Categoria: Ensaios

A tortura como método da ditadura militar

Na última semana o golpe militar de 1964 mereceu destaque na imprensa. Falou-se genericamente sobre a repressão, a censura e a perseguição a estudantes, políticos, sindicalistas e cientistas – e, evidentemente, a perda das liberdades democráticas e das garantias do Estado de Direito. Faltou detalhar o modus operandi dos torturadores. Este “ensaio” é uma adaptação do ultimo capítulo do meu livro O golpe de 64 e a ditadura militar, que relata a tortura sobre algumas vítimas da ditadura.

O líder comunista Gregório Bezerra tinha 63 anos ao ser preso pela polícia particular do usineiro Zé Lopes. O fato ocorreu nos primeiros dias de abril de 1964, no interior do Pernambuco. Transferido para Recife, Gregório foi espancado pelo coronel Villocq Viana e seus soldados, no quartel do Exército. Recebeu socos, pontapés e pancadas com barras de ferro. Obrigaram-no a caminhar descalço sobre ácido jogado no chão. Com os pés em carne viva, amarrado pelo pescoço com três cordas, puxado por soldados, foi levado pelas ruas da capital pernambucana.

O coronel comandava a exibição, mostrando ao povo o “comunista traidor da pátria”. O ex-chefe de polícia Wandenkolk Wanderley, tomando a corda de um soldado, gritava: “Este é o comunista que queria destruir o lar de vocês. Agita agora, traidor”. E desabavam socos e pontapés sobre o prisioneiro.

O povo assustou-se; mulheres desmaiaram. O coronel Villocq Viana levou o cortejo até sua casa, para exibir o “traidor da pátria” à esposa. O homem ensanguentado, porém altivo, respondia às pancadas e insultos com uma pergunta: “É esta a civilização cristã e ocidental?” Seu comportamento impressionou a mulher, que caiu numa crise de choro. Irritado, o coronel aumentou os gritos e a força das pancadas.

A agressão a Gregório Bezerra foi o prenúncio do que aconteceria no Brasil: a prepotência da polícia particular dos poderosos, tortura dentro dos quartéis e o histerismo da “nova autoridade” exibida ostensivamente como patriotismo. Mas um prenúncio ainda tímido: tudo iria piorar.

Os primeiros meses pós-golpe ficaram marcados pela detenção de aproximadamente 50 mil pessoas. Os militares realizaram uma “operação pente-fino”: de rua em rua, de casa em casa, procuravam suspeitos, livros, documentos, qualquer coisa que ligasse os acusados ao governo anterior ou à “subversão”. Não se prendiam “culpados”, mas todos os que não podiam provar inocência. Poucos líderes sindicais e estudantis escaparam da repressão.

O interrogatório era acompanhado de espancamento, que endurecia conforme a “periculosidade” da vítima. Sofriam mais os inocentes e os alheios à política – por não terem o que esconder, não mentiam, diziam que nada sabiam e, por isso, tornavam-se altamente suspeitos pela sua “resistência”.

Nas primeiras semanas depois do golpe, a imprensa (ainda sem censura plena) noticiava timidamente as violências. Mas a revista Time informou ao mundo a existência da Operação Limpeza, assegurando que se prendiam em média 10 mil pessoas por semana. A imprensa interna-cional divulgou a situação do Brasil e já em setembro de 1964 – seis meses após o golpe – as entidades internacionais de defesa dos direitos humanos começaram a denunciar o regime militar.

Prendeu-se tanto que as cadeias foram insuficientes. O Maracanã virou presídio; navios da Marinha receberam centenas de “subversivos”. Os quartéis em todo o Brasil lotaram-se de prisioneiros. A impunidade estimulou o uso da tortura. Cometeram-se tantos abusos que a imprensa brasileira também começou a denunciá-los. O governo Castelo Branco, geralmente apresentado como “democrático”, prometia investigar, enquanto a violência ia se incorporando ao cotidiano nacional.

