Bolsonaro não fez o que seu mestre mandou

Finalmente Bolsonaro entendeu que Olavo de Carvalho tinha razão. Logo que Bolsonaro foi eleito, o guru da direita aconselhou-o a tomar medidas imediatas contra a “esquerda” – o que, na prática, seria impor restrições ao estado de direito e à democracia vigente. Para isso teria de enquadrar as forças armadas, compostas por um “bando de generais cagões”, segundo seu característico linguajar.

Várias vezes, desde 2019, Olavo afirmou que Bolsonaro não teve coragem de peitar os generais. Por isso, enfrenta problemas que seriam eliminados de cara, se dominasse o “meu exército”. Bolsonaro protelou e preferiu aparelhar a máquina burocrática com milhares de oficiais, quase todos incompetentes. Pretendia minar o Estado por dentro, para depois submetê-lo, desconhecendo a resistência automática e tradicional do corporativismo. A trava para dominar o Estado não era, não é e não foi, a esquerda ou a direita, mas a força da inércia instalada no coração do poder. O pêndulo funcional burocrático vai de um lado a outro, mas nunca sai dos seus limites. A não ser que se arrebente a máquina. Foi isto que Olavo de Carvalho recomendou e Bolsonaro não fez.

Quer fazer agora, depois do patético general Pazuello e outras pendengas com o orgulho ferido de alguns generais, “razoavelmente” contidos pelos interesses do velho corporativismo militar colado às novas benesses do governo. A “missão” bolsonarista ficou mais difícil. Porém, se Bolsonaro voltar a ouvir Olavo de Carvalho, que se manifesta principalmente pelos seus “alunos” espalhados nas redes sociais e alguns instalados nos gabinetes presidenciais, poderá limpar o caminho para a sua ditadura, apoiado pelo “meu exército” – que sempre fecha o caminho à esquerda mas abre as avenidas para a direita.

O suporte já está montado; falta apenas azeitá-lo. Bolsonaro tem apoio das baixas patentes do exército, das policiais militares e do baixo clero do Congresso. Basta-lhe romper o lacre, por exemplo, mandando o cabo e o soldado estacionarem frente ao STF (Supremo Tribunal Federal) e encomendar uma greve de camioneiros. Depois, meia dúzia de decretos populistas e concessões entreguistas fazem o resto.

Quem acompanha com olhar crítico a grande imprensa, deve ter percebido nas últimas semanas uma mudança de tom. Essa variação surge com a “recuperação” da economia, cujo PIB cresceu 1% – ou seja, não houve crescimento real no cotejamento com os índices anteriores (em certo sentido é até mesmo negativo), mas possibilita um “argumento” para não se disfarçar mais: o problema da grande burguesia, dona de tudo no país, inclusive dos jornais, volta a ser a “ameaça” de Lula. Semanas atrás ele não era “ameaça”, porque a economia estava mal – e quem sabe com ele poderia melhorar, como em outros tempos. Agora, que há sinais de revitalização, sim, a esquerda volta a ser “ameaça”. Como é indecente demais tratar repentinamente Bolsonaro como um ser racional, os jornais seguem criticando suas “esquisitices”, omitindo aos poucos o seu caráter fascista.

No meio do caminho, porém, há a pandemia. Mas, como os acadêmicos infiltrados na grande mídia dizem, tecnicamente essa mortandade não é genocídio. E tudo passa, todos morrem um dia. Eis uma verdade inquestionável.

Já que esse texto é assumidamente radical, não será exagero verificar quem apoia Bolsonaro, o que revela suas possibilidades e intenções. Na fila da frente, os alienados da classe média, que reclamam dos seus maus modos, mas aceitam tudo, menos o PT. Depois vem o que interessa de fato: gente armada (polícias militares e milícias, clubes de tiro), camioneiros, motoqueiros “ideológicos”, contrabandistas de madeira, grileiros, desmatadores, lobbies da jogatina, enrustidos, misóginos etc. E não menos importantes, porém encobertos, os estamentos do poder econômico para quem a ética é uma frescura de gente desajustada.

