O SUS é nossa grande conquista

Estamos perdendo da dengue e o coronavirus já chegou. A população se apavora. As autoridades pedem calma. Mas a epidemia anunciada não é tão letal e temos condições de superá-la.

E a dengue? Bastaria limpar o quintal e por sal nos ralos. Cortar os matagais. Simples tarefas. Mas não conseguimos. No pico da crise os hospitais se enchem e os postos de saúde entram em colapso. Em Ribeirão Preto, como em todo o país, crianças ainda morrem de uma picada de mosquito. O que fazer?

Um pouco de história

Entre o fim do século XIX e o começo do XX várias epidemias atingiram o Brasil; Ribeirão Preto e São Simão sofreram muito. Em São Simão, em 1903, a epidemia de febre amarela, que vinha intermitente desde 1876, chegou ao auge. A cidade, dominada pelos coronéis do café, tremeu. Naquela época se acreditava que a febre amarela se propagava pelo contágio com os doentes. Muito naturalmente os coronéis encerram os lavradores nas fazendas. Não adiantou: a febre se espalhou e muita gente morreu. Os ricos abandonaram a cidade e os pobres morriam abandonados.

Um médico mandado pelo governo do estado tentou curar os enfermos com medidas tradicionais. Até ele morreu da febre. Emílio Ribas chegou a São Simão. Ele sabia que a febre era causada pela picada do mosquito. Para convencer a coronelada e a população fez seus auxiliares serem picados pelo mosquito, comprovando como se propagava a epidemia.

Nem assim os donos da terra aceitaram. Então, ele comeu restos de comida dos doentes e dormiu nas camas dos mortos, provando que não havia transmissão por contágio. Finalmente concordaram em erradicar os criadouros. E a febre foi vencida.

Emílio Ribas combateu os mosquitos antes de Oswaldo Cruz. Em Jaú ele quase foi linchado pela população ao denunciar um curandeiro que prometia curar a febre amarela com rezas e mezinhas. Teve de apelar à força armada para limpar os focos do mosquito.

Em Ribeirão Preto a febre amarela foi vencida em poucos dias, em 1905, porque o prefeito Ricardo Guimarães e os fazendeiros seguiram o exemplo de Emílio Ribas em São Simão – um mutirão que envolveu toda a população limpou rapidamente terrenos, quintais e praças.

Mas em 1918 chegou a gripe espanhola. Então os coronéis fecharam as porteiras e as estradas; ninguém saía e ninguém entrava, para evitar o contágio. A epidemia matou à vontade, inaugurou-se um cemitério só para suas vítimas. Mas como veio, a “espanhola” se foi.

Primeira lição: O pânico aumenta o risco. Devemos ouvir os especialistas.  Segunda lição: É preciso evitar o contágio, tomando cuidados indicados pelas autoridades de saúde pública e deixar a vida correr.

Conclusão: Ainda hoje não conseguimos erradicar os criadouros do mosquito da dengue. Mas o ministro da Saúde diz que estamos preparados para o corona vírus. Conclusão da conclusão: que conclusão tirar?

Viva o SUS

Nesse tempo de desmonte de tudo que é “social” no Brasil e uma adoração cega para o que vem dos Estados Unidos, é preciso cuidado com a nossa saúde pública. O sistema de saúde pública norte-americano é um dos mais perversos do mundo e na verdade é praticamente inexistente.

Reportagem de Diogo Bercito (https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/02/sistema-de-saude-que-leva-familias-a-falencia-sera-crucial-para-definir-rival-de-trump.shtml), na Folha (28-2) mostra a falência de muitas famílias que precisaram custear o tratamento de doenças ou, o que é pior, não puderam ter assistência alguma porque não tinham dinheiro. Isso afeta até a classe média alta. Mesmo tendo plano de saúde, um tratamento de câncer, por exemplo, pode ter custos extras de até US$ 50 mil e doenças degenerativas têm “adicionais” de US$ 150 mil. Uma exame hospitalar para conferir se a gripe não é causada pelo coronavírus pode custar US$ 14 mil. O preço de remédios específicos é altíssimo. As seguradoras têm o direito de negarem a pagar contas, mesmo quando os custos não excedam o que está no contrato. Já o paciente não pode recorrer: está na lei.

