Um país bárbaro governado pelos mais brutais

Carnaval em Marselha (França); pancadões em São Paulo; bonde da covid na Central do Brasil e no metrô do Rio. Como se explica?

Mais que normal, é natural. Admirável seria se as pessoas respeitassem a ciência e quem preza a vida. As sociedades atuais usam uma camada de verniz para encobrir a sua verdadeira natureza. Nos países atrasados e em processo de decadência, como o Brasil, os resultados são mais dramáticos, porque o Estado é cúmplice do desatino. As mortes por falta de oxigênio em Manaus, porém, foram rapidamente absorvidas: o presidente genocida não foi responsabilizado e o general incompetente sai ileso.

Somos um país de ignorantes, dominado por uma quadrilha de milicianos guiados pela ideia oportunista de patriotismo e religiosidade. Nos últimos cem anos tivemos lampejos de progresso, rapidamente contidos pelas elites sociais mais perversas do planeta. O egocentrismo e o obscurantismo, mais que a educação e a economia, produziram uma classe média idiotizada. O cinismo oriundo do patriotismo e a hipocrisia própria da religião aliaram-se à mesquinharia de uma pequena burguesia que agarra as migalhas que lhes são concedidas, sem a mínima solidariedade humana. Alie-se a esse quadro a herança escravocrata e temos o tempero da dominação: o racismo, a homofobia, a misoginia, que na prática se expressam no assassinato dos “diferentes” que incomodam os preconceitos; é necessário eliminá-los para não “contaminar” a mediocridade que perpetua o sistema.

O socialismo já não é sequer a esperança. O velho conceito de “socialismo ou barbárie” não tem mais sentido no Brasil. Somos bárbaros e a barbárie está sendo administrada pelos mais rudes. Não há solução à vista: tirar Bolsonaro, eleger outro qualquer, mesmo que seja o oposto disso tudo, é inócuo: a civilização brasileira perdeu o verniz dissimulador aos olhos do mundo e dos brasileiros mais lúcidos, rejeita e rejeitará qualquer política que mude hábitos e costumes determinados pela junção da ignorância com o egoísmo. Quando muito, aceitará uma nova camada de tinta por cima da violenta sociedade que criamos.

Só há um caminho: educação. Porém, o bolsonarismo, que é boçal e primitivo, ou talvez por isso mesmo, percebeu que é preciso corromper o ensino e promover a ideologização das escolas – fazendo o que acusa os “comunistas” de terem feito. O processo de decadência educacional está sendo“aperfeiçoado” por um método eficaz de contagiar a grade curricular com o negacionismo. Metodicamente o conhecimento científico e o saber são abalados pelas crenças reacionárias, que se afirmam em nome da moral e dos bons costumes das “pessoas de bem”.

Essa é uma forma de dominação que, sutilmente, estimula na prática a “liberalidade” comportamental como válvula de escape para que a pobreza não exploda. Nas artes ditas populares, no conjunto de entretenimento jogado às massas, do Big Brother às redes sociais, do sertanejo universitário ao funk, tudo forma uma avalanche ideológica que aliena a população. Aglomerações e pancadões atuam paradoxalmente como força auxiliar do bolsonarismo que promove a “moralidade” pelas igrejas pentecostais. Por outro lado, consuma-se a identificação ideológica que confunde e deturpa as conquistas fundamentais, como as liberdades de expressão e a de “ir e vir” e, certamente, demoniza os direitos humanos autênticos.

Nesse quadro as denúncias contra a política genocida do governo tornam-se crime para o Estado aparelhado pela idiotia; a atual “liberdade de expressão” justifica o “direito” de difamar e mentir, com um presidente mentiroso que, pego em flagrante, debocha ou diz que não disse o disse. Não há indignação popular contra isso.

Devemos reconsiderar o “um terço” que, segundo as pesquisas, apoia Bolsonaro. Na verdade, pelo comportamento do povo, dois terços dos brasileiros praticam o que o capitão indica: não usam máscaras, fazem aglomerações, consomem o pior da cultura brega, rejeitam a democracia e acreditam em salvação mágica para vencer a epidemia. No imaginário popular ninguém (isto é, aquele que age irresponsavelmente) morre de covid-19. A gripezinha mata os outros. É isso que está internalizado até em populações que morrem mais do que sua capacidade de sepultar. Como em Manaus, onde o povo saiu em passeata para ter o “direito de ir e vir” (isto é, aglomerar-se) e não usar máscara. O que deixa claro: as ideias de Bolsonaro não só ganharam as massas, mas são fortes porque foram assimiladas por ele das massas.

Outro ponto a considerar: a imprensa de qualidade não representa nem reflete o povo. É o megafone da pequena elite intelectualizada desligada do resto da nação ou porta-voz de grupos corporativos. Tradução final: estamos destinados ao fracasso. Engana-se quem pensa que Bolsonaro é o fundo do poço: o país todo está dominado, do Congresso às câmaras municipais cumprimos nossa tradição – por mais que o Brasil se degenere, prevalece a política da conciliação: o sistema absorve ou expele picaretas, de Collor a Bolsonaro, para que tudo permaneça como está.

No Brasil os poderosos se aproveitam e os historiadores são engolidos pela história. Os meios de comunicação se incumbem do “veja bem”… Precisamos de uma nova história e de uma nova sociologia para explicar nosso fracasso. As ciências sociais avançaram nas questões de gênero e racismo, mas não penetraram no conteúdo das suas origens. Por isso, Bolsonaro é tratado como um “fenômeno” desligado das nossas raízes de violência.

Da má consciência burguesa ao calhambeque brasileiro

O mundo como ele é – Já foi observado desde o século XVIII, por Adam Smith, e depois no começo do século seguinte, por David Ricardo, que a “ordem natural das coisas” é o mundo como está: as classes dominantes devem administrá-lo. Isto é, os de cima, pisam nos debaixo. Claro, com palavras dulcificantes, o que é mais cruel. Ricardo, por exemplo, deu argumentos aos religiosos que conclamavam os pobres a se conformarem com a vida terrena, pois o sofrimento lhes garantia o céu.