Se Bolsonaro der o golpe, não haverá reação. Da mesma forma que, hoje, a imprensa usa o álibi democrático para dar uma no cravo, outra na ferradura, amanhã criticará os “excessos”, para justificar a regra: os de cima, em cima; os de baixo, pau neles.

O amarelão da nossa covardia

Ao tomar a vacina fiquei sabendo que sou de “raça” branca. O sistema de saúde deve ter suas razões para a paleta de cores que aplica aos seres humanos. Eu, pela experiência e pelas informações científicas disponíveis, pensei que era da “raça” humana – que é uma só, segundo diz a ONU e confirma a ciência.

Como o aluno do ensino médio sabe, os grupos humanos se diferem etnicamente pelos aspectos socioculturais. A “raça” define os aspectos biológicos que distinguem os indivíduos. O conceito de “raça” trata das particularidades físicas (ossos, músculos, nervos, pele, cabelo, olhos) e a etnia remete aos valores culturais, como a linguagem, as tradições e os costumes.  

Autoridades já me perguntaram se sou destro ou canhoto, se enxergo bem ou mal. Nunca ficaram curiosas sobre minha classe social. Observei a fila da vacina: estão o pobre e o “remediado” (no meu bairro não existem ricos) e todos são democraticamente indagados: sua raça? A moça, que faz seu trabalho com competência, vê a cor do Merenciano (83 anos, catador de latinhas), mas precisa que ele confirme ser tão preto como carvão. Imagino se, só de sacanagem, ele se proclamasse branco. Ou amarelo. Qual seria a reação da funcionária? No entanto, calmo com seu chinelo de dedo e a camisa rasgada que já teve outros donos, confirmou placidamente: preto – fez uma pausa e corrigiu: negro. A moça não teve curiosidade sobre a roupagem a denunciar a miséria social. A pobreza naturalizou-se Brasil; já a “cor” é um dado que cataloga e coloca cada um no seu nicho e precisa ser destacada – e assim cumpre seu papel “naturalizante”.

O fato é que para o Estado, a cor, ou a “raça”, é importante. No resto dá-se um jeito.

            Mas temos algumas sutilezas. Negro, no Brasil, já foi xingamento. Preto era aquele que quando não fazia na entrada… Um dia, porém, resolvemos ser educados. É com educação e bons modos, quase diria, com etiqueta, que se acomodam os preconceitos. O racismo, em determinado momento, passou a ser incorreto. Mas como não podemos viver sem uma escala de valores, que nos mostre como somos superiores aos demais, resolvemos o impasse pelo uso das palavras. Então, negro e preto passaram a ser afrodescendentes. Os amarelos, asiáticos. (Eis o problema: o nissei é amarelo? Se optarem por asiático não lhe tiram a nacionalidade brasileira?)

            Em outro tempo histórico os agora afrodescendentes, conscientes da sua origem e orgulhosos da sua cultura, exigiram que os chamássemos de negros – preto era ofensivo e usado pelos racistas negativamente. Até que um policial do Tio Sam fez o que sempre as policias fazem: pisou no pescoço de um “black man” e o sufocou até a morte. Revolta no mundo e grande repercussão no Brasil, onde aprendemos que vidas negras importam. E eis a reviravolta semântica: a palavra negro, que denotava orgulho, passa a ser renegada. Vai que a confundem com “niger”, aquela ofensa que os gringos aplicam aos “seus” afrodescendentes. Reabilitamos o preto.

            Há outros problemas. O que fazer com os pardos? Na verdade ninguém jamais viu um sujeito pardo. Pardo era a cor do papel que antigamente embrulhava pão, quando existiam padarias, que foram substituídas pelas panificadoras que servem o café da manhã feito por gente mais escura, para cidadãos mais claros que podem pagar. E as mulatas? Não adianta fingir que elas são gente como a gente. No imaginário brasileiro são fêmeas fogosas, gulosas de sexo; no cotidiano real, empregadas domésticas. Claro, as exceções podem ser jogadas na minha cara: algumas trabalham na Globo.