Em 1968 o AI-5 impôs à imprensa a mais brutal censura da história do Brasil. Absolutamente nada que “ofendesse” o governo podia ser noticiado. A partir de então a violência tornou-se um método de dominação. Todos os jornais, inclusive os que apoiaram o golpe, foram censurados e alguns dos seus diretores presos.

Em abril de 1968, explodiu uma bomba tão forte no saguão de O Estado de S. Paulo que arrebentou os vidros dos edifícios localizados em um raio de 500 metros. As autoridades atribuíram o atentado às “forças de esquerda”, usando o fato para justificar o aumento da repressão e da censura. Dez anos depois descobriu-se que a explosão havia sido preparada e executada pelo Estado-Maior do II Exército.

Seguiram-se outros atentados planejados pelo II Exército para culpar a esquerda, entre eles um idealizado pelo general Jaime Portela, chefe da Casa Militar da Presidência da República. Em 20 de agosto de 1968, um grupo de soldados da Força Pública de São Paulo explodiu uma bomba em um estacionamento em frente ao Deops (Departamento da Ordem Política e Social). A operação era tão secreta que seu líder foi torturado por engano nas dependências do Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais): pressionado, Aladino Félix (também conhecido por “Sábado Dinotos”) confessou ter agido sob as ordens do general Portela.

Os atentados de direita multiplicavam-se, alguns com o objetivo claro de intimidar políticos, artistas ou intelectuais, outros para incriminar as esquerdas. O CCC (Comando de Caça aos Comunistas) atacou livrarias, teatros, cinemas e escolas.

Um dos mais espetaculares atentados projetados pelo governo – ou por militares ligados ao poder – acabou frustrado pela recusa de um oficial em executá-lo. Em 1968, o brigadeiro João Paulo Penido Burnier, chefe de Gabinete do ministro da Aeronáutica, Márcio de Souza Mello, planejou explodir o gasômetro do Rio de Janeiro, com o auxílio do Para-SAR (uma divisão da Aeronáutica treinada para salvamentos na selva). Milhares de pessoas morreriam, mas, segundo o brigadeiro Burnier, o atentado seria necessário para “salvar o Brasil do comunismo”, instigando o ódio da população contra os “subversivos”, que levariam a culpa pelas mortes.

O capitão-aviador Sérgio Miranda de Carvalho, encarregado de executar o plano, negou-se a cumprir a missão e ameaçou denunciá-la, caso Burnier pretendesse levá-la adiante com outros oficiais. O plano frustrou-se, mas o capitão Sérgio foi afastado da Aeronáutica, em 1969, acusado de “louco”.

Só em 1978 a verdade foi conhecida, graças ao depoimento do brigadeiro Eduardo Gomes, em defesa do capitão Sérgio. O brigadeiro confirmou que se preparava “a explosão de gasômetros, a destruição de instalações de força e luz, (que seriam) posteriormente atribuídas aos comunistas”. Em seguida ao pânico, viria a segunda etapa:

“(aconteceria) sumariamente, a eliminação física de personalidades político-militares, o que, no seu entendimento (do brigadeiro Burnier), possibilitaria uma renovação nas lideranças nacionais. A execução de tal plano aproveitar-se-ia do momento psicológico em que as passeatas e agitações estudantis perturbavam a ordem pública”.

O ano-chave da institucionalização da tortura foi 1969. Nesse ano, com a intensificação da guerrilha e dos assaltos a bancos por grupos de esquerda, deu-se início à organização metódica da repressão. Aperfeiçoou-se o uso psicológico da violência. Surgiram as “salas especiais”, munidas de aparelhagem de torturas: cadeiras e camas eletrificadas, paus-de-arara etc. Paralelamente, aprimo-raram-se os meios legais e os tribunais que encobriam a tortura. Médicos e legistas apresentavam os violentados como indivíduos gozando de plena saúde e os assassinados na tortura como vítimas de “morte natural”. Os cadáveres que não podiam ser escondidos apareciam em terrenos baldios ou eram sepultados anonimamente ou, ainda, informava-se que morreram atropelados.

