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O que Lula fará ao receber o “Brasil de Bolsonaro”?

O Brasil pós-pandemia será o país que Bolsonaro (des)construiu. Em 2022 Lula deve ser eleito.

Então?

Bolsonaro não brincou em serviço. A boiada passou. Com o pretexto da covid o patronato conseguiu diminuir os salários, aumentar a carga horária e livrar-se da maioria das obrigações trabalhistas. A legislação ambiental nem precisou ser anulada: o bolsonarismo foi além – desmontou os órgãos, entidades, autarquias, institutos e repartições governamentais, despediu e boicotou funcionários especializados, sabotou pesquisas e pesquisadores, demonizou a ciência, cortou verbas e, principalmente, deu suporte a todo tipo de criminosos que atuam na Amazônia. Dispensável lembrar os crimes contra a humanidade ao sabotar as vacinas e divulgar desinformação na pandemia.

Fez tudo enquanto jogava asneiras para a imprensa e a oposição se indignarem. Ao mesmo tempo aparelhou o Estado com militares da reserva e da ativa e, depois que eles se desmoralizaram, liquidou-os na aliança com o centrão. Testou o Supremo e o Ministério Público e percebeu que podia desprezá-los. Menosprezou os jornais, debochou dos jornalistas e usou as redes sociais organizadas pelos bandidos eletrônicos. Mentiu, porque pela sua experiência, sabe que os brasileiros aceitam a mentira e relevam a fraude – desde que não lhes peçam nenhuma responsabilidade.

Eis o ponto: no Brasil ninguém é responsável pelo descalabro político; quem elege a politicanalha “esquece” em quem votou. Bolsonaro sai lucrando, pois a irresponsabilidade é o alicerce da sua “ideologia”. Mas o pessoal    que se julga do lado certo se abstém de agir responsavelmente quando no poder. Então, muda-se o tom e tudo o que foi dito, aquela veemente indignação ética, veja bem, não é tanto assim… Efeito do telhado de vidro.

Como consertar o estrago bolsonarista?

Lula será presidente, é o mais plausível. Comecemos com as perdas trabalhistas, pois o nome da sua legenda é Partido dos Trabalhadores. Lula terá disposição para enfrentar as “classes produtoras” e devolver aos assalariados os direitos roubados a pretexto da pandemia?

Em um país polarizado e com a extrema direita ferida de morte e alimentada pelo revanchismo nas redes sociais a todo vapor, teremos um Lula assertivo ou o conciliador da “Carta aos Brasileiros”?

 Não vale responder que no “tempo dele” os pobres viajavam de avião. Não é disso que se trata, mas, justamente, da perda de direitos trabalhistas dessa gente expulsa do aeroporto. O mundo mudou e o mercado de trabalho se adapta às novas formas das relações econômicas, mas a adequação não pode ocorrer com a punição dos trabalhadores, como pretende o neoliberalismo.

Lula terá a energia necessária para conter as bancadas da bala e da bíblia e, assim, enfrentar os ruralistas que envenenam o solo e as águas e transformam florestas em pastos? Qual será a sua disposição para afastar da Amazônia os “missionários” que prospectam minérios e levam a “palavra do Senhor” a indígenas abandonados pelo Estado? Como limitará a ação das mineradoras, nacionais e estrangeiras, que revolvem a mata e jogam mercúrio nos rios, a ponto de torná-los tóxicos?

Teremos um presidente hostil ao establishment que defende privilégios e patrocina a corrupção? Lula enfrentará os banqueiros e o capital monopolista internacional, que usufruem da vergonhosa concentração de renda brasileira? Tentará um acordo com os banqueiros suíços e os paraísos fiscais para repatriar o dinheiro “desviado” pelos corruptos? Ele tachará as heranças e as grandes fortunas? Ou será uma versão restaurada do “Lulinha paz e amor” que tentará no “diálogo” uma solução conciliatória, “lenta e gradual”, como é de praxe nessa terra em que ninguém arrisca a pele – mas onde os poderosos tostam a pele de quem os irrita (inclusive a do próprio Lula, vítima das artimanhas hipócritas do justiceiro Moro)?

Em 2022, novamente, a história deve se repetir. Talvez como farsa, em um Brasil que nunca supera a tragédia.

O país das madalenas arrependidas

Aviso aos navegantes: ao escrever cabos e policiais, refiro-me aos notoriamente acusados, denunciados e condenados por mancharem suas instituições, comprometendo o bom nome dos órgãos de segurança.

Por que tanto espanto com as façanhas do cabo Dominghetti, o corretor de vacinas?

Cabos e policiais destacam-se na história brasileira. De Chico Diabo, o matador de Solano López (que roubou do cadáver um punhal com cabo de ouro e prata), ao cabo Anselmo, o provocador usado pela CIA, são eles que executam o trabalho sujo prescrito ou tolerado por oficiais inescrupulosos. E realizam o desejo da classe média moralista, ao comandarem ações de limpeza étnica e social contra pobres e negros. São eles, acumpliciados com superiores que se desviam do caminho reto, que se associam a traficantes e desviam armas dos quartéis para as quadrilhas. Essa gente, ao sair ou ser expulsa das corporações, forma milícias e trabalha para políticos comprometidos com o crime organizado.

Alguns são de copa e cozinha com os altos escalões da República, como o ex-sargento Ronnie Lessa, suspeito de ser o mandante da execução de Marielli, e sua mulher, Elaine, investigada por contrabando internacional de armas pesadas – o casal é vizinho de Jair Bolsonaro e foi amigo dos filhos presidenciais (uma das filhas dos Lessa namorou Renan, o 04).