            Concluo que o perigo de ser vacinado não é virar jacaré. Nem ser abduzido por chips chineses. É confrontar-se com o Estado. E o Estado no seu melhor: o sistema de saúde do SUS, com profissionais corretos e dedicados, alguns arriscando sua vida para salvar a alheia.

Mas no entretempo chegou minha vez. Perguntam-me e respondo: sou branco. Na verdade de um branco tostado de sol e um pouco amarelado. O amarelo é a cor da nossa covardia por não mudarmos esse país.

O bolsonarismo e a sincronização das mentes

Ninguém pode alegar desconhecimento: o coronavírus se combate com isolamento social, máscara e vacina. Então, por que grande parte da população se nega a seguir essas regras básicas, pondo em risco as suas vidas e as de terceiros?

Burrice, preconceito e ideologia não bastam para explicar. As raízes são mais fundas. Mas as pessoas querem resposta rápida. Só que não funciona, embora possa iludir.

A Idade Média sofreu epidemias e pandemias uns quinhentos anos. Em todo o período houve uma representação do medo. No imaginário coletivo as causas das doenças variavam de acordo com a predominância religiosa ou dominação política, raramente ouvindo-se os cientistas (que por sinal pouco sabiam) e sequer o bom senso, que sugeria os melhores cuidados de proteção.

Dessa forma sedimentou-se, ao longo dos séculos, uma mentalidade que reforçou os preconceitos. Se morria gente às pencas, diziam que Deus castigava os ímpios e os pecadores. Se a mortandade continuava, procurava-se um culpado: geralmente os judeus, o bode expiatório sempre disponível. Quando os vírus, as bactérias e os micróbios davam uma folga, diziam que as preces foram atendidas. Afinal, pensava-se que assar judeus nas fogueiras da Inquisição e rezar aos santos era melhor do que exterminar os ratos e higienizar as comunidades.

Mas a partir da segunda metade do século XIX a racionalidade se impôs. Isto é, desenvolveu-se em um nível “superior”, nos espaços sociais negados à plebe: as universidades e as suas torres de marfim. Para o povo ficou o resquício do passado, quando o misterioso dava razão tanto ao ignorante como ao sábio, tanto ao poderoso como ao oprimido.

E agora, no século XXI, quando há congestionamento de satélites em direção a Marte?

Ora, aconteceu a internet.

Os que não tinham voz, porque as ferramentas de comunicação eram caras e exclusivistas, podem falar e ouvir. E falam e ouvem entre si e para os seus iguais, porém, principalmente, de ouças abertas aos espertalhões que perceberam a oportunidade de disseminar mentiras e crendices para obter o domínio sobre corações e mentes. Com o acesso à (des)informação pelo smartphone de mil utilidades, dão preferência ao que podem compreender. E o que conseguem apreender têm séculos de serviço a favor da corrupção do conhecimento científico e alia-se e alinha-se às necessidades de dominação de sistemas baseados na hierarquia de classes. Isto é, vivemos uma nova Idade Média com os recursos da técnica anulando os conhecimentos da ciência que criou a própria tecnologia, expropriada e apropriada tecnicamente pelos sistemas de dominação.

Trocando em miúdos, já que poucos querem investigar as causas e só percebem os efeitos: o imbecil batucando no teclado do smartphone é mais poderoso do que o cientista. A ciência, quase sempre, pede o mais chato: para o fumante com câncer no pulmão, que pare de fumar; para o alcoólatra com cirrose, que deixe de beber. No caso do coronavírus, para ficar em casa, usar máscara e vacinar-se. Ora, assim como o fumante sabe que sem um cigarrinho depois do café a vida não tem sabor, e o alcoólatra que não vê perigo em mais um golinho só, qualquer bolsonaro da vida sabe que se ficar em casa sem trabalhar, cai a “renda”: a máscara sufoca e “prende” o nariz; a vacina dá reação, quando não faz o pior e enfia o chip que os chineses inventaram. Além do mais, só morrem os outros…

Os demagogos manipulam tais burrices com inteligência – não porque são inteligentes, mas porque dominam a técnica para disseminar a ignorância. Dessa forma, as “fake news” são mais acatadas pelos dominados por preconceitos sedimentados secularmente do que a verdade comprovada pela ciência.

