistema-de-saude-que-leva-familias-a-falencia-sera-crucial-para-definir-rival-de-trump.shtml), na Folha (28-2) mostra a falência de muitas famílias que precisaram custear o tratamento de doenças ou, o que é pior, não puderam ter assistência alguma porque não tinham dinheiro. Isso afeta até a classe média alta. Mesmo tendo plano de saúde, um tratamento de câncer, por exemplo, pode ter custos extras de até US$ 50 mil e doenças degenerativas têm “adicionais” de US$ 150 mil. Uma exame hospitalar para conferir se a gripe não é causada pelo coronavírus pode custar US$ 14 mil. O preço de remédios específicos é altíssimo. As seguradoras têm o direito de negarem a pagar contas, mesmo quando os custos não excedam o que está no contrato. Já o paciente não pode recorrer: está na lei.

O sistema de saúde do Tio Sam será o tema mais forte na campanha presidencial. Mas os norte-americanos têm estranhas ideias sobre saúde pública. Quando o então presidente Obama tentou implantar um sistema público de saúde foi acusado de “comunista”. Trump liquidou o que restava e, no primeiro momento, teve apoio dos eleitores. Segundo o Health-Care Now, a opinião pública tratava a saúde pública como um “delírio socialista”. Mas a situação chegou ao limite.

Última conclusão: não desprezem o SUS.

Como ler as linhas tortas

Linhas tortas

Dizem que Deus escreve certo por linhas tortas. Para entender o Brasil é preciso acertar as linhas e desentortar a escrita.

O caso do clã Bolsonaro e seu relacionamento com a democracia, a imprensa e a política vai do obscuro ao trevoso.

Retrospecto: a esquerda, de forma quase generalizada, acusava a imprensa, especialmente a Rede Globo, de fazer o jogo da direita, deformando os fatos para prejudicar as forças progressistas. Boa parte da opinião pública acreditava nessa “tese” esquerdista.

O intenso apoio da Rede Globo à Operação Lava Jato ajudou a indispor o eleitorado contra o PT, o que não exigiu muito esforço. Desde 2016, dia sim e outro também, o Jornal Nacional expunha a corrupção no governo de Dilma Rousseff e destacava as investigações do Ministério Público que implicavam Lula na quadrilha que assaltou os cofres públicos (o JN começava com uma cornucópia derramando dinheiro).

O resultado foi o impeachment de Dilma e a derrota de Haddad. Correndo por fora, Jair Bolsonaro emplacou a presidência num golpe de sorte desferido por uma facada. Exceto raros partidos nanicos, os outros, do PSDB, MDB ao DEM, descarregaram votos no capitão, inclusive o PDT de Ciro Gomes.

Ovo choco

A serpente chocou o ovo e a família Bolsonaro assumiu o controle. No primeiro ano no poder tantas aprontaram que a direita obrigou-se a criar uma “oposição seletiva”. O Senado e a Câmara têm presidentes do DEM: Alcolumbre e Maia. Publicamente eles se opõem aos filhos e só se manifestam contra o pai presidente quando ele extrapola e atrapalha os projetos econômicos. Como agora, com o apoio à projetada manifestação contra o STF e o Congresso.

Para a opinião pública de ouvidos feridos pela incontinência verbal da família presidencial, Alcolumbre e Maia (principalmente), são os grandes opositores a Jair Bolsonaro. Ledo engano: eles, como toda a imprensa (ressalvem-se alguns jornalistas), apoiam com unhas e dentes o “projeto liberal” simbolizado no presidente, tramado no conluio com as “classes produtoras” para implantar o neoliberalismo. A oposição de fato seria o PT. Mas o PT não tem força nem moral para se apresentar ao eleitorado como defensor da democracia e dos trabalhadores. Além do mais, seu problema é a sobrevivência e o que fazer com Lula.

Eis onde entram as linhas tortas: foi com os desmandos da Lava Jato e os deslizes de Moro que ficamos cientes dos desvios do PT. Isto é, a Lava Jato nos trouxe a verdade através de excessos, forçando delações e vazando notícias que prejudicaram eleitoralmente o PT.

Auto-oposição

Daí chegamos à imprensa. O clã Bolsonaro mente e produz fake news que convencem sua plateia de que são os jornalistas que mentem e produzem fake news. O ponto é: para quem eles mentem? Resposta: para quem acreditar – os pacóvios que gritam “mito”. Estes seus seguidores creem (trata-se de uma crença) e fazem estardalhaço pelas redes sociais, desde que descobriram a mamadeira de piroca.

Conclusão: antes de Bolsonaro a esquerda quis nos convencer que a imprensa era omissa e parcial. Do ponto de vista ideológico pode ser verdade. Não conseguiu. Com Bolsonaro, a direita desvairada jura que a imprensa é canalha, mentirosa e persegue o presidente. Está dando certo, porque se dirige a quem abastece o seu imaginário político com primitivas teorias da conspiração.

Da mesma forma a direita ganhou o jogo político: tornou-se a oposição dela mesma, fazendo crer que o Congresso, controlado pelo DEM, PSDB e MDB que manipulam o baixo clero, pode por um freio nas cafajestadas do presidente e seus filhos. Ainda não aprendemos que o lobo não protege o rebanho… Nesse drama, quem escreve nas linhas tortas distorce a verdade e impõe a mentira como verdadeira.