Para fazer tudo isso não bastou a imposição do autoritarismo – o regime precisou, também, “limpar” as Forças Armadas dos elementos mais democráticos ou que não pactuavam com as violências. Onze dias depois do golpe, o Exército já computava 122 oficiais expulsos, sob a acusação de serem “contra-revolucionários”. Centenas receberam advertências por sua conduta revolucionária “fraca”. Os militares punidos eram considerados oficialmente “mortos”: perdiam seus direitos, e suas esposas ganhavam pensão de “viúva”. Até 1967, as Forças Armadas expurgaram 1.228 oficiais, sendo 510 do Exército, 374 da Aeronáutica e 344 da Marinha.

Enquanto isso os IPMs (Inquérito Policial Militar) recorriam aos mais curiosos argumentos. Edson Germano de Brito, por exemplo, foi condenado porque seu comunismo era um “mal de família”. No IPM de Goiás, consta que ele era “notoriamente comunista (…) aliás, parece mal de família, pois isso ocorre com todos os Germano do estado de Goiás”. Outro comunista “de família” foi Mauro Campos Neto, “que aprendeu os rudimentos do próprio partido com seu pai, Jaci Neto”.

Para assessorar a repressão, importaram-se vários técnicos norte-americanos. Um desses especialistas, Dan Mitrione, ficou bastante conhecido. Ele sequestrava mendigos nas ruas de Belo Horizonte e os levava aos quartéis, para servirem de cobaia: torturava-os para ensinar a policiais e militares brasileiros os princípios da tortura “científica”. Dan Mitrione, que no tempo da ditadura foi nome de rua em Belo Horizonte, acabou morto no Uruguai pelos tupamaros (extremistas de esquerda).

Mas nem só mendigos se transformaram em cobaias. Vários estudantes também “colaboraram” com o aprendizado dos torturadores. Maurício Vieira de Paiva, de 25 anos, foi torturado para uma sequência de fotografias, em aula para cem militares das Forças Armadas, “sendo instrutor um tenente Hayton”, segundo seu depoimento em 1970. Isso aconteceu em todo o Brasil: jovens, homens e mulheres, velhos, ricos e pobres caíram vítimas do processo.

Há centenas de depoimentos sobre as torturas nos arquivos da Justiça Militar e de entidades de defesa dos direitos humanos. Eles descrevem os mais variados métodos: o pau-de-arara, a cadeira-do-dragão, a pimentinha, o afogamento, a geladeira, os choques elétricos e até o emprego de insetos e animais (no Rio de Janeiro usava-se uma jibóia chamada Miriam). O livro Brasil: nunca mais traz uma extensa coleção de relatos e denúncias comprovadas sobre a prática da tortura.

Seria necessário muito espaço para especificar os vários tipos de torturas e enumerar as vítimas do regime militar. Alguns casos porém merecem destaque. No Nordeste, os latifundiários aproveitaram-se da situação para satisfazer as vinganças mais cruéis. Em Tempo de Arraes, Antonio Callado fala de “um chifre de boi com a ponta cortada”. Conforme um camponês contou ao escritor, o tal chifre seria usado para a aplicação de um clister (introdução de substância líquida por via anal) nos subversivos:

“É o chifre de clister do feitor Valentim. Gostava de matar gente pela traseira. Ele tinha uma receita para quando pegasse o deputado Julião: creolina, sebo e pimenta. Para Arraes, salitre derretido, sebo e óleo de mamona”.

Em 1º de agosto de 1967, o Correio da Manhã publicou uma notícia que retratava bem os novos tempos e a impunidade dos poderosos:

“O trabalhador rural José Roque Leite foi alvejado a tiros pelos seus patrões Apolônio
Teodósio e Amaro Teodósio, proprietários do engenho Batinga, em Barreiros, Pernambuco, e teve ainda pernas e mãos cortadas  como castigo, por ter sido considerado ‘relapso no trabalho’. Os patrões do líder rural não foram presos pela polícia e justificaram o crime como de ‘caráter político’, desde que o camponês José Roque Leite era suspeito de ser comunista”.