Cabos e policiais, acusados de crimes contra a humanidade e condenados pela Justiça, mereceram de deputados altas condecorações, como os medalhados por Flávio Bolsonaro. Entre eles, Adriano Nóbrega (um arquivo recentemente queimado), que recebeu a Medalha Tiradentes (talvez por liderar o Escritório do Crime). A propósito, Bolsonaro afirmou que “eu é quem pedi para meu filho condecorar. Para que não haja dúvida. Ele era um herói. Eu determinei. Pode trazer para cima de mim essa aí! O meu filho condecorou centenas de policiais”. Receberam homenagens do então deputado Flávio Bolsonaro os policiais militares Ronaldo Paulo Alves Pereira e João Batista Firmino Ferreira, este, tio de Michelle, a primeira dama – todos envolvidos com o crime organizado. Nem é preciso falar do Queiroz, egresso da Polícia Militar, coordenador do esquema das rachadinhas e que não vê nada demais em depositar alguns milhares de reais na conta da primeira dama.

Mas cabos e policiais que se desviam das suas funções, também são grandes empreendedores. Conseguem milagres financeiros. Apesar do salário minguado formam empresas de sucesso – como as construtoras de prédios que desabam no Rio – e, merecidamente, ostentam carros caríssimos; alguns, mais pródigos, navegam em iates de luxo.

O Brasil convive com essa realidade promíscua faz tempo. Vizinhos aburguesados de ex-soldados e policiais que saíram da tropa para o “mundo social”, desprezam os que honestamente enfrentam a bandidagem, mas se rendem em gentilezas aos novos ricos que usam mais a roupa social de grife do que a farda.

De certa forma eles representam com mais veracidade o Brasil do que a classe média que, para adoçar sua má consciência os trata, em particular, como marginais de luxo, mas se aproveita, mesmo que indiretamente, do que eles fazem. Gostam quando usando farda impõem a “ordem” para não desestabilizar o sistema, mas, principalmente, invejam seus sucessos empresariais ao transformarem parcos soldos em invejáveis fontes de lucro.

Deixemos de hipocrisia: os brasileiros preferiram Bolsonaro a Haddad – e se o presidente lavar a boca e não dizer mais chulices pode receber uma “segunda chance” dos mesmos que ameaçam abandoná-lo – e não importa quanta cloroquina correu em Brasília nem os mortos na pandemia pela corrupção e incúria. Na última eleição as “pessoas de bem” desprezaram o professor universitário e elegeram o aliado das milícias e apologista de cabos e policiais suspeitos, investigados e alguns condenados por crimes contra os direitos humanos – aqueles que matam gente para garantir esquemas corruptos e criminosos. Bolsonaro aliou-se a essa banda podre do militarismo policial e tenta cooptar a parte sã oferecendo-lhe privilégios e licença para matar.

Quem denuncia e protesta contra a canalhice política é responsável pelas suas afirmações e, se for o caso, arca com as consequências. Mas quem votou em Bolsonaro não é responsável pelo seu voto – jogaram o Brasil na vala comum da criminalidade e basta-lhes fingir arrependimento.

É o país da madalenas arrependidas.

A impostura de Bolsonaro e o caos pós-bolsonarista

Grosseiro e despudorado – é o Bolsonaro fingindo-se de mártir, em fotografia composta para evocar, subliminarmente, a imagem de um jesus supliciado. Seus truques e falsetas aparecem sempre que se agravam as denúncias sobre suas falcatruas políticas. O soluço do capitão é usado para desviar a atenção sobre a avalanche de provas contra um governo corrupto, inepto e genocida.

Mas não é a farsa da vitimização o importante. Aliás, discutir essa impostura é o que interessa a Bolsonaro: ele ganha com a reprovação ao seu teatro e também com a solidariedade dos seus seguidores. Para ele o soluço é a pausa que refresca: para este bebedor de Coca-Cola para combater o refluxo, qualquer desvio de atenção da CPI adia o desfecho final do que poderá – ou deveria – puni-lo.

O que realmente deve se discutir, mais que os arremedos religiosos para despertar a piedade dos crentes e espertos de ocasião, é o depois – o que virá quando o novo presidente assumir o governo?

O futuro presidente terá que desmontar o desmonte. A gestão Bolsonaro caracteriza-se por nada construir, mas destruir o pouco de bom que existia. A agressão ilimitada ao meio ambiente, continua com as queimadas e desmatamento no Pantanal e na Amazônia batendo recorde sobre recorde Aconteceram as alterações grosseiras nas leis protetoras aos direitos conquistados pelos cidadãos. Vigora a prevalência de preconceitos no trato com as minorias e, entre tantos prejuízos destacados diariamente pela imprensa, o desastre econômico, mascarado por um falso “crescimento” econômico que oculta o fracasso anterior que serve de medida comparativa para os indicadores atuais e nem de leve preocupa-se com o desemprego que cria um “mercado de informalidade”, ponto de partida para o surgimento de cidadãos de segunda classe – justamente aqueles a quem os fascistas podem manipular. E sobretudo a subserviência das forças armadas, incluindo as policias militar e civil, agravada com o armamento de militantes de extrema direita, agora com a possibilidade de ter até seis armas de grosso calibre e munição de guerra.