Mas, havia o problema da consciência burguesa, logo resolvido: se o mundo criado por Deus é assim, o que os ricos poderiam fazer? Além disso, os futuros economistas descobriram que os pobres eram culpados pela pobreza. Os ricos são educados e seguem as regras. Já os miseráveis são ignorantes, sujos e não têm noção das obrigações sociais. Ainda bem que eles temem a autoridade.

Até que veio a Comuna de Paris, em 1848, e logo em seguida o Manifesto Comunista. Mas a Comuna fracassou, pois tinha mais liberais ávidos por “liberdade” do que representantes da massa espezinhada. O Manifesto precisou de algumas décadas até provocar as várias internacionais de trabalhadores. Nesse tempo o capitalismo inventou máquinas, leis, fez e depôs reis, criou repúblicas e descobriu seu grande irmão (ou filho dileto): o Mercado. Houve alguma turbulência, como a revolução russa, as duas guerras mundiais, as revoltas africanas e árabes que afetaram o colonialismo etc. Nada que abalasse as raízes do grande capital. A revolução cubana fez cócegas no Tio Sam, mas lhe foi útil: serviu de pretexto para apoiar ditaduras submissas. Hoje, os cubanos não assustam sequer o Bolsonaro.

Saúde dominada, bote final da educação – Fazer jornalismo é para quem não tem ou tem muita imaginação. Tudo já foi dito sobre Bolsonaro: é um arremedo de ditador, de comportamento genocida e a paranoia da eterna conspiração – porém, ainda na fase anal, se é correto lembrarmo-nos de Freud para “analisar” tal besta.

Portanto, os menos imaginativos ou sem talento para descobrir as frinchas da políticanalha brasileira, conformam-se em fazer o que se faz nesse texto: um chororô repetitivo. Prossigamos. A nomeação do novo ministro da Saúde confirma a torpeza bolsonarista: ele não ser militar agrava a situação – vai obedecer sem o freio dos generais. O novo Pazuello junta-se a um bando de suspeitos e réus que assumiram cargos chaves na administração, ligados a empresas e grupos financeiros, além de conhecidos disseminadores de notícias falsas e sabotagem contra o isolamento social. Muitos pertencem à turma da cloroquina. Todos competentes e necessários para passar a boiada.

Mas o processo de bestificação da máquina governamental não cessa. Agora prepara-se o bote final na Educação. O ministro Milton Ribeiro indicou para a coordenação de materiais didáticos Sandra Lima Vasconcelos Ramos, que se tornou conhecida por atacar a “ideologia de gênero” e propor a “escola sem partido” e trabalha descaradamente para impor o criacionismo na grade curricular. Ela deve reforçar a batalha pela implantação da “educação cristã”, com sua colega Inez Borges, auxiliar principal do ministro e uma das líderes da “Visão Nacional para a Consciência Cristã”, que combate o ensino laico. Todo o Ministério age harmoniosamente para implantar escolas cívico-militares ou seu programa. Um dos ideólogos dessa gente é Olavo de Carvalho.

Dependemos dos homens de toga – Com a mortandade provocada pela pandemia e o novo ministro desavergonhadamente confessando que a política de saúde é do presidente e que ele, médico, seguirá o trabalho do general, o que se esperar se não mais mortes e o colapso geral dos hospitais?

Não podemos contar com uma reação do governo, é evidente. Nem do Congresso, dominado pelo centrão, que resmunga, mas se submete e sabemos a que preço. A sociedade civil está paralisada (aliás, o que é sociedade civil?). Deus, até agora não deu as caras, enquanto o Diabo faz a festa. Então, a quem apelar?

Só sobrou o STF (Supremo Tribunal Federal) e o MP (Ministério Público), já que a PF (Polícia Federal) está mais preocupada em cumprir a Lei de Segurança Nacional contra quem protesta e chama Bolsonaro de genocida do que pegar os sacanas das rachadinhas ou quem se aproveita da pandemia para faturar. Pois, sobrou o STF.

O que o STF pode fazer? E qual a sua disposição e real poder para frear a malandragem do centrão e a irresponsabilidade criminosa do presidente? Aqueles doutores de toga que falam e escrevem enviesado têm jogo de cintura suficiente para transformar Satanás em Madre Teresa de Calcutá. Gilmar Mendes, por exemplo, com seu conhecimento técnico e jargão característico, se quiser pode “decretar” um cala-boca em Bolsonaro e um chega-pra-lá no Congresso, impedindo que generais e médicos obedientes a um doido continuem a contribuir para a mortandade. E, quem sabe, possibilitar a criação de uma comissão de cientistas e políticos menos dóceis para enfrentar a crise que, com Bolsonaro, não terá fim.

O país do futuro caducou – No entanto, nos sobra desesperança. O Brasil, como um calhambeque avariado, só pega no tranco. Se o motor girar, calma, faltam pneus – e tudo permanece normal: como Adam Smith e Ricardo “doutrinaram” para a ética capitalista nascente no século XVIII.

Do verniz cultural à perversidade social

Por que as pessoas não acreditam no que dizem acreditar? Por que não agem de acordo com as convicções que afirmam ter? O autoengano é a porta da felicidade?

O puro e o impuro na mente – Os índios entravam na água para se refrescar, não pensavam em limpeza. As índias cozinhavam para comer, não tinham refinamento gastronômico. A noção de higiene, do limpo e do sujo, são novidades inclusive na nossa cultura branca – que julgamos “superior” às demais ou, quando nos ataca o complexo de vira-lata, inferior a tudo o que existe no estrangeiro.

Antes do conceito do limpo e do sujo, internalizou-se em nós a noção do puro e do impuro. Que nada tinha ou tem a ver com o asseio ou a sanidade: é um “mandamento” religioso, que determina o que é pecado e o que pode nos livrar do inferno. O puro e o impuro, religiosamente entendidos, estão presentes na mais antiga linguagem e rituais da humanidade.