Esse tipo de repressão provocou várias reações. Uma delas, o suicídio. A tortura como método conseguiu matar o homem no homem: deixava marcas tão profundas que, depois, se tornava difícil querer viver. Para alguns dos torturados, a indignidade do outro – o torturador –  atingia-os de tal modo que era impossível continuar pertencendo àquela humanidade.

A ditadura apelou ao “suicídio” quando não tinha como explicar seus crimes. A primeira vítima fatal da tortura (conhecida oficialmente) foi o tenente José Ferreira de Almeida, da Força Pública de São Paulo. Sua morte foi registrada como “suicídio”. Em 1975 aconteceu em São Paulo a Operação Jacarta, liderada pelo secretário da Segurança, coronel Erasmo Dias. Visava prender vários suspeitos de subversão. Entre eles foi detido o jornalista Vladmir Herzog, que morreu em conseqüência das torturas. Os órgãos de segurança informaram que ele “suicidou-se”. Outro que morreu nas torturas, o operário Manoel Fiel Filho, também apareceu nos documentos oficiais como “suicida”. Nos três casos provou-se posteriormente a farsa — nenhum cometeu suicídio, todos form assassinados.

Alguns aspectos da repressão atingiram tal dramaticidade que escaparam ao controle da ditadura, estimulando o povo a solidarizar-se com as vítimas e dar forças à oposição.

Em 28 de março de 1968, a Polícia Militar invadiu o restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro. Alegou-se que os estudantes que tomavam refeições no local pretendiam manifestar-se contra os Estados Unidos, em frente à sua embaixada. Os soldados atiraram, feriram alguns estudantes e mataram Edson Luís de Lima Souto, de 16 anos. A notícia espalhou-se rapidamente pelo Rio. Organizaram-se passeatas e protestos. O corpo do estudante foi velado na Assembléia Estadual.

No dia seguinte, milhares de pessoas acompanharam o enterro do secundarista. À noite, os estudantes voltaram às ruas, carregando tochas e cantando o hino nacional em surdina. Tentaram fazer uma vigília diante da Assembléia, mas acabaram expulsos pela polícia.

O enterro do jovem marcou a “virada” do povo: a ditadura era francamente antipatizada. A emoção tomou conta do Rio. Cerca de 30 mil pessoas assistiram à missa de sétimo dia, na Igreja da Candelária. Terminada a missa, o povo saiu e sofreu uma carga de cavalaria: golpes de “espada em prancha”, “cutucadas” de baionetas e “atropelamentos” pelos cavalos. Segundo um relato do Jornal do Brasil:

“Mulheres, velhos e crianças corriam em todas as direções, e os cavalarianos desembainhavam as espadas, enquanto os outros usavam cassetetes. Todo o dispositivo policial montado na Candelária foi acionado, e começou a espancar os populares. Os cavalarianos atiravam seus animais sobre a multidão”.

Tentava-se intimidar o povo. Sem resultado: à tarde realizou-se nova missa e o bispo dom José de Castro Pinto, de mãos dadas com populares, formou um círculo em torno da igreja, para impedir o ataque da cavalaria. Ao fim da missa, o povo saiu em passeata, com o bispo e padres à frente.

A morte de Edson Luís e os acontecimentos seguintes tiveram uma grande importância: “jogaram” a Igreja para o lado dos estudantes e da oposição. A partir daquele momento, o que já acontecia em setores isolados do catolicismo passou a ser uma política quase oficial: a Igreja, quando não se posicionava ostensivamente contra a ditadura, pelo menos condenava as violências e defendia os perseguidos, sem se importar com sua cor política.

A Igreja forneceu um dos principais contingentes que enfrentou a ditadura: sacerdotes e leigos aliaram-se à AP (Ação Popular) e apoiaram outros grupos da luta armada, inclusive marxistas, como exemplifica a ligação dos dominicanos com Marighela.

Centenas de católicos, inclusive dezenas de padres, foram torturados e mortos em todo o Brasil. Entre os casos mais trágicos encontra-se o de frei Tito, torturado cruelmente pelo delegado Fleury e equipe. Depois de resistir à destruição do corpo, frei Tito sucumbiu à tortura psicológica. Uma pequena frase do seu depoimento, em Memórias do Exílio, revela o seu desespero: “Só havia uma solução: matar-me”.