Qual presidente será capaz de corrigir o pós-caos bolsonarista? Quais propostas os candidatos apresentarão para diminuir o desastre? Pois, é isso o que deveria preocupar a nação e deixar aos tolos e fanáticos os “pais-nossos” de “evangélicos” que gostam da violência e pouco se incomodam com os mais de meio milhão de mortos pela incúria de Bolsonaro.

Mas no Brasil, como já observou um velho político mineiro, até as nuvens mudam a política.

Para recordar

Frases de Bolsonaro, pinçadas aleatoriamente, sobre vários temas em distintas épocas. A repetição de idiotices induz a considerá-las como banalidades. Então, torna-se “normal” as manifestações apregoando o preconceito e a violência. Ele nunca escondeu nem mudou seu pensamento fascista, racista e antidemocrático. Essas frases não devem ser entendidas como normais e nem podem ser esquecidas.

“Bandido bom é bandido morto.” – (2016)

            “Eu queria que a polícia matasse duzentos mil vagabundos.” (2017)

            “Gastaram muito chumbo com Lamarca. Ele deveria ter sido morto a coronhada.” (1996)

            “O erro da ditadura foi torturar e não matar.” (2008, repetida em 2016)

            “Ter filho gay é falta de porrada.” (2010)

“Ele merecia isso: pau-de-arara. Funciona. Eu sou favorável à tortura. Tu sabe disso. E o povo é favorável a isso também.” (1999)

“Através do voto você não vai mudar nada nesse país, nada, absolutamente nada! Só vai mudar, infelizmente, se um dia nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro, e fazendo o trabalho que o regime militar não fez: matando uns 30 mil, começando com FHC .” (1999)

“A atual Constituição garante a intervenção das Forças Armadas para a manutenção da lei e da ordem. Sou a favor, sim, de uma ditadura, de um regime de exceção, desde que este Congresso dê mais um passo rumo ao abismo, que no meu entender está muito próximo.” (1999)

“Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre. Vou botar esses picaretas para correr do Acre. Já que gosta tanto da Venezuela, essa turma tem que ir para lá.” (2018)

“O policial entra, resolve o problema e, se matar 10, 15 ou 20, com 10 ou 30 tiros cada um, ele tem que ser condecorado, e não processado.” (2018)

“Morreram poucos. A PM tinha que ter matado mil.” (1992, sobre o Massacre do Carandiru, em 2 de outubro)

“Fui num quilombola [sic] em Eldorado Paulista. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Acho que nem para procriadores servem mais.” (2017)

O que falta dizer sobre Bolsonaro?

1 – Nada a dizer quando há muita informação e pouca (ou nenhuma) compreensão

Não tenho mais nada a dizer sobre Bolsonaro. Aliás, sobre nada. Vivemos um excesso de informação política e nenhuma compreensão do que acontece.

Como explicar quem não enxerga em Bolsonaro um pilantra autoritário com compulsão genocida? Desculpar seus seguidores – e aqueles que hoje o condenam, mas no fundo se identificam ideologicamente com ele – por causa da alienação generalizada, é aceitar a ignorância, a má-fé, a maldade encoberta ou explícita.

Mas o farsante na presidência não é a essência do mal: foi o povo que reforçou os preconceitos e as safadezas que conformam um país conivente com a miséria da maioria – e os miseráveis não raro aplaudem seus carrascos. Não se iludam com as pesquisas que indicam o derretimento do governo Bolsonaro, rejeitado por mais da metade da população. Nada indica que essa repulsa não se transforme em apoio a outro canalha – desde que os pais da canalhice inventem um novo pato da Fiesp, que usaram matreiramente no golpe contra Dilma e alavancou o fascínio fascista por Bolsonaro. Presidentes ruins já foram escorraçados e substituídos por piores.

O que fazer?

Melhor não fazer. Sempre que a população vai às ruas e faz alguma coisa o tiro sai pela culatra. Manifestações pontuais, como as passeatas no tempo da ditadura pouco influíram de fato na decomposição do cadáver militar – que só apodreceu para voltar com mais empáfia, embora menor poder de desumanização. Aliás, a ditadura só começou a cair quando precisou matar os filhos da classe média que a apoiava – cujos pais só se posicionaram ao enterrarem seus rebentos, ou no desespero de tê-los torturados e “desaparecidos”. Zuzu Angel é o exemplo clássico; na outra ponta, Nelson Rodrigues. A imprensa só acordou com o assassinato de Herzog – antes, os jornais publicavam nas primeiras páginas fotos de “terroristas” procurados. O corporativismo estamental é a ética da nossa cultura.

No fim todos se entenderam – e a conciliação costurada por Tancredo seguiu com Sarney, tropeçou em Collor, ungiu Fernando Henrique, deu uma fraquejada com Lula, um soluço com Dilma, acomodou-se com Temer e pensou ter se resolvido com Bolsonaro – a falcatrua vendida pelos grandes empresários que, ainda hoje, sustentam a besta.

Não há saída honrosa dessa realidade – a não ser coexistir com ela, como fazem os oportunistas que oferecem uma “terceira via”; ou aceitá-la, e se contentar por “soluções” como o impeachment, investigações policiais, medidas judiciais, eleições etc.

Porém, nada desesperador para quem sabe esperar, esquecendo as ilusões do “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”, pois é o acontecer que faz a hora. Mas, como sempre, chegamos atrasados…

2 – No ministro da economia não se bate nem com uma flor

Já ninguém chama o ministro da economia, Paulo Guedes, de Posto Ipiranga. No entanto, a incompetência do representante do liberalismo mais atrasado que tivemos, não é questionada por quem deveria: as chamadas classes produtoras que, na verdade, só produzem riqueza para os ricos e pobreza para os pobres.