Começamos a lavar as mãos há uns cem anos. Antes de aprender a se pentear o homem aprendeu a se despiolhar. A linguagem culta foi (é) um dolorido aprendizado. Até hoje não sabemos nos comunicar: a parafernália eletrônica, informatizada e à disposição de qualquer criança, mais nos ameaça do que nos liberta para a aproximação com o outro – o extravasamento do ódio nas redes sociais é o produto mais efetivo da cibernética.

A vulgarização e degradação do saber – De certa forma a “culpa” é de Gutenberg. Ao criar os tipos móveis e aproveitar-se da prensa para fabricar livros, tirou a exclusividade do saber do controle dos eruditos e disseminou o conhecimento em um processo que teve mais degradação das origens do que divulgação do conteúdo. Facilitando o acesso aos livros e a imprensa tornando-se uma indústria, vulgarizou-se o saber, ao simplificar o conhecimento para que as massas pudessem percebê-lo. O problema é que o vulgo passou a desfrutar ou usufruir daquilo que não podia compreender – o passo seguinte foi usar esse conhecimento como arma de dominação. Dos textos bíblicos aos livros de autoajuda, da pólvora ao urânio enriquecido o processo político é o mesmo: só mudam as variantes tecnológicas e a apropriação da ciência pelos sistemas de poder. O fiasco é histórico.

Se quisermos um exemplo clássico, lembremos Aristóteles. Ele descreveu a mosca com oito pernas, quando sabemos que ela tem seis. Os copistas reproduziram o erro de Aristóteles e por séculos os livros mostravam a mosca com oito pernas, até que alguém desconfiou. O engano de Aristóteles é inócuo e não produziu danos. Porém, os erros dos mestres da Idade Média, ao informarem sobre uma terra plana no centro do universo, levou a Inquisição a queimar milhares de seres humanos, inclusive cientistas e filósofos. Com o aval de santos, papas, reis e governantes impondo o erro e sufocando a ciência e os direitos humanos.

Como isso se traduz no dia-a-dia, hoje?

A tragédia do país real – O Brasil é um país de analfabetos funcionais. O analfabeto “puro”, que não sabe ler nem escrever, não causa dano a ele nem aos demais. Geralmente ele pertence a uma cultura específica e sua sabedoria não depende do “saber” das “pessoas esclarecidas”. Mas o analfabeto funcional, que segue a tradição iniciada por Gutenberg, “sabe” o que julga saber, com certeza, porque desconhece a lógica socrática do “só sei que nada sei”. Ele é o ignorante ilustrado, com o verniz da informação daquilo que não entende, por isso cria convicções e impõe as verdades absolutas – cultivadas como representação do seu “saber”, mas que na prática justificam sua condição de classe. Por isso, tais convicções e verdades absolutas são adornos à imagem que ele pretende projetar. Portanto, podem ser transgredidas de acordo com a sua conveniência momentânea.

Foi dessa forma que uma classe média que se julga democrática, culta, bem informada, cristã e humanista, para derrotar o PT elegeu presidente um homem truculento, que defende torturadores e a ditadura. Agiu sem pudor e festejou o resultado, pois cria convicções que mascaram o conteúdo da sua condição social e política, oriunda da brutalidade do sistema social excludente, racista e hostil à ciência da qual a pequeno burguesia tira, justamente, essa camada de verniz necessário para encobrir a tragédia brasileira. O “fracasso” (e na pandemia vimos que esse “fracasso” é na realidade uma tragédia) da ciência mostra-se na produção de saber que a classe média não entende na sua essência, pois é prisioneira de condicionamentos culturais preconceituosos que a leva a “captar” superficialmente o fato científico para camuflar sua ignorância e justificar a sua barbárie. Por outro lado, a grande burguesia e o capital monopolista aproveitam da ciência a tecnologia e a técnica, reprimindo o seu saber quando se vê ameaçada em suas prerrogativas.

Não seria preciso tantas palavras se de princípio escrevesse: estamos nas mãos de uma gente que diz uma coisa e faz outra. Atenção: não estamos nas mãos de Bolsonaro, mas da classe média – como ela votará em 2022, agora que o dilema Lula voltou?

Brasil, do acanalhamento ao apodrecimento

Panorama Geral – A economia desabou. Morrem quase duas mil pessoas por dia. O presidente, com a cara lavada e os olhos brilhando, diz que por ele nunca teremos lockdown – e convida os cupinchas para comer uma leitoa. O centrão comanda o espetáculo e além da imunidade quer impunidade. Os filhos presidenciais deitam e rolam: o caçula levou a mamãe para fazer lobby em Brasília; o maior comprou uma mansão de R$ 6 milhões. O general da Saúde desapareceu, em plena mortandade e colapso dos hospitais.

E o povo?

Foi liberado por Doria para ir às igrejas. Escondidinho, aglomera e faz festa. A morte é uma ideia distante e só morre quem já morreu. Antes ele do que eu. Claro, há exceções que, impotentes, tremem de angústia pelo que vem por aí. Mas, que fazer?

História assassina – Comecemos pelo começo: os descobridores/invasores mataram os índios, trouxeram negros escravizados e dilapidaram o país. Levaram o ouro e a grana para a Europa e enriqueceram a aristocracia e os pilantras que nos saqueavam. Para livrarem-se do inferno financiaram catedrais e fizeram alianças com os papas e as grandes potências da época. O ouro saiu das minas gerais, viajou para Portugal, mudou-se para a Inglaterra e financiou o modelo econômico de rapina que até hoje nos esmaga. Atualmente, porém, a rapina não é feita pelos colonialistas que se tornaram imperialistas, mas pelas elites nativas – do capitão do mato ao coronel de barranco chegamos ao coronelismo das avenidas Paulista e Faria Lima – com suas filiais em usinas, fábricas, bancos, agronegócio e mercadores da saúde pública e destruidores da educação. Tudo dentro da lei: não se vê a face assassina dos financistas que financiaram e agora suportam com um muxoxo o matador geral da República: Bolsonaro.