O sistema de saúde do Tio Sam será o tema mais forte na campanha presidencial. Mas os norte-americanos têm estranhas ideias sobre saúde pública. Quando o então presidente Obama tentou implantar um sistema público de saúde foi acusado de “comunista”. Trump liquidou o que restava e, no primeiro momento, teve apoio dos eleitores. Segundo o Health-Care Now, a opinião pública tratava a saúde pública como um “delírio socialista”. Mas a situação chegou ao limite.

Última conclusão: não desprezem o SUS.

Como ler as linhas tortas

Linhas tortas

Dizem que Deus escreve certo por linhas tortas. Para entender o Brasil é preciso acertar as linhas e desentortar a escrita.

O caso do clã Bolsonaro e seu relacionamento com a democracia, a imprensa e a política vai do obscuro ao trevoso.

Retrospecto: a esquerda, de forma quase generalizada, acusava a imprensa, especialmente a Rede Globo, de fazer o jogo da direita, deformando os fatos para prejudicar as forças progressistas. Boa parte da opinião pública acreditava nessa “tese” esquerdista.

O intenso apoio da Rede Globo à Operação Lava Jato ajudou a indispor o eleitorado contra o PT, o que não exigiu muito esforço. Desde 2016, dia sim e outro também, o Jornal Nacional expunha a corrupção no governo de Dilma Rousseff e destacava as investigações do Ministério Público que implicavam Lula na quadrilha que assaltou os cofres públicos (o JN começava com uma cornucópia derramando dinheiro).

O resultado foi o impeachment de Dilma e a derrota de Haddad. Correndo por fora, Jair Bolsonaro emplacou a presidência num golpe de sorte desferido por uma facada. Exceto raros partidos nanicos, os outros, do PSDB, MDB ao DEM, descarregaram votos no capitão, inclusive o PDT de Ciro Gomes.

Ovo choco

A serpente chocou o ovo e a família Bolsonaro assumiu o controle. No primeiro ano no poder tantas aprontaram que a direita obrigou-se a criar uma “oposição seletiva”. O Senado e a Câmara têm presidentes do DEM: Alcolumbre e Maia. Publicamente eles se opõem aos filhos e só se manifestam contra o pai presidente quando ele extrapola e atrapalha os projetos econômicos. Como agora, com o apoio à projetada manifestação contra o STF e o Congresso.

Para a opinião pública de ouvidos feridos pela incontinência verbal da família presidencial, Alcolumbre e Maia (principalmente), são os grandes opositores a Jair Bolsonaro. Ledo engano: eles, como toda a imprensa (ressalvem-se alguns jornalistas), apoiam com unhas e dentes o “projeto liberal” simbolizado no presidente, tramado no conluio com as “classes produtoras” para implantar o neoliberalismo. A oposição de fato seria o PT. Mas o PT não tem força nem moral para se apresentar ao eleitorado como defensor da democracia e dos trabalhadores. Além do mais, seu problema é a sobrevivência e o que fazer com Lula.

Eis onde entram as linhas tortas: foi com os desmandos da Lava Jato e os deslizes de Moro que ficamos cientes dos desvios do PT. Isto é, a Lava Jato nos trouxe a verdade através de excessos, forçando delações e vazando notícias que prejudicaram eleitoralmente o PT.

Auto-oposição

Daí chegamos à imprensa. O clã Bolsonaro mente e produz fake news que convencem sua plateia de que são os jornalistas que mentem e produzem fake news. O ponto é: para quem eles mentem? Resposta: para quem acreditar – os pacóvios que gritam “mito”. Estes seus seguidores creem (trata-se de uma crença) e fazem estardalhaço pelas redes sociais, desde que descobriram a mamadeira de piroca.

Conclusão: antes de Bolsonaro a esquerda quis nos convencer que a imprensa era omissa e parcial. Do ponto de vista ideológico pode ser verdade. Não conseguiu. Com Bolsonaro, a direita desvairada jura que a imprensa é canalha, mentirosa e persegue o presidente. Está dando certo, porque se dirige a quem abastece o seu imaginário político com primitivas teorias da conspiração.

Da mesma forma a direita ganhou o jogo político: tornou-se a oposição dela mesma, fazendo crer que o Congresso, controlado pelo DEM, PSDB e MDB que manipulam o baixo clero, pode por um freio nas cafajestadas do presidente e seus filhos. Ainda não aprendemos que o lobo não protege o rebanho… Nesse drama, quem escreve nas linhas tortas distorce a verdade e impõe a mentira como verdadeira.