Guedes não sabe o que faz nem como fazer o que não faz. Mas seu oportunismo, que como o do presidente se apoia na mentira, parece garantir-lhe o emprego. Seus maiores equívocos e mancadas grotescas são abordados com luvas de pelica pela grande imprensa – aliás, a maioria dos colunistas de economia trabalha por e para os grupos financeiros que garantem o cargo de Guedes.

Em junho de 2019, sem ter o que apresentar a não ser prometer privatizações, que por sinal não consegue realizar, disse que o bujão de gás custaria a metade: seria vendido por R$ 35,00 – o preço, então, era em torno de R$ 70. Hoje, dois anos depois da promessa, o gás está em torno de R$ 105 em alguns estados (em São Paulo, cerca de R$ 90).

O ministro é tão descuidado que de vez em quando escorrega na própria estupidez. As mudanças anunciadas na reforma tributária são criticadas até pelos seus patrões. A economia não deslancha, embora os jornais televisivos digam que tudo vai bem. O desemprego aumenta, os salários desvalorizam-se com a inflação – a soma de tudo é mais concentração de renda e poder econômico pressionando a política, cuidando de não mudá-la, mas de adaptá-la aos seus interesses.

Por seu lado, a grande imprensa sabe em quem bater. Só não desce o porrete em quem sufoca o povo e agrada ao capital monopolista. O Brasil é o país dos paradoxos: é permitido criticar Bolsonaro ao ponto de chamá-lo de idiota e genocida, mas em Guedes não se bate nem com uma flor…

A corrupção é sistêmica: Bolsonaro é seu produto

1- Puxa-sacos desculpam governos corruptos alegando que sempre houve corrupção. É verdade. Mas na história brasileira jamais existiu um bando de corruptos jogando com a vida do povo. A primazia é da gestão Bolsonaro – nunca antes nesse país alguém tentou faturar com um comportamento genocida.

Já não se trata de irresponsabilidades patológicas, como tirar a máscara de uma criança e promover aglomerações. As rachadinhas e depósitos na conta da primeira dama ficam superadas pelo primarismo da trapaça. Descarta-se até mesmo a proximidade com milicianos. Nem lembramos o golpismo e ameaças à democracia. Agora, com as denúncias das propinas nos contratos das vacinas entramos no crime de lesa-humanidade (conforme define o Art. 7, do Estatuto de Roma, de 1998).

Seríamos subjetivos se tentássemos entender o processo de amoralidade que leva pessoas capacitadas intelectualmente, ao ponto de conseguirem altos postos da administração pública, a desprezarem a vida de milhares de seres humanos para obterem dinheiro. Pela gravidade das consequências, deixemos o julgamento ético e o estudo das patologias para depois que os criminosos sejam contidos.

Assim, o que fazer?

Na situação atual quem decide o que será feito é o centrão. Deputados de moralidade duvidosa e alguns comprovadamente gatunos – nem faltam suspeitos de assassinatos e indiciados por peculato – decidirão se o governo Bolsonaro, cujo líder na Câmara nomeou o funcionário acusado de compor o esquema “propinatório” – pois, será esse bando de despudorados que se vendem à luz do dia para prevaricarem à noite, que julgarão um governo a quem se vendeu e de quem cada vez cobra mais.

2- Se analisarmos a corrupção com o modelo crítico usual – isto é, as canalhices julgadas apenas pelo crivo moralizante, estaremos condenados a repetir eternamente a lamentação contra a corrupção política infindável no Brasil.

A questão é que esse país repete o inevitável em todo o planeta: não existe capitalismo sem corrupção. O sistema é corrupto pela sua própria natureza. Baseia-se na busca ao lucro – o resto é conversa para adormecer a consciência dos trouxas ou ingênuos.

Ninguém abre um negócio para ajudar o próximo ou “dar empregos”. Se o fizer será excluído do jogo competitivo que, justamente, usa o lucro como ferramenta de ação e estímulo para o sucesso. Na Finlândia, Noruega, Dinamarca, Suécia ou em qualquer parte, a corrupção é a alma do negócio. Por exemplo: a Nestlé confessou ao Financial Times que “60% dos produtos da empresa não atenderiam aos padrões necessários” – mesmo assim não se julga corrupta por fabricar alimentos ultraprocessados que prejudicam a saúde, até das crianças, porque – explicou um diretor da transacional – “nem se quisesse” conseguiria corrigir seus produtos.

A diferença entre o Brasil e alguns poucos países é que eles punem a corrupção – e os crimes contra a economia popular não são fáceis de cometer impunemente. Outras nações têm políticos com vergonha na cara e, embora prevariquem, se descobertos metem uma bala na cabeça, como no Japão e na China ou vão para a cadeia. Conosco tudo é permitido. Até que chegamos à possibilidade de lucrar com a pandemia.

3- Porém, o sistema é esse e não há possibilidade de mudá-lo: nossa formação cultural permite apenas trocar as moscas. Então, os donos da opinião pública se esforçam para conter o vazamento do esgoto. Criam tribunais e regras, apoiam-se nas moralidades da hipocrisia e fazem da indignação uma ideologia que nos desvia das raízes do mal: o capitalismo. Fingem ignorar que todo capitalismo é selvagem. Quanto mais sofisticado maior sua selvageria: os Estados Unidos são o maior sucesso econômico e científico, o que possibilitou ter a mais eficaz máquina assassina. Que o digam o Vietnã, o Iraque, o Afeganistão; e o que fazem internamente com negros, latinos e pobres.