O mito da juventude – Diziam que o Brasil é um país jovem. Por isso as lambanças e a roubalheira. Porém, nenhum país da América do Sul é mais velho do que nós. O Brasil é o mais antigo nesses tristes trópicos. A Argentina, por exemplo, só existe como nação unificada, e Estado ainda em formação, depois do massacre contra o Paraguai, em 1870. O Uruguai, até o final do século XIX lutava pela sobrevivência. Todos os hispânicos tinham vice-reis que governavam obedecendo ao rei espanhol, sem autonomia, às vezes, nem para furar um poço de água. Enquanto isso os portugueses estabeleceram desde o início gerentes locais que organizaram o saque e fincaram as regras do “bem viver”. Fernando de Noronha, nosso primeiro testa-de-ferro do capital internacional, fez o que quis na “sua” ilha. Donatários, bandeirantes, mineiros, bacharéis e toda a caterva de sacanas tiveram as mãos livres para encher os bolsos, desde que pagassem tributo ao reino. Por fim, a partir de 1808 consolidou-se a “independência” administrativa, que uma vez por ano, prestava contas ao rei. Portanto, somos mais velhos, mais antigos e mais acanalhados do que nossos hermanos.

Caminho do apodrecimento – Qual é o sentido dessa lamúria e de continuar escrevendo se o povo, ou a chamada opinião pública e, talvez, a sociedade civil, convivem covardemente com um genocida que tripudia sobre a calamidade mortal que assola a nação?

O primeiro sintoma do acanalhamento do Brasil foi eleger Bolsonaro. Ninguém pode ser desculpado: todos sabiam quem era o capitão que defendia a tortura. O país acanalhado não reage e deixa a oposição a um punhado de cidadãos que enfrentam solitariamente a tragédia bolsonarista. Agora o Brasil começa a apodrecer, ao assistir sem um uivo de dor a morte provocada pela patifaria de uma gangue que assumiu o poder.

Não se mede o caráter de um povo pela resistência e luta das minorias, enquanto a maioria estupidificada dorme em berço esplendido fedendo a defunto. Podemos por a culpa no analfabetismo político, em séculos de opressão escravista e na ideologia da miséria, do branqueamento e das “liberdades” que o brasileiro nunca teve e defende feito besta. Mas o fato concreto está aí: o povo convive com a hecatombe política. Como não apodrecer dentro dessa podridão?

No Brasil, Gramsci caiu no samba do crioulo doido

Depois de chorar, enxuguemos as lágrimas das nossas desgraças com o riso. O risco é considerarem politicamente incorreto o chororô sobre a incompetência dos gramscianos tupiniquins. Gramsci, como as pessoas de bem sabem, propôs aparelhar o Estado para mudar a ordem estabelecida por Deus desde a criação do mundo e entregar o poder à sociedade civil, isto é, aos traidores da pátria.

Segundo o professor emérito da Escola de Comando do Estado-Maior do Exército e ex-ministro da Educação, Ricardo Velez Rodriguez, defensor da “escola sem partido” e do criacionismo, além de doutores em várias doutorices, no Brasil os globalistas escolheram para agente do comunismo internacional o PT, que promoveu o aparelhamento do Estado pelos marxistas. Para ele, o “lulopetismo” encheu o governo de militantes “soviético-socialistas”, para conquistar o Estado e mamar eternamente no poder.

A esquerda gramsciana repete a acusação, em artigo de Ivan Alves, no site Acessa.com/gramsci. Ele concorda com Velez em gênero, número e grau, embora ideologicamente ambos sejam opostos – é o Brasil. Diz o gramsciano: “No tocante ao aparelhamento do Estado, a performance petista só é comparável, em termos de Brasil, ao Estado Novo de Vargas e à Ditadura de 64. Basta citar as dezenas de milhares de nomeações que promoveu país afora. Era uma tentativa de perpetuação no poder como em outras fases autoritárias da nossa História recente!”. Até aqui a direita e a esquerda gramsciana empatam: a culpa é do PT.

Deixemos as discordâncias concordantes desses personagens de grosso calibre intelectual, pois a gente semos ignorante e, como diria um personagem de Lima Barreto, vamos às “coisas práticas”. Ora, na práxis os infiltrados gramscianos petistas foram absolutamente incompetentes. Encheram a Petrobras de agentes do globalismo mundial e infiltraram no governo os seguidores do perigoso anarco-sindicalista Georges Soros, para depois entregarem de bandeja o Brasil aos amantes de Olavo de Carvalho. E nem assim colocaram as vírgulas e corrigiram as crases. Nem Nicolas Maduro foi tão idiota, com perdão do que pensa Gleisi Hoffmann, presidente dos bolcheviques.

E o que fizeram os filósofos do gabinete do ódio? Simples: efetuaram a “gramsciazação” direitista do Estado (?!), aplicando Gramsci onde os gramscianos esquerdistas não foram capazes de fincarem os pés (quase ia escrevendo as patas). Tomaram conta de tudo. Já são quase dez mil militares ocupando gramscianamente cargos civis, inclusive na defesa da cloroquina e na liquidação da Petrobras. Para usar o linguajar deles, “os cara é foda”. Em vez de ocuparem a Petrobras com um bando de técnicos e cientistas, tratam de miná-la nomeando o homem certo para o lugar certo, isto é, cada milico no seu galho: como diz o general Pazuello, “é simples assim, um manda e o outro obedece”. Dessa forma, no maquiavelismo de caserna, eles, que denunciavam que o “lulopetismo” estava em conluio com os vendilhões da pátria, agora podem entregar a estatal patrioticamente. Gramsci fica parecendo filho-de-maria.

Quem ganhou a briga? Gramsci ou Olavo de Carvalho? Quem é mais sagaz politicamente, Lula ou Jair? “Coisas práticas” – e estamos conversados.