No Brasil atual é fácil explicar: os três grandes jornais brasileiros que circulam nacionalmente (Folha, Estado, Globo) não somam 1 milhão de exemplares diariamente. Enquanto isso Bolsonaro tem 40 milhões de seguidores nas redes sociais. Multipliquem suas besteiras espalhadas pelos 40 milhões e temos uma massa de desinformação espetacular. O presidente, boçal como é, tem um poder de convencimento maior que toda a imprensa escrita. Ele é “autêntico”, isto é, com um nível de boçalidade entendível pela massa ignara que, por sinal, espera ouvir algo que “explique” como se posicionar no universo de mentiras que a envolve. Se essa informação for mentirosa ao ponto de “casar-se” com a crença ou a credulidade ou o imaginário do “paciente”, torna-se invencível – só a desgraça pessoal ou a tragédia pode mudar o quadro de alienação. (Ou seja, é preciso uma alienação para curar outra… mas vou parar por aqui.)

É possível, até mesmo, fazer boa parte dos bípedes acreditar que a terra é plana – o que para muitos é uma obviedade ululante.

Assim se cria uma espécie de sincronismo cerebral ou uma sincronização mental (a neurociência explica) que forma uma massa espessa de resistência ao que não é palpável à mente dominada pela insensatez e alimentada pelos preconceitos usados no processo de dominação.

Por isso, vem aí a terceira onda da pandemia, prometendo ser mais letal e deixar sequelas mais duradouras.

Do meio ambiente a Jacarezinho: fatos do Brasil

A oposição se entusiasma com as últimas pesquisas: Bolsonaro em baixa em todos os quesitos. O que não impede os seus seguidores desfilarem em motos, tratores, cavalos e com as patas da burrice embrulhadas na bandeira da pátria amada, Brasil. As pesquisas, como as cartas, não mentem jamais. Os fatos é que viram versão. Ou narrativa, como se diz agora.

            Fato 1 – O estrago está feito. A boiada continua passando. Os boiadeiros sopram o berrante e os donos do gado sorriem, nos seus escritórios climatizados, gozando os capitais, como se dizia antigamente. Bolsonaro perder eleição ou ir pro inferno ou paraíso pouco importa aos senhores da grana. O capitão foi escolhido para fazer o que está fazendo. Morrem milhares na pandemia, milhões estão famintos. E daí?

            Fato 2 – Será muito difícil a qualquer governo, nos próximos vinte, trinta anos, mudar o panorama. Por exemplo, a PL 3.729/2004, aprovada pela Câmara e que o Senado deve confirmar, muda o licenciamento ambiental, possibilitando aos “produtores rurais” e aos prefeitos usarem a água e os recursos naturais como bem entenderem. Podem desmatar as florestas para a abertura de estradas que, na sequência, atravessam terras indígenas e infiltram garimpeiros munidos de mercúrio para o ataque aos rios. Sim, tudo já acontece, mas com a aprovação da PL concebida pela bancada rural o crime será legalizado e permitido.

            Com essa nova Lei de Licenciamento Ambiental os estados e municípios poderão decidir, sem aprovação do poder federal, nem limites constitucionais, o que fazer com seus lençóis de água e suas matas. Será preciso comentar o que isso significa?

            A “velha” legislação ambiental brasileira era das mais perfeitas do mundo. Para ser aprovada foi uma batalha de décadas, de ambientalistas, cientistas e os preocupados com a preservação do planeta. Em menos de dois anos Bolsonaro esculhambou tudo. Desconfio que poucos se importam ou percebem as consequências desse crime.