Livre das perseguições, convalescendo na França, frei Tito não suportou a lembrança das torturas e suicidou-se, em 1974, aos 29 anos. O seu suicídio foi na verdade um assassinato à distância, uma conseqüência das torturas  que o delegado Fleury infligiu-lhe na prisão.

O aparelho de repressão lançou mão de todos os meios – um deles, o da difamação, marca registrada dos regimes fascistas. Logo após a morte de Marighela o jornal O Globo encarregou-se da infâmia: “Eles (os dominicanos) traíram sua fé passando para o comunismo, depois traíram o comunismo entregando Marighela; são os novos Judas”.

A morte de Bacuri é outro emblema da brutalidade. O governo militar informou que Bacuri, nome de guerra de Eduardo Leite, morreu ao fugir da prisão e resistir à polícia. Mentira: ele tinha sido torturado brutalmente. Furaram seus olhos, quebraram suas pernas, cortaram suas orelhas. A equipe de Fleury torturava-o diariamente. Executaram-no com uma machadada, na véspera de sua libertação, que ocorreria no resgate de presos após um seqüestro. Seu corpo foi entregue à família. Ao abrirem o caixão, amigos e parentes depararam com o horror: um rosto sem olhos e orelhas – ele não tinha rosto.

Se não existissem milhares de outros, Tito e Bacuri bastariam para demonstrar do que uma ditadura é capaz.

A ditadura não poupou nem as crianças. Prendeu o menino Eduardo, de quatro anos, junto com sua mãe, a professora Maria Madalena Prata Soares. Torturou o carpinteiro Milton Gaia Leite, sua esposa e seus filhos, de cinco e seis anos. Provocou abortos em dezenas de mulheres. E fez do estupro uma norma, conforme relatou Inês Etienne Romeu:

“A qualquer hora do dia ou da noite sofria agressões físicas e morais. ‘Márcio’ invadia minha cela para ‘examinar’ meu ânus e verificar se ‘Camarão’ havia praticado sodomia comigo. Este mesmo ‘Márcio’ obrigou-me a segurar seu pênis, enquanto se contorcia obscenamente. Durante este período fui estuprada duas vezes por ‘Camarão’ e era obrigada a limpar a cozinha completamente nua, ouvindo gracejos e obscenidades, os mais grosseiros”.

Enquanto cometia esses atos, a ditadura mostrava-se ao povo como guardiã da “civilização cristã” contra o “comunismo ateu”. Forjava depoimentos e quebrava de tal modo a resistência psicológica de alguns presos, que eles se apresentaram na televisão, durante o governo Médici, como “terroristas arrependidos”, dizendo que eram bem-tratados e que a esquerda cometia atrocidades.

Um balanço ainda precário registra a prisão de 50 mil pessoas. Pelo menos 20 mil sofreram torturas. Além dos 320 militantes da esquerda mortos, outros 144 continuam “desaparecidos”. No fim do governo Geisel existiam cerca de 10 mil exilados. As cassações atingiram 4.682 cidadãos. Foram expulsos das faculdades 243 estudantes.

A tomada de Uruguaiana pelos paraguaios

Publicado originalmente em O Correio do Povo, de Porto Alegre, no dia 13 de junho de 2020.

Antes de entrar nas particularidades da invasão paraguaia no Rio Grande do Sul, duas considerações. A primeira: a guerra é o ápice da estupidez humana e da exacerbação do patriotismo. Exaltar os feitos militares é compactuar com a carnificina.

A segunda: na periferia do mundo, a partir da metade do século XIX, quando o colonialismo ensaia-se em imperialismo, nenhum país sai dando tiros sem a interposição das grandes potências. O que não impediu o presidente Mitre, da Argentina, de usar a guerra para substanciar seu poder e calar adversários e Pedro II fingir não ver pecuaristas cobiçosos da terra alheia atacarem o Uruguai. Nem que a historiografia crie vilões, heróis e mártires.