A esquerda, dividida, acusa-se mutuamente de aproveitar-se do poder e ficar ao lado dos poderosos; ou de acatar mais Lampedusa* do que Gramsci. Enquanto isso, a “praxidade” dos analfabetos políticos, como Bolsonaro, de cloroquina em cloroquina faz um gol atrás do outro – e o juiz é ladrão, como sabem as pessoas de bem. Por isso, perdemos de goleada e a qualquer hora um cabo e um soldado podem mudar a história do Brasil.

Vamos rir ou chorar?

* Se vogliamo che tutto rimanga como è, bisogna che tuto cambi.

Em que momento o Brasil abriu a porta aos canalhas?

Há muito tempo o Brasil derrapava na decência, mas, em que momento se acanalhou e abriu a porteira para o rebotalho político atual?

Parece-me que a senha foi dada na abertura da Copa, em 12 de junho de 2014, no Itaquerão, estádio do Corinthians, hoje chamado Neo Química Arena. Naquele instante despejava-se o esgoto, quebrava-se a etiqueta social e rompíamos o verniz da civilidade. Assim que a então presidente apareceu, um coro de sessenta mil vozes gritou: “Vai tomar no cu, Dilma” – foi o presságio do que o Brasil se transformaria.

É bom lembrar que já estava em gestação o golpe que culminou em 2016, com a deposição da presidente. O coro, mostrado mundialmente pela televisão, foi puxado por uma colunista social. Personalidades na política e celebridades participaram da “manifestação popular”: metade do público era de convidados da CBF e da FIFA; a outra metade pagou R$ 990,00 pelo ingresso. Percebe-se que era uma multidão representativa daquela que, quatro anos depois, em 20l8, levaria Jair Bolsonaro à presidência da República.

A imprensa mundial registrou o fato com aversão. Mas no Brasil os jornais se limitaram a registrar o xingamento, sem juízo de valor. Entrevistaram Aécio Neves, por exemplo, para quem “Dilma colhe o que plantou”, como se mandar uma presidente “tomar no cu”, ao vivo e em cores, não revelasse o caráter daquela gente. Aquele refrão foi consentido e assimilado como uma forma democrática de protesto. A polarização desandou e chegou ao ponto em que, hoje, a agressão ao estado de direito, a apologia da ditadura e pedir a volta do AI-5 entendem-se como prerrogativas básicas da liberdade de expressão.

Aquele momento marcou a virada: o fascismo enrustido da classe média veio à tona e identificou-se com Bolsonaro. Ao olhar no espelho as “pessoas de bem” viram a imagem do que pretendiam para o país – cada coisa em seu lugar: pretos e pobres nos seus guetos e fora do ambiente que a grande burguesia reserva e permite aos seus funcionários de estimação. Enfim, a normalidade brasileira de volta, sem “mistura” nem “promiscuidade” nos aeroportos, principalmente. Pobres no avião desglamouriza a alienação dos pequenos burgueses que se julgam parte da elite social a quem servem como lulus de madame.

Então, o processo acelerou-se. E chegamos onde estamos: um deputado preso pelo Supremo Tribunal Federal (STF), por flagrantemente achincalhar seus ministros e ameaçá-los de morte, partidário da ditadura e de soluções extremas, tem a prisão problematizada e negociada com formalismos legais por políticos corruptos e juristas de ocasião, alegando-se imunidades parlamentares e o direito à liberdade do pensamento. Aliás, esse deputado bolsonarista tem se expressado livre e impunemente com vigor, desde que rasgou a placa que homenageava a vereadora Marielle Franco, assassinada pelas milícias a mando de organizações conhecidas, mas raramente nomeadas e investigadas com dificuldade, devido as queimas de arquivos mais que evidentes.

Nada estranho, pois temos um psicopata na presidência e um governo militar que o sustenta – e compra 700 mil quilos de picanha, 140 mil quilos de lombo de bacalhau, uma provisão de uísque de 12 anos e distribui milhares de latas de cerveja à tropa. Se fosse pouco, recusa-se a oferecer os leitos vagos de seus hospitais às populações que estão morrendo por falta de leitos. E isso não provoca nenhum abalo significativo na opinião pública.

Assim, a questão já não é qual o momento em que se deu o desvio para a canalhice que tomou conta do Brasil. Mas, até quando essa canalha continuará se desmandando e qual o seu limite. Provavelmente Bolsonaro será reeleito, o que bem revela nosso abismo moral e político. Conseguirá, nesse mandato ou no próximo, armar as milícias que lhes são tão caras?

E a chamada sociedade civil, continuará na inércia criminosa, dando uma no prego e outra na ferradura, na esperança de que Paulo Guedes, preparado em Chicago para servir à ditadura de Pinochet, desmonte economicamente o que ainda sustenta as políticas públicas brasileiras? Nossa elite empresarial não percebeu nem foi informada que o neoliberalismo fracassou em todo mundo?

Muitos de nós morreremos antes que toda essa politicanalha se resolva. Mas será que a luta de várias gerações contra a exclusão social e a resistência à ditadura foi em vão? Fomos iludidos pelas nossas convicções e enganados sobre o caráter do nosso povo? O esforço de várias gerações resultou no fracasso que deixou a pátria ser ocupada por psicopatas e criminosos?

Em O povo brasileiro, Darcy Ribeiro escreve que o Brasil é um “povo nação, assentado num território próprio e enquadrado dentro de um mesmo Estado para nele viver seu destino”. Mas, qual será esse destino? Segundo Darcy, “somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Todos nós brasileiros somos, por igual, a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal, que também somos. Descendentes de escravos e de senhores de escravos seremos sempre servos da malignidade destilada e instalada em nós, tanto pelo sentimento da dor intencionalmente produzida para doer mais, quanto pelo exercício da brutalidade sobre homens, sobre mulheres, sobre crianças convertidas em pasto de nossa fúria. A mais terrível de nossas heranças é esta de levar sempre conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista”.