Nesse sentido o Brasil ainda é aprendiz de feiticeiro. Na fábula o aprendiz tenta repetir as mágicas do mestre e só faz besteira, até que seu guru o socorre. O Brasil, como na fábula, tem um aprendiz trapalhão, Bolsonaro, ridículo imitador de Trump, que só tem o centrão para socorrê-lo.

4- A autocracia da “alma russa”, junto ao estalinismo repressor e a religiosidade reprimida e comprimida do povo, adulterou o socialismo que poderia ter sido, e não foi, também, pela sabotagem econômica e bélica das potências capitalistas ocidentais. A queda do muro, espertamente aproveitada no “mundo livre” decretou, também, o fim do sonho socialista.

O que sobrou?

Na prática, nada além do que temos: o estado de coisas que vivemos cotidianamente e a falta de perspectivas políticas, a não ser escolher o seu lado na polarização alienante. Ou acreditar em uma ilusória terceira via.

5- Não se desespere. Estamos vivendo uma “longa pausa” – já passamos pela antítese e em algum tempo (décadas? séculos?) a síntese nos sorrirá. Até lá…

Um presidente fraco precisa se fingir de forte

Bolsonaro é o primeiro presidente do Brasil que em trinta meses no governo não tem um fato edificante para mostrar. Enquanto as pessoas destacam os destemperos, as mentiras e as ameaças à democracia, esquecem que sua gestão nada fez de positivo. Ele nem se preocupa em esconder os retrocessos e as calamidades provocadas – e debocha do seu comportamento genocida que nos levou a mais de 500 mil mortes na pandemia.

Em todos os setores, se analisado com o rigor merecido, suas atitudes são duplamente criminosas. Ele não se contenta em tentar destruir a Mata Atlântica, mas trabalha, também, para a construção de cassinos na floresta protegida. Não só apoia o desmatamento na Amazônia, mas luta para que a área devastada seja ocupada pela soja e pelas vacas – e, de quebra, fecha os olhos para o contrabando da madeira extraída ilegalmente. A queda do ministro Ricardo Sales nada muda e até pode piorar: pôs no seu lugar Joaquim Álvaro Pereira, ex-conselheiro da Sociedade Rural Brasileira e latifundiário – cuja família reivindica terras dos índios guarani (segundo a Funai [Fundação Nacional do Índio], os jagunços da família destruíram casas e tentaram expulsar os moradores. Na reserva, indígena em São Paulo, moram 534 índios).

Na educação, não exige apenas uma agenda conservadora, mas persegue e inibe o trabalho dos intelectuais e corta verbas, sacrificando pesquisas e ameaçando a existência de algumas universidades. Com respeito aos direitos humanos, não lhe bastam as ligações com as milícias e as sandices da ministra Damares, mas avança até o cúmulo de propor uma “lei antiterrorista” que, na verdade, é a implantação da censura e da proibição da diversidade de pensamento. Sem falar das ameaças concretas à sobrevivência das nações indígenas – os índios sofrem a violência de grileiros, garimpeiros e desmatadores e são hostilizados pelas polícias estaduais apoiadas pelo governo federal.

Há poucas semanas seus seguidores diziam que “pelo menos” não havia corrupção. A máscara caiu: as rachadinhas da família Bolsonaro foram superadas pelos lucros que o apoio presidencial à cloroquina e à inverctina proporcionou. Agora, vem o escândalo da compra da vacina Covaxin: já em 20 de março Bolsonaro foi avisado do superfaturamento, pelo deputado federal Luís Miranda (bolsonarista do DEM) – nada fez e agora manda investigar o denunciante.

Além do mais, as “pessoas de bem” já não têm certeza de que Bolsonaro livrou a direita de Lula: o petista, segundo as últimas pesquisas, vence no primeiro e no segundo turnos, com vantagem considerável sobre o capitão.

O trunfo de Bolsonaro seria (ou é) o apoio das Forças Armadas. Mas aos poucos ele foi queimando as pontes e irritando generais, brigadeiros e almirantes. Acreditando em uma solução de força, prepara-se para o golpe, aparelhando as polícias militares e civis, e agrada os oficiais de baixa patente.

Sua aliança com os deputados do centrão é precária: o baixo clero muda de lado a qualquer momento. Seu esforço para intimidar o Supremo Tribunal Federal não deu certo: nem o cabo e o soldado, menos ainda os rojões contra o Palácio da Justiça deram resultado. Até a interferência na Polícia Federal, motivo da saída de Moro, não tem sido eficaz para barrar investigações contra seus filhos, ministros e milicianos agregados.

Resta-lhe insultar repórteres e atacar a Rede Globo, mentindo, como sempre.

Então, Bolsonaro está fraco? Eis a questão, a ser respondida nos próximos meses. Sem se esquecer que, no Brasil, nem tudo é o que parece e a política muda mais do que as nuvens.

Nossa história começa como comédia; depois…

Já disseram que a história acontece como tragédia e se repete como farsa. Mas no Brasil a história é originalmente uma farsa que se repete como comédia. Porém, nossa comédia é o anúncio da tragédia – ao cairmos na real vivemos o trágico grotescamente: Bolsonaro.

Para entender a catástrofe atual é preciso estudar a farsa na sua origem. Como todos sabem e poucos se importam, a preparação da ditadura de 1964 começou com uma conspiração do Departamento de Estado do Tio Sam, conduzida pela CIA.