            Fato 3 – Jacarezinho não é uma tragédia isolada: é mais um episódio “natural” da sociedade excludente, racista e concentradora de renda. Há cinco séculos a turma de cima está matando os de baixo. É a sua paródia de “seleção natural”: a eugenia da teoria do branqueamento sustentada pela sobre-exposição de classes. No escravismo, lugar de negro era a senzala. Alguns escravos fugiam e formavam quilombos. O capitão de mato tinha ajuda das forças imperiais para chacinar aquele povo que lutava pela liberdade. Hoje, pobres e negros estão confinados nas favelas e nos “conjuntos habitacionais” que possibilitam muito lucro às milícias e a empresários oportunistas. Tráfico, pobreza, miséria, fome, deseducação & etc., fazem o resto. As forças da lei, representadas por políticos corruptos e formadas por pobres e negros capitaneados por algum branco que aprendeu a ler, põem ordem na casa. “Ordem na casa” significa “mirar na cabecinha”, o que agrada a visão “popular” de que pobres e negros “favelados” são suspeitos – está aí o vice presidente que deu a dica, ao dizer que a polícia só mata bandido – inclusive as crianças, que se ainda não são criminosas, serão no futuro. O lobo conhece a história do carneiro.

            Fato 4 – Fernando Henrique Cardoso, elegante intelectual de gabinete e ex-presidente da República de boa reputação entre os engravatados de toda espécie (os que citam filósofos e os que contam dinheiro), publicou novo livro, informando que o Brasil naturalizou a pobreza. Não diga! O que é natural não é a naturalização da pobreza, é a forma natural como ex-esquerdistas explicam a miséria do povo: não pela concentração de renda, pelas mazelas do capitalismo nem pela exploração dos trabalhadores ou pela acumulação da riqueza em poucas famílias (inclusive a dele e dos seus filhos casados com herdeiras de banqueiros). É porque vemos com “naturalidade” a empregadinha negra dormir no quarto dos fundos e a criançada pobre ser vítima de “bala perdida”. Cada elite cultural tem o acadêmico que merece.

            Fato 5 – O patético (ou pateta?) Augusto Aras, procurador geral da República, entrou com uma representação na Comissão de Ética da USP, contra Conrado Hübner Mendes, que na Folha teceu críticas à sua submissão ao presidente. Agora é chumbo grosso: qualquer cidadão ou jornalista que criticar ou denunciar a turma bolsonarista será pressionada, pela justiça ou até mesmo dentro das universidades, como bem ensinou a ditadura militar.

            Fato 6 – Bolsonaro armou a boçalidade brasileira: ideológica e materialmente. As facilidades para comprar armas é a ameaça maior à segurança democrática e aos direitos humanos. Só um idiota não entende o caráter e a personalidade de quem necessita se armar. Se for preciso, lembremos que a campanha do desarmamento, que culminou com uma legislação de controle das armas, visando conter a violência, foi luta de anos e, agora, está destruída por uma “canetada”. Este será o maior desafio nas próximas décadas.

            Fato 7 – Qualquer que seja o novo presidente, e Bolsonaro não está descartado, o Brasil não se recuperará do estrago feito nesses dois anos – e eles ainda têm mais o dobro de tempo para se impor. Com o Congresso que temos não será surpresa se voltarmos ainda mais no tempo e adotarmos o voto impresso. O estrago está feito. As consequências nos próximos vinte ou trinta anos serão piores do que a tragédia dessa pandemia. Choramos os mortos e os enterramos. Mas não nos livraremos das sequelas bolsonaristas.

            Fato 8 – A cada novo blog penso não escrever o próximo. Tristeza não tem fim…

Jacarezinho é apenas mais uma etapa da “limpeza”

Nenhuma surpresa: as forças do Estado entram na favela e fazem uma “limpeza”. É a regra usada com frequência. Jacarezinho é mera etapa pontual do extermínio continuado e, por isso, não parece genocídio – como o do presidente armado de cloroquina.