Mais que uma constatação é uma profecia. É possível ter esperança?

A responsabilidade da Fiocruz na doidice de Bolsonaro

A obsessão de Bolsonaro pela cloroquina exige mais explicações. Os fatos, a reportagem de hoje, de Vinicius Sassine, na Folha, expôs: o Ministério da Saúde destinou à Fiocruz R$ 457,7 milhões para a produção do medicamento que não tem nenhuma eficácia para combater o corona vírus.

Foram produzidos 4 milhões de comprimidos, “distribuídos de acordo com as orientações do Ministério da Saúde para manuseio medicamentoso precoce de pacientes com diagnóstico da Covid-19” – conforme nota oficial de julho. Em outubro continuava a distribuição, que foi reforçada agora em janeiro pelo general Pazuello, para o “tratamento preventivo”, diante das mortes por falta de oxigênio em Manaus.

Nunca houve qualquer comprovação científica de a cloroquina ser efetiva no combate ao corona vírus. Em julho e outubro de 2020 todos os equívocos estavam desmoralizados. Mesmo assim, tanto o Ministério da Saúde como o presidente insistiam no seu uso.

Não é preciso recordar que Bolsonaro “receitou” cloroquina até para as emas. Nem que ele foi uma espécie de sabujo de Trump, que lhe enviou dois milhões de comprimidos. Mas é bom lembrar que uma das multinacionais que produzem o insumo básico para o remédio, na França, tinha (ou tem) como um dos seus investidores o ex-presidente dos Estados Unidos.

Deixemos Bolsonaro e suas ligações espúrias, dentro e fora do Brasil, e olhemos a Fiocruz. Em plena pandemia, com a polêmica popular sobre a cloroquina fervendo e inúmeros pesquisadores condenando o seu uso, como os cientistas da Fiocruz não desconfiaram que havia algo de podre no reino? A Fiocruz tem uma equipe científica de alta competência, respeitada internacionalmente. Por que se calou e “cumpriu as ordens”, fabricando a panaceia? Alguém engole o argumento de que pensava estar produzindo remédio contra a malária, quando só se falava na fixação do presidente pela cloroquina no combate ao covid-19?

Por outro lado, foi apenas a sabujice de Bolsonaro a Trump que o levou a ser o arauto da cloroquina? Seu primeiro ministro da Saúde, Mandetta, caiu por discordar do presidente, mas enquanto no cargo nunca fez um pronunciamento vigoroso contra as maluquices presidenciais ao receitar cloroquina. O seu sucessor, Nelson Teich, assumiu sabendo das manias de Bolsonaro. Também não disse claramente que a cloroquina, mais que bobagem, era um crime contra a saúde pública da forma como recomendada pelo presidente. Nada a comentar sobre Pazuello, que foi nomeado para cumprir ordens e obedecer ao seu capitão.

Resumindo a saga da cloroquina: em março de 2020 Bolsonaro manda o Laboratório Químico Farmacêutico, do Exército, produzir a droga. Em abril, por medida provisória, autoriza uma verba de R$ 457,7 milhões para a Fiocruz fabricar o medicamento. Em julho o Ministério da Saúde começa a distribuir a cloroquina e, em agosto, recomenda usá-la no “tratamento precoce” contra o covid-19. Em outubro, quando não havia nenhuma dúvida sobre a inocuidade da cloroquina, o Ministério da Saúde compra todo o estoque produzido pela Fiocruz.

Em 25 de janeiro deste ano, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, autorizou a abertura de inquérito para investigar a conduta do general Pazuello, na crise de Manaus. Então o presidente começa a mudar o tom e fica mais reticente sobre o uso da cloroquina e os gastos do dinheiro público na sua produção.

Finalmente, a pergunta: por que a Fiocruz submeteu-se a tal loucura e não se recusou a desperdiçar R$ 457,7 milhões? Qual a responsabilidade dos diretores e cientistas da Fiocruz nessa história que a reportagem da Folha expôs claramente, mas que os responsáveis diretos e indiretos não conseguem ou não querem explicar?

Ceerto e errado depende da hora e do lugar

            É possível o certo ser errado. E vice-versa. Às vezes quem está certo se acha no lado errado. E no lado errado pode haver alguém certo.

            Um dos primeiros desejos da família presidencial foi fechar o Supremo Tribunal Federal com um soldado e um cabo. Do ponto de vista deles, estavam certos, mas erraram estrategicamente. Não porque o fechamento do STF fosse um crime contra a democracia, mas porque certas coisas não se dizem em público, fazem-se em silêncio e às escondidas. No entanto, muitos esquerdistas que se opõem ao sistema, historicamente têm proposto o encerramento das instituições e a instalação de uma nova ordem, cancelando a Constituição. Eles podiam falar abertamente, pois não conseguiam transformar a sua rebeldia em atos. Mas se um dia o pessoal antissistema chegar ao poder, como aconteceu com Lula, deve se comportar dentro dos padrões que repudiam, isto é, institucionalmente, porque se é permitido vociferar para engalanar o discurso, não se pode executar o desejo, para não entornar o caldo. Por causa disso, pelas mesmas razões, Bolsonaro e sua trupe, o petismo e aliados à esquerda, são criticados pelos “democratas” – aqueles que não admitem mudanças fora da Constituição e agarram-se ao establishment. Eles aceitam o golpe, mas não divulgam o discurso golpista: Temer conspirou silenciosamente e deixou que os idiotas compusessem a banda de música para espalhar a geleia no ventilador – a mídia embarcou gostosamente e deu asas ao Pato da Fiesp.

            O centrão é negócio à parte. Negócio mesmo, o centrão não está à direita nem à esquerda, menos no alto e nunca em baixo; serve a quem melhor paga – e trai. O centrão nunca tem discurso e, quando é obrigado a resolver a parada, cai na paródia, como aqueles pilantras que ao votarem o impeachment de Dilma ofereciam o voto às mamães, papais e esposas e um deles, mais tarado que os outros, comemorou elogiando um torturador.

