Categoria: Letras

A vingança de Camus

Marx, no East Cemetery, em Londres

Passou a juventude debruçado nos livros. Aprendeu alemão para ler Marx no original. Há cinquenta anos estudava o Das Kapital. Queria escrever um tratado definitivo: mostraria que o socialismo é a redenção dos povos, o caminho para o comunismo científico, o fim da miséria humana. Ensinaria ao mundo os métodos da revolução sem os riscos e o sangue enfrentados por Lenine. Nunca mais Stalin. Não se apressava, era trabalho de cinquenta, sessenta anos.

            Aos 82 anos, quando estava preparado para a grande tarefa, caiu o muro de Berlim. Viu ruir o império soviético. Uma nova direita ofendia sua lógica. Os povos do antigo mundo socialista apareciam na televisão, dentes de ouro, banguelas, rindo e debochando das estátuas de Lenin arrastadas por tratores. Festejavam o capitalismo.

            Sua memória fotográfica projetou as páginas de Hegel. Seria a tese, antítese, síntese, a longa pausa? Repensou a dialética desde Demócrito a Marx, não desprezou sequer as cinco vias de Tomás de Aquino, que ele roubou da metafísica e aplicou ao materialismo dialético. E não conseguiu entender o que dera errado. Tinha certeza que os erros da classe dirigente da União Soviética não levariam ao fim do socialismo. Seria contra as leis do determinismo histórico. Seria anticientífico.

            Estava confuso e surpreso. O que ele não previra?

Repensou a sua vida e descobriu, sem nenhuma emoção, achando que era a coisa mais natural do mundo, que não tinha vida – vivera para estudar a Revolução.

            Saiu para uma caminhada. Sentou-se no banco da praça. Um velho, como ele, puxou conversa. Não soube dialogar, o velho era ignorante, nada sabia das concepções marxistas. E tinha um cheiro estranho. O velho afastou-se. Mas o cheiro ficou.

            Voltou para a casa atulhada de livros, manuscritos. Diante da máquina de escrever lembrou-se que precisava comprar um computador. Temeu que não conseguisse pensar sem a velha Remington. Ora, pensou, o capitalismo produz as máquinas que fazem a revolução. Com a máquina de escrever o jornalismo ficou mais ágil, os escritores puderam produzir mais. Surgiu uma nova categoria de trabalhador, as mulheres entraram no mercado de trabalho como datilógrafas. Aumentou o número de secretárias. Enfim, a profissionalização que leva a um sistema organizativo, fortalecendo os sindicatos. E a consciência política, a opção socialista…

            Mas, e o computador?

E aí, revelava-se o velho que ele realmente era. O computador, pensava, criou essa juventude ordinária que em vez de pichar as paredes contra o imperialismo prende-se a uma tela e aperta botões, joga jogos de guerra nos quais os imperialistas sempre vencem. Ora…

            Acalmou-se, não poderia, agora que estava pronto para escrever o livro da sua vida, o livro que mudaria o mundo, perder-se em idiossincrasias da velhice. Pensar. Era preciso pensar. Por que o muro caiu? Por que o povo que Lenin libertou e, que diabo!, mesmo sendo um bruto Stalin deu casa e comida, educação e saúde, segurança, por que, que diabo!, esses russos traíram o marxismo?

Calma… Calma…

            Então, sentiu o cheiro do velho. O velho devia estar a quilômetros, sequer o tocara. Mas ele sentia o cheiro do velho. Concentrou-se no cheiro. Farejou o paletó, a camisa, o sovaco. O cheiro estava no seu corpo, de onde vinha?

            Assustado, desabotoou as calças. O cheiro penetrou-lhe até a alma. Vinha dele, era dele. Tirou as calças, examinou a cueca. Estava amarelada, cheirava acre, forte. Sentiu vergonha, sentiu-se um velho. Era um velho. Tomou banho, dormiu. Acordou com o cheiro. Sentou-se na cama. O lençol estava amarelado, o pijama úmido. Teve vontade de urinar e só então percebeu como era difícil. Demorava para a urina sair, quando saía, um jato fino, quase aos pingos. Ao terminar e abotoar as calças, os pingos manchavam a cueca.

            Que fazer?             A biópsia confirmou: câncer de próstata. Ora, ele pensou, depois do fim do socialismo o que é a morte? Nessa altura da vida – ele pensou bem reacionariamente –, aquele filho da puta do Camus está certo. Com um tiro na cabeça descobriu que só há um fundamento filosófico verdadeiramente sério.

Gregor e Franz

Gregor, Franz e seus fantasmas

            Depois de um sono agitado Gregor Samsa acordou e descobriu ter se transformado em Franz Kafka. Imediatamente passou a descrer de tudo em que acreditava. Mas, como já não era Gregor Samsa, porém Franz Kafka, voltou a crer na dúvida. Deus tornou-se uma certeza constrangedora. Sorriu e duvidou de quem era.

            Outra manhã, em Viena, ao acordar do seu sono definitivo, Franz Kafka deu-se conta que sempre fora Gregor Samsa. Percebeu a inutilidade dos seus estudos de hebraico, quando o espelho lhe disse: “Eli, Eli, lamá sabactâni”.

            No espelho viu um rosto pálido, olhos fundos. Apalpou o corpo e sentiu falta da carapaça. Estava magro e flácido, faltavam-lhe as oito pernas que lhe permitiam a fuga rápida. Com um sorriso amargo compreendeu que só lhe restava encarar a realidade. Então, ouviu os três acordes; batiam à porta. Um homem surdo, de luvas brancas, entrou empurrando um carrinho de chá. Senhor, o seu café, disse e abriu a tampa da baixela. Franz Kafka viu o seu destino: uma cabeça de porco olhava-o com olhos mortos. A vida é uma trampa, pensou e simultaneamente assustou-se, por que disse “trampa”?

            O homem saiu, deixando os seus acordes. O porco desaparecera e não havia baixela alguma. Apenas chá, café, leite, pão e figo seco. Franz Kafka achou que estavam brincando com ele. Não gostou nem um pouco. Abriu a janela e, embora estivesse em Viena, viu a rua dos alquimistas, uma casinha azul. Ouviu, levemente, o rio sob a ponte Carlos. Lembrou-se de escrever uma carta, mas esqueceu. Já que estava na janela, já que o aborreciam, abriu as asas e voou para a eternidade.