A partir de 1961, com a renúncia de Jânio e a posse de Jango, as “pessoas de bem” se uniram para impedir qualquer progresso social que contrariasse seus privilégios. Para estimular o medo a CIA enviou para cá o padre Charles Coughlin, que organizou as marchas com Deus, pela família e pela liberdade. Já existia o movimento internacional contra a “ameaça comunista”, liderado pelo padre Patrick Peyton, fundador das Cruzadas do Rosário, incentivando os católicos a orarem em família, contra o comunismo. Juntaram-se forças locais e agentes da CIA e promoveram as marchas, lideradas em São Paulo pelo seu governador, Ademar de Barros.

 Era a farsa: milhares de católicos, temerosos do comunismo ateu, suplicaram à Virgem e saíram às ruas ao lado de um corrupto carregando a imagem de Nossa Senhora, em defesa da virtude e pureza do caráter nacional. Estabelecida a farsa, seguiu-se a comédia: a ditadura dos generais que, não tardou, virou tragédia – fim das liberdades democráticas, das garantias do Estado de direito e começo da repressão com tortura, execuções e assassinatos.

Durou 21 anos. Veio a redemocratização e, em corte rápido, chegamos a Bolsonaro. Novamente, começou como farsa: ninguém acreditaria que tal bufão tivesse chance de vitória eleitoral. Veio a comédia: ele se elegeu; os humoristas logo perceberam sua figura caricata. Em pouco tempo a piada virou tragédia. E agora? – Agora chegamos aos 500 mil mortos na pandemia.

E nasceu o “bolsonarismo”, que dentro da tragédia provocada pelo instinto genocida, volta à farsa histórica comum no Brasil. Repete o comportamento trapaceiro e revive os velhos argumentos que tanto assustam as “pessoas de bem” e servem aos interesses golpistas da politicanalha: a intimidação com um perigo irreal e, quando tal balela deixa de funcionar, inventam-se mentiras mirabolantes, como os chips que a vacinação introduzirá nos brasileiros & outros disparates do gênero.

Nessa “evolução” farsa/comédia/tragédia o Brasil piorou. Emergiu uma população de crédulos ávidos pela mentira mais estapafúrdia. A verdade está em recesso ou é vitupério. Enquanto Bolsonaro e seus filhos trabalham pelo golpe, dizem que defendem a democracia. Ao mentirem, afirmam que “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Quanto mais mentem, mas se tornam críveis para milhares de seguidores.

A chamada “classe política” rendeu-se à mendacidade golpista. Não fosse o STF (Supremo Tribunal Federal), que os bolsonaristas querem liquidar, o Congresso já teria “legalizado” o processo autoritário. Caminhamos para isso: deputados investigados por prevaricação, como o presidente da Câmara, e outros eunucos morais, podem aprovar o voto em papel, estímulo à fraude que Bolsonaro diz querer evitar. Cínico, denuncia fraude com as urnas eletrônicas e não apresenta provas. Pior, não se exigiu seriamente que ele as apresentasse.

Qual o tipo de resistência que oporemos à marcha autoritária?

A forma mais eficiente contra a ditadura militar, especialmente a partir de 1968, mais que a luta armada em que se sacrificaram centenas de vidas, foi a militância cultural. Os generais foram desmascarados e desmoralizados por artistas e intelectuais. Nas faculdades nasceram grupos de resistência, estimulados por escritores, poetas, cantores etc. Eram frequentes no meio estudantil os shows de Vinicius de Morais, Chico Buarque e tantos outros. Hoje, qual será a resistência cultural, se houver? Não há mais MPB – do funk ao sertanejo universitário temos uma extensão da mídia de entretenimento e alienação. A grande imprensa está, como sempre, aliada ao patronato. Não existe jornais alternativos. Na internet predominam as redes reacionárias, que fazem um barulho tão grande que é impossível confrontá-la, especialmente porque as “pessoas de bem” ainda mastigam o ódio que o medo cultivou.

Enfim… fim.

Estatelado de bunda no chão

1 – Indignação no arraial: o presidente da Argentina declarou que viemos da selva. Se ele fosse exato, diria que além da bugrada, los macaquitos têm sangue africano. Estaria certo: somos uma confusão étnica de africanos escravizados, indígenas dizimados e colonizadores assassinos – como os antepassados de Alberto Fernández, tanto faz se portugueses ou espanhóis. O colonialismo foi democrático na distribuição dos seus crimes contra a humanidade.

Ele jactou-se de que “nós, argentinos, viemos de barcos da Europa”. A piada é velha, mas vale repeti-la: “O argentino é um italiano que fala espanhol e pensa que é inglês”. Por isso, diz-se que “o melhor negócio é comprar um argentino pelo que ele vale e vendê-lo pelo que ele acha que vale”.

Porém, assimilamos o complexo “racial” dos europeus. Assim, Bolsonaro não perdeu tempo e salvou a honra tupiniquim, postando fotos com alguns índios mais dóceis. A Folha também saiu em defesa da nacionalidade: deu em manchete, ontem, a fala do presidente argentino. E eu, tu, nós, vós, eles – o que pensamos?

2 – Quase toda minha família tem cidadania italiana. Meus parentes dizem que “são do Veneto”. Tenho minhas dúvidas, creio mais em uma origem espúria da Ligúria, com um provável respingo de sangue austríaco, manchado por certas bastardias da Europa Oriental. Pois é, pele clara não garante o arianismo, orgulho dos imbecis.

Chegando ao Brasil meus antepassados tiveram de formar famílias. Preciso dizer que gente saída da selva e escurinhos entraram para o clã? Mas, como os argentinos, todos se julgam “europeus” e, no tempo do Lula e da Dilma, desembarcavam na Europa com seus passaportes italianos.