Vejamos o caso da Rede Globo. O PT passou a vida acusando a Globo de fazer o jogo dos poderosos e deturpar o noticiário para incriminar o partido. Leonel Brizola prometeu que se fosse eleito presidente seu primeiro ato seria fechar a emissora. Porém, toda a esquerda critica Bolsonaro porque ele quer fazer o que os esquerdistas diziam que fariam, até que aparecesse o adversário que se propõe a fazê-lo. A questão bem pode ser: a esquerda defende a liberdade de expressão e a sobrevivência da Globo porque, em dois anos, tornou-se defensora da imprensa que tanto condenava ou por que não quer dar a glória da façanha ao bufão da hora?

Ou seja, o certo e o errado estão certos ou errados dependendo de quem fala ou faz, em cada lugar e momento – quase completava “cada momento histórico”, mas para o acanalhado Brasil contemporâneo é demais.

Socialistas e fascistas, democratas e autoritários, podem ter opiniões idênticas, mas condenam-se mutuamente pelas mesmas intenções ou ações. Sobra, ainda, outro problema: quando se permite dizer a verdade se a verdade compromete a luta pela verdade?

Não é jogo de palavras. O que está escrito acima é a verdadeiro, como os fatos comprovam facilmente. Mas, se insistirmos nessa face da verdade poderemos enfraquecer os meios de lutar pela verdade maior: é urgente tirar da presidência um lunático que está transformando o Brasil em uma casa de doidos desavergonhados. E isso torna-se tão problemático porque há mentiras que parecem verdades: se alguém acredita em um mito toda a verdade passa a ser a mentira dita pelo Mito mitômano. A tragédia é que não há morte por asfixia por falta de oxigênio que mude esse fato: na polarização ideológica não há verdade nem mentira, apenas opinião – cega e burra.

Os tempos da peste, ontem e hoje

As pestes dos séculos XVI, XVII e XVIII já revelavam algumas verdades e muitos equívocos. Naqueles tempos sabia-se que isolamento e quarentena eram eficientes. Mas os idiotas antigos e recentes sempre negam a experiência científica. A ciência, aliás, tinha os seus vícios e preconceitos e alguns “físicos”, como se chamavam os médicos da época, curvaram-se aos poderosos. Hoje os cientistas não se rendem, mas políticos ignorantes valem-se da pseudociência para alimentar crendices – e receitam cloroquina até para as emas.

Barcelona, 1546. A cólera dizimava a população e os governantes vizinhos proibiram qualquer aproximação às muralhas daquela cidade. Em pouco tempo os barcelonenses ficaram sem comida. Então, saíram para tentar comprar mantimentos. Foram recebidos a tiros de canhão. Entre morrer de bala ou de fome, voltaram à cidadela e esperaram a morte pestífera desistir de matá-los.

Poucos anos depois o fato se repetiu em diversos locais da França, mas o rei foi previdente. Proibiu os habitantes das comunidades contaminadas a saírem de casa. Grupos armados atacavam os desobedientes e muitos foram mortos.

Guardadas as proporções, hoje, quando alguns países proíbem outros povos de entrarem em seu território, repetem a lição de cinco séculos. E como antigamente, nesse exato momento há quem duvide da eficácia do isolamento, comprovada há quatrocentos anos. No século XVII, por exemplo, aconselhava-se as pessoas a não se aglomerarem nem se tocarem. Em alguns locais recomendava-se o uso de máscaras e roupas defensivas. Os empresários protestaram, argumentando que os governantes estavam arruinando a economia. Como se vê, a história vai e volta e a tragédia pode reaparecer como farsa genocida. Não é preciso muito esforço de imaginação para equiparar as asfixias de Manaus e as milhares de mortes evitáveis no Brasil à burrice daqueles idos, que comparada à de hoje, merece alguma desculpa.

Em 1584, os juízes, especialmente na Holanda, juntaram-se aos militares e decidiram que algumas cidades, irrecuperáveis na visão deles, seriam cercadas para receber os pestilentos de outros locais. Os que apresentavam os primeiros sinais da peste eram imediatamente remetidos às vilas condenadas. Tentando salvar a população que ficava, uma das medidas era impedir qualquer trabalho mais duro, para que o corpo não se “abrisse ao ar infeccioso” e facilitasse a entrada do “vírus” – a palavra existia no latim, mas significava veneno e os cientistas nem suspeitavam o significado que ela tomaria. Desde então a peste provocou um retrocesso incrível na higiene corporal a partir do século XVII.

            “Descobriu-se” que a água, como elemento da higiene pessoal, era um agente perigoso para propagar a peste, pois “abria os poros” permitindo a entrada do “veneno”. Vários tratados científicos recomendavam não tomar banho. Ao acordar, o máximo que se permitia era lavar a boca com vinagre e esfregar um pano branco nas faces. Para manter o corpo limpo e eliminar o bodum recomendava-se, além da esfregadela com pano branco, vinho diluído na água, para purificá-la. Os ricos e os parasitas da Corte usavam perfumes.

            A peste foi embora, mas deixou o hábito. Paris, que do século XIII aos meados do XVII, tinha inúmeras casas de banho e saunas, a partir de 1650 ficou quase cem anos com medo de tomar banho. Um médico da época lançou o aviso: “Saunas e banhos, por favor, fujam deles ou vocês morrerão”.

            No entanto, naqueles tempos surgiram algumas recomendações mais lúcidas. Um sábio dizia que, nas pestes, “As roupas que se devem vestir são de cetim, tafetá (…) que não deixam o pelo à mostra e sejam tão lisas e apertadas que dificilmente o ar ruim e qualquer infecção que possa entrar e apegar-se a elas, principalmente se forem trocadas com frequência”. É o pioneirismo do uso das máscaras modernas, que tanta gente rejeita hoje.