Ao estudar a invasão paraguaia é bom saber que sem o financiamento inglês o Brasil sequer afiaria suas espadas. Nos quarenta anos de 1825 a 1865 os empréstimos ingleses ao Império somaram 17.737.520 libras. Em cinco anos de guerra, de 1865 a 1870, a dívida chegou a 31 milhões de libras.

A invasão foi um erro de Solano López, com graves consequências para a derrota final. Em seu favor deve-se dizer que ele conhecia melhor a província sulina do que o governo imperial. Sabia que os caudilhos rio-grandenses chefiavam uma tropa de maltrapilhos, furtavam o soldo dos praças e seria fácil tomar Uruguaiana, pois contava com a “ajuda” de Mitre e a “traição” dos generais Osório e Canabarro, como veremos. Mas manter a conquista seria outra história.

Os rio-grandenses não se identificavam com o Império. O “Jornal do Commércio”, do Rio de Janeiro, a voz gaúcha na Corte, publicou em 20 de agosto de 1864: “As terras da República [do Uruguai] tiveram valor depois que os brasileiros com sua indústria e atividade as enriqueceram com seus gados”. Antes, em 1 de outubro de 1863: “Nós, rio-grandenses (…) saberemos fazer com que nos respeitem. Torna-se inevitável um conflito do Império com a República [do Uruguai] ou com a província do Rio Grande”. O aviso era claro: ou o Império intervinha no Uruguai ou haveria uma “reação valorosa” dos rio-grandenses; talvez, a separação da província. Finalmente, exigiam que tropas imperiais depusessem o governo oriental.

O Império cedeu, derrubou o governo constitucional uruguaio e colocou Venâncio Flores na presidência. Os gaúchos brasileiros tiveram suas posses confirmadas. O Paraguai sentiu-se ameaçado. Uruguaiana aparecia como uma presa fácil. Por quê?

O Brasil praticamente não tinha exército até a guerra. Em 1864 contava com 15.091 praças e 1.723 oficiais; no papel. Metade eram nomes fictícios que os comandantes relacionavam para embolsarem o pagamento de soldos, armas etc. Especialmente no Rio Grande do Sul.

Ao conhecer a realidade o governo imperial criou 55 corpos de voluntários da pátria. Enviou a maioria ao Rio Grande. Deixando de lado como se “convocavam” tais voluntários e o uso de escravos em substituição aos seus senhores, destacamos que os arregimentados chegavam “totalmente incapazes de todo serviço de paz e guerra”, como atestou o presidente da província, Souza Gonzaga, em carta de 7 de junho de 1865, ao ministro da Guerra, duas semanas antes da queda de Uruguaiana.

Gonzaga decidiu organizar uma tropa local. Mas os peões gaúchos recusavam a infantaria, pois se sentiam humilhados ao marcharem a pé. Pitorescamente, ele criou a Infantaria Montada: “(…) adotando-se o sistema de marcharem a cavalo os corpos de infantaria (…) Os corpos de São Leopoldo e Santa Ana dos Sinos (…) pretendo fazê-los marchar a cavalo, porém armados à infantaria”.

Então, o general João Caldwel informou ao comando militar central que em Jaguarão e Bagé a tropa, “além de desfardada, está completamente desarmada”. Menna Barreto, ao receber os voluntários, protestou que eles não tinham “a mais pequena aparência de soldados, inclusive o seu comandante”.

O ministro da Guerra foi ao Rio Grande e acampou perto de Uruguaiana, onde confirmou o péssimo estado dos combatentes. Ao presidente da província reclamou que “a cavalaria está desmontada, o número de cavalos comprados é fabuloso, e todos os dias se fazem novas compras”. Mas os cavalos não apareciam. Gonzaga explicou que os encarregados de comprar os cavalos culpavam o pasto ruim e diziam que os animais morriam. O barão de Jacuhy, um desses compradores de cavalos fantasmas, é citado por ele: “(…) o barão de Jacuhy [alega] que a cavalhada dos corpos de sua divisão está péssima, devido isto aos maus pastos, e tratava de comprar mais cavalos”.

Como tal exército reagiu à invasão paraguaia?