 3 – Voltando à declaração de Fernández, este argentino que fala espanhol e se declara europeu, o que comentar, a não ser o que já foi dito pela indignação de uns e reproche de outros? – afinal, o presidente da Argentina não só demonstrou racismo como ignorância, ao citar errado duas vezes a frase fatal (disse que era do Otávio Paz; é de um rock que ele não entendeu o sentido).

A indignação brasileira revela, inconscientemente, o nosso racismo. No fundo, ofende-nos a “acusação” de descendermos de índios; e não sermos tão brancos e cultos como os argentinos entupidos de sangue europeu.

Muita gente que da Argentina só conhece Buenos Aires, e em Buenos Aires nunca foi além da Recoleta, Palermo e da calle Florida, jamais entenderá que a Argentina é mais “temperada” pela cultura indígena do que o Brasil. As províncias de Entre Rios, Missiones, Corrientes, Formosa, Salta, Chaco e Jujuy – só para citar as do Norte – são majoritariamente indígenas, muitas comunidades falam guarani e a música dominante é o chamamé e a guarânia. Os hábitos e a gastronomia são “nativos”. Quase não se ouve tango. E para constatar: os melhores guitarristas (com muitas mulheres se destacando) estão nessas paragens, especialmente na fronteira paraguaia – aliás, o norte argentino parece um enorme Paraguai, na cultura e na pobreza.

4 – Certa vez, em Buenos Aires, impressionei-me ao ver uma enorme livraria especializada em história argentina. Naquela livraria havia mais pesquisa e informação histórica do que em todas as universidades brasileiras (era a década de 70). Minha primeira impressão: que povo culto!, fortalecida pela aparência europeia do que me rodeava. Não tardou percebi: era aparência. Com todos aqueles livros de história, pesquisas e os cambau, além de Buenos Aires ser a cidade com mais psicanalistas no mundo (ou talvez por isso), os argentinos viviam de ilusão e o país era uma farsa. Pois, como, com toda aquela cultura, como eles elegiam Menem, idolatravam Perón e aceitaram Isabelita?

Chegamos ao fim: a aparência persiste – o presidente Alberto Fernández é uma extensão peronista, como Macri, o ex, era a negação do mesmo peronismo: no fundo, todos com o populismo camuflado de “europeísmo”. Na primeira casca de banana eles se estatelam com a bunda no chão.

Bolsonaro não fez o que seu mestre mandou

Finalmente Bolsonaro entendeu que Olavo de Carvalho tinha razão. Logo que Bolsonaro foi eleito, o guru da direita aconselhou-o a tomar medidas imediatas contra a “esquerda” – o que, na prática, seria impor restrições ao estado de direito e à democracia vigente. Para isso teria de enquadrar as forças armadas, compostas por um “bando de generais cagões”, segundo seu característico linguajar.

Várias vezes, desde 2019, Olavo afirmou que Bolsonaro não teve coragem de peitar os generais. Por isso, enfrenta problemas que seriam eliminados de cara, se dominasse o “meu exército”. Bolsonaro protelou e preferiu aparelhar a máquina burocrática com milhares de oficiais, quase todos incompetentes. Pretendia minar o Estado por dentro, para depois submetê-lo, desconhecendo a resistência automática e tradicional do corporativismo. A trava para dominar o Estado não era, não é e não foi, a esquerda ou a direita, mas a força da inércia instalada no coração do poder. O pêndulo funcional burocrático vai de um lado a outro, mas nunca sai dos seus limites. A não ser que se arrebente a máquina. Foi isto que Olavo de Carvalho recomendou e Bolsonaro não fez.

Quer fazer agora, depois do patético general Pazuello e outras pendengas com o orgulho ferido de alguns generais, “razoavelmente” contidos pelos interesses do velho corporativismo militar colado às novas benesses do governo. A “missão” bolsonarista ficou mais difícil. Porém, se Bolsonaro voltar a ouvir Olavo de Carvalho, que se manifesta principalmente pelos seus “alunos” espalhados nas redes sociais e alguns instalados nos gabinetes presidenciais, poderá limpar o caminho para a sua ditadura, apoiado pelo “meu exército” – que sempre fecha o caminho à esquerda mas abre as avenidas para a direita.

O suporte já está montado; falta apenas azeitá-lo. Bolsonaro tem apoio das baixas patentes do exército, das policiais militares e do baixo clero do Congresso. Basta-lhe romper o lacre, por exemplo, mandando o cabo e o soldado estacionarem frente ao STF (Supremo Tribunal Federal) e encomendar uma greve de camioneiros. Depois, meia dúzia de decretos populistas e concessões entreguistas fazem o resto.

Quem acompanha com olhar crítico a grande imprensa, deve ter percebido nas últimas semanas uma mudança de tom. Essa variação surge com a “recuperação” da economia, cujo PIB cresceu 1% – ou seja, não houve crescimento real no cotejamento com os índices anteriores (em certo sentido é até mesmo negativo), mas possibilita um “argumento” para não se disfarçar mais: o problema da grande burguesia, dona de tudo no país, inclusive dos jornais, volta a ser a “ameaça” de Lula. Semanas atrás ele não era “ameaça”, porque a economia estava mal – e quem sabe com ele poderia melhorar, como em outros tempos. Agora, que há sinais de revitalização, sim, a esquerda volta a ser “ameaça”. Como é indecente demais tratar repentinamente Bolsonaro como um ser racional, os jornais seguem criticando suas “esquisitices”, omitindo aos poucos o seu caráter fascista.