            Mas há um registro histórico curioso, de 1610. O rei Henrique IV, da França, ficou apavorado quando soube que seu primeiro ministro estava tomando banho. Mandou um emissário dizer-lhe: “Senhor, o rei vos ordena que termineis vosso banho e proíbe-vos de sair hoje, pois o senhor Du Laurens (médico real) assegurou-lhe que isso prejudicaria vossa saúde”. Se fosse pouco, enviou-lhe um ultimato: “Ordeno-vos que o espereis amanhã (ao rei), com roupão, botinas, chinelos e touca de noite, a fim de não vos indispordes por causa do vosso último banho”. Quem quiser saber mais sobre os cuidados na peste, sua prevenção e limpeza do corpo, leia O limpo e o sujo, de Georges Vigarello.

Os tempos mudam, mas os homens, não; pelo menos aquelas pessoas que vemos sempre nos altos cargos do governo. Bolsonaro e seu ministro general estariam em casa nos séculos XVI e XVII.

Por que a esquerda tem medo de dizer o que sabe?

A queda de popularidade de Bolsonaro, apurada pelo Datafolha, embora pequena, entusiasmou a oposição. No Twitter, 90,9% dos usuários que se ocuparam dele o condenaram: ele foi defendido apenas por 5,8%. Os críticos tiveram 90,4% de interações contra 7,8% dos defensores.

As mortes por asfixia em Manaus, as besteiras do ministro da Saúde, a defesa da cloroquina como “tratamento precoce”, o negacionismo sobre a vacina, a derrota de Trump (com sua ridícula tentativa de golpe) e uma série de comportamentos que beiram a idiotia, causaram o estrago. Mas, é mesmo estrago?

Dois terços dos que elegeram Bolsonaro não votaram nele, mas contra o PT. Queriam o fim do petismo e Lula na cadeia. O núcleo do eleitorado bolsonarista é o terço restante, que permanece fiel. Por mais que as pesquisas indiquem, o descontentamento com Bolsonaro não abala esses 30% que seguem com ele, aconteça o que acontecer. O mito continua Mito. Com esses 30% de fanáticos usando a “ameaça” da volta do PT, Bolsonaro deve se reeleger, mesmo com a turbulência política e econômica que teremos nos próximos dois anos.

O voluntarismo e a ilusão política não combinam com a esquerda (seja qual for), que pelo menos teoricamente deve ser racional, pois representa uma crítica ao sistema. Mas a fantasia e o engodo alimentam qualquer direita, mesmo quando é evidente o logro, como no caso de Bolsonaro. A esquerda está derrotada e necessita entender objetivamente as regras do jogo para lutar contra o seu resultado. A direita sabe aproveitar-se da vitória e usar a força para fortalecer suas ilusões. Por isso, um líder ou chefe populista – na verdade, capo – quanto mais histriônico melhor inflama as massas. Não importa as bobagens que diz nem as besteiras que faz: seu poder vem da representação retórica formal, não essencialmente do conteúdo do discurso: é a força bruta da alienação política que se impõe. Nesse sentido, quanto mais caricato melhor funciona.

Bolsonaro não precisa fazer nada nem dizer coisa alguma. Ele é o símbolo populista, personagem grotesco, que controla o Estado e joga com a inércia da população. Eis o ponto: para destituí-lo não é primordial demonstrar suas transgressões, mas superar a indiferença cúmplice da classe média e o conformismo cético dos pobres. A esquerda e os partidos de oposição não têm diálogo com essa gente, enquanto há uma ligação quase animal entre Bolsonaro e os trogloditas que o seguem – e isto intimida aqueles já condicionados pelos preconceitos pequeno burgueses, empurrando-os ao limbo político favorável ao fascismo.

Um exemplo claro de como o jogo político beneficia Bolsonaro são as eleições dos presidentes da Câmara e do Senado. A oposição, incluindo as esquerdas, perde-se em alianças e acordos com candidatos que são a mesma e única coisa: farelos políticos, prontos para colaborar com Bolsonaro, desde que se ajuste o preço. O jogo é tão favorável a Bolsonaro que nem os seu erros podem prejudicá-lo. Por exemplo, por que apoiar Arthur Lira e não Baleia Rossi? Baleia é muito mais “bolsonarista” do que Lira – que pode cobrar mais, enquanto Baleia é controlado por Temer, já está submetido ao sistema e é dócil ao esquema.

Mesmo comentar esse panorama, ao destacar a queda de popularidade, as eleições no Congresso, as alianças etc., é perda de tempo e desvio do principal; mais do que isso, é jogar o jogo de Bolsonaro. Seria mais produtivo uma análise profunda do quadro político, para determinar como ele se processou e quais suas ligações com as estruturas econômicas de poder real. Também, perceber porque ao capital monopolista interessou ou ainda interessa um “agente” como Bolsonaro. E a partir daí, se formos otimistas, indagar se é possível um diálogo com as representações democráticas do poder econômico e financeiro – se é que existe alguma vontade democrática nesses setores.

Por que a esquerda socialista e democrática já não fala ou abandonou a luta de classes e trata a sociedade como estrutura definitiva que pode ser regenerada com a exclusão de Bolsonaro?

Como já disse aqui, Bolsonaro não é a causa, mas o efeito das contradições do capitalismo refletindo-se na política. No entanto, pelas suas ações, passa a ser causa e provocar efeitos danosos. Esse é o ponto: estamos discutindo os efeitos que Bolsonaro produz sem nos atentarmos para as causas que o gerou. Assim, se nos livramos dele, ignorando a luta contra suas causas, estaremos contribuindo para a “higienização” do sistema que nos explora – e mata milhares de pessoas pelo negacionismo que fez aceitar a pandemia como uma “gripezinha”. Bolsonaro e seu patético ministro general não mataram ninguém por asfixia em Manaus: o assassinato, o genocídio em marcha, é da burguesia que produz tais excrescências.

Por que a esquerda tem medo de dizer o que sabe e faz o que não deve?