Debandou ou não lutou. Vários documentos o comprovam. Gonzaga, em carta ao ministro da Guerra, afirma que só apareceram “no lugar do combate cerca de 200 praças da força de 1ª brigada, quando, segundo os mapas que me transmite e que envio inclusos à V. Ex., o efetivo dessas forças é de 2.423”. Os que se apresentaram para a luta “deram a primeira descarga e fugiram”, como relatou o coronel Fernandes Lima. A debandada teve aspectos grotescos, se confiarmos nos oficiais que estavam na frente de batalha. Fernandes Lima, em representação ao presidente da província, conta que os voluntários “ficaram completamente nus” na fuga. O mais grave não foram a corrupção, a desorganização e a “covardia”. Mas a subserviência do general Osório ao presidente argentino, o que permitiu a invasão se efetuar com a omissão dos caudilhos rio-grandenses.

Quando os paraguaios entraram no território brasileiro as tropas comandadas por Canabarro não deram combate e até se afastaram, permitindo-lhes a passagem. O general Caldwell informa ao governo imperial em 5 de agosto de 1865, que foi impedido de conter os invasores:

“(…) chamei à minha presença os comandantes das divisões e brigadas para concentrarmos o plano de atacar (…) Todos, a exceção do barão de Jacuhy, responderam-me, sem preâmbulos, que achavam impossível o podermos derrotar o inimigo, a menos que tivessem mais quatro mil homens de infantaria! E o mais acérrimo nesta opinião era o próprio brigadeiro David Canabarro!!! (…) Foi assim que, de braços cruzados, vi impassível a Uruguaiana em poder do inimigo”.

Em 1º de janeiro de 1865, seis meses antes da invasão, Canabarro informou ao presidente da província que dispunha de 4 mil homens para guarnecer as fronteiras e, se o inimigo se aproximasse poderia reunir 8 mil soldados. Como vimos, apareceram 200 que correram desnudos, segundo o depoimento de vários oficiais.

Em 17 de agosto de 1865, o ministro da Guerra, Silva Ferraz, no gabinete instalado em Caçapava, instaura inquérito para apurar a responsabilidade pela inação militar brasileira. Foram submetidos a interrogatório os generais Menna Barreto, Caldwell, Canabarro e Jacuhy. Em ordem do dia censurou-se Canabarro.

Foi instaurado um Conselho de Guerra e uma comissão de engenheiros militares concluiu que o Rio Grande só foi invadido porque Canabarro permitiu. Ele defende-se, alegando que houve um acordo entre Mitre e Osório, para permitir a entrada dos paraguaios em território brasileiro, o que se comprova posteriormente.

Então, apura-se que Mitre e o general Osório concordaram que os paraguaios invadissem o Brasil e ordenaram a Canabarro facilitar as coisas. O “plano” foi de Mitre, que era o comandante militar da Tríplice Aliança. Osório aceitou e Canabarro obedeceu. Tudo sem o conhecimento do Império.

Mitre armou tal estratagema para desviar o exército paraguaio de Corrientes. Segundo ele, “o teatro da guerra é definitivamente Corrientes”, que não poderia cair em mãos do inimigo. Questionado em 24 de setembro de 1865 pelo ministro da Guerra se houve de fato um acordo com Mitre para facilitar a invasão, o general Osório confirma, em 3 de outubro de 1865:

“Respondo a V. Ex. que houve um plano combinado; e tanto que em 17 de agosto foi batido o inimigo em Yatahy pelo Exército aliado de vanguarda, ao qual, e para o efeito, se veio unir à divisão Paunero, que estava no rio Corrientes”.

Assim, a não resistência à invasão de Uruguaiana foi planejada por Mitre para salvar Corrientes e neutralizar a pressão sobre ele dos caudilhos argentinos – e apresentada a Osório como uma estratégia de guerra. Os paraguaios sabiam que não seriam molestados e cometeram o erro de invadir o Rio Grande. O cerco de Uruguaiana e a rendição do general paraguaio Estigarribia é história bem conhecida e dispensa maiores comentários.