No meio do caminho, porém, há a pandemia. Mas, como os acadêmicos infiltrados na grande mídia dizem, tecnicamente essa mortandade não é genocídio. E tudo passa, todos morrem um dia. Eis uma verdade inquestionável.

Já que esse texto é assumidamente radical, não será exagero verificar quem apoia Bolsonaro, o que revela suas possibilidades e intenções. Na fila da frente, os alienados da classe média, que reclamam dos seus maus modos, mas aceitam tudo, menos o PT. Depois vem o que interessa de fato: gente armada (polícias militares e milícias, clubes de tiro), camioneiros, motoqueiros “ideológicos”, contrabandistas de madeira, grileiros, desmatadores, lobbies da jogatina, enrustidos, misóginos etc. E não menos importantes, porém encobertos, os estamentos do poder econômico para quem a ética é uma frescura de gente desajustada.

Se Bolsonaro der o golpe, não haverá reação. Da mesma forma que, hoje, a imprensa usa o álibi democrático para dar uma no cravo, outra na ferradura, amanhã criticará os “excessos”, para justificar a regra: os de cima, em cima; os de baixo, pau neles.

O amarelão da nossa covardia

Ao tomar a vacina fiquei sabendo que sou de “raça” branca. O sistema de saúde deve ter suas razões para a paleta de cores que aplica aos seres humanos. Eu, pela experiência e pelas informações científicas disponíveis, pensei que era da “raça” humana – que é uma só, segundo diz a ONU e confirma a ciência.

Como o aluno do ensino médio sabe, os grupos humanos se diferem etnicamente pelos aspectos socioculturais. A “raça” define os aspectos biológicos que distinguem os indivíduos. O conceito de “raça” trata das particularidades físicas (ossos, músculos, nervos, pele, cabelo, olhos) e a etnia remete aos valores culturais, como a linguagem, as tradições e os costumes.  

Autoridades já me perguntaram se sou destro ou canhoto, se enxergo bem ou mal. Nunca ficaram curiosas sobre minha classe social. Observei a fila da vacina: estão o pobre e o “remediado” (no meu bairro não existem ricos) e todos são democraticamente indagados: sua raça? A moça, que faz seu trabalho com competência, vê a cor do Merenciano (83 anos, catador de latinhas), mas precisa que ele confirme ser tão preto como carvão. Imagino se, só de sacanagem, ele se proclamasse branco. Ou amarelo. Qual seria a reação da funcionária? No entanto, calmo com seu chinelo de dedo e a camisa rasgada que já teve outros donos, confirmou placidamente: preto – fez uma pausa e corrigiu: negro. A moça não teve curiosidade sobre a roupagem a denunciar a miséria social. A pobreza naturalizou-se Brasil; já a “cor” é um dado que cataloga e coloca cada um no seu nicho e precisa ser destacada – e assim cumpre seu papel “naturalizante”.

O fato é que para o Estado, a cor, ou a “raça”, é importante. No resto dá-se um jeito.

            Mas temos algumas sutilezas. Negro, no Brasil, já foi xingamento. Preto era aquele que quando não fazia na entrada… Um dia, porém, resolvemos ser educados. É com educação e bons modos, quase diria, com etiqueta, que se acomodam os preconceitos. O racismo, em determinado momento, passou a ser incorreto. Mas como não podemos viver sem uma escala de valores, que nos mostre como somos superiores aos demais, resolvemos o impasse pelo uso das palavras. Então, negro e preto passaram a ser afrodescendentes. Os amarelos, asiáticos. (Eis o problema: o nissei é amarelo? Se optarem por asiático não lhe tiram a nacionalidade brasileira?)

            Em outro tempo histórico os agora afrodescendentes, conscientes da sua origem e orgulhosos da sua cultura, exigiram que os chamássemos de negros – preto era ofensivo e usado pelos racistas negativamente. Até que um policial do Tio Sam fez o que sempre as policias fazem: pisou no pescoço de um “black man” e o sufocou até a morte. Revolta no mundo e grande repercussão no Brasil, onde aprendemos que vidas negras importam. E eis a reviravolta semântica: a palavra negro, que denotava orgulho, passa a ser renegada. Vai que a confundem com “niger”, aquela ofensa que os gringos aplicam aos “seus” afrodescendentes. Reabilitamos o preto.

            Há outros problemas. O que fazer com os pardos? Na verdade ninguém jamais viu um sujeito pardo. Pardo era a cor do papel que antigamente embrulhava pão, quando existiam padarias, que foram substituídas pelas panificadoras que servem o café da manhã feito por gente mais escura, para cidadãos mais claros que podem pagar. E as mulatas? Não adianta fingir que elas são gente como a gente. No imaginário brasileiro são fêmeas fogosas, gulosas de sexo; no cotidiano real, empregadas domésticas. Claro, as exceções podem ser jogadas na minha cara: algumas trabalham na Globo.

            Concluo que o perigo de ser vacinado não é virar jacaré. Nem ser abduzido por chips chineses. É confrontar-se com o Estado. E o Estado no seu melhor: o sistema de saúde do SUS, com profissionais corretos e dedicados, alguns arriscando sua vida para salvar a alheia.

Mas no entretempo chegou minha vez. Perguntam-me e respondo: sou branco. Na verdade de um branco tostado de sol e um pouco amarelado. O amarelo é a cor da nossa covardia por não mudarmos esse país.