Mas, aos fatos: por que a Polícia Civil do Rio cometeu a matança?

Porque há uma guerra entre as forças de ocupação da antiga capital. Até poucos anos enfrentavam-se os vários comandos do tráfico, na disputa pelo controle dos pontos do jogo do bicho e da distribuição de drogas. Hoje, a briga dos criminosos “evoluiu” para o confronto dos “comandos” com as milícias – e, entre estas, o conflito entre as que “apenas” vendem “proteção” e controlam o mercado imobiliário ilegal e as também ligadas a grupos políticos. Do lado da “lei” as policias civil e militar estão infiltradas por ambas as facções. Eventualmente realizam operações para “limpar a área”, favorecendo um ou outro grupo. As vítimas são pobres e pretos – e nos últimos meses as crianças.

As policias, porém, são órgãos do Estado e do Município, controladas pelos governadores e prefeitos que dependem de alianças com deputados e representantes de poderosos “lobbies” econômicos e financeiros. A corrupção faz o resto.

Há um dado a mais: a presença das milícias na política e sua relação com a família presidencial. Como se lembra, o “arquivo” do esquema de Queirós, Adriano Nóbrega, executado na Bahia, foi homenageado por Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio; e Jair Bolsonaro afirmou que ele era “herói da Polícia Militar”. Traficantes elegem-se em todas as câmaras e as milícias controlam as eleições. Em resumo, “tá tudo dominado”.

Desde o assassinado de Marielle e o vídeo do ex-governador Witzel dançando ao comemorar uma execução e de helicóptero acompanhar as violências policiais (aconselhando a mirar “na cabecinha”) – e apesar das denúncias e dos fatos expostos escancaradamente, a matança continua. Não porque todos são corruptos – a questão é mais funda: é que o Brasil nunca deixou de ser Brasil.

Nossos grandes heróis, em algum momento foram matadores de índios e negros. O maior deles, Caxias, comandou tropas contra quilombos para proteger senhores de engenho das “violências” dos negros. Nunca passou pela cabeça dos pais da pátria que toda violência era, é, fruto do escravismo.

No Império há dois exemplos emblemáticos da covardia do Estado, repercutindo ainda hoje contra os pobres e negros encurralados em seus guetos. Um deles foi a repressão contra os cabanos, em 1835. A Cabanagem, revolta popular e indígena nas províncias amazônicas, foi o único movimento popular em que o povo venceu. Uma vez empossado o governo popular, o Império contratou forças estrangeiras, entregou a Marinha e o Exército a comandantes da Inglaterra, da França e de Portugal, e a partir do cerco a Belém, bombardeada até quase virar pó, partiu para o extermínio, aniquilando “exemplarmente” nações indígenas inteiras.

Outro retrato do Brasil foi o final da Revolução Farroupilha. Para por fim à guerra dos gaúchos, Caxias e Canabarro fizeram um acordo e forjaram a batalha de Porongos, reunindo de um lado as tropas imperiais e rio-grandenses em uma cilada contra um batalhão de negros. A covarde traição livrava os dois lados de cumprir a promessa aos escravos incorporados nas tropas, de que eles teriam alforria e ganhariam terra depois da luta. O batalhão negro foi cercado e chacinado e, assim, os poderosos dos dois lados livraram-se da responsabilidade de lidar com homens livres.

Na República há o trágico episódio de Canudos, cuja brutalidade é bem conhecida. Mas o Brasil “progrediu” em ditaduras e democracias. E sempre, foi um simulacro do que oficialmente dizia ser. Em todos os seus regimes, e principalmente neste, foi e é o país da mentira. Do século XVII aos nossos dias, o comando político nunca mudou, controlado ou comandado pelas elites sociais, militares e econômicas.

As favelas são um resquício da nossa histórica miséria, material e humana. Os núcleos de pobreza chamados eufemisticamente de “comunidades” são usados para concentrar em áreas restritas o que o crime de colarinho branco faz secretamente nos gabinetes milionários.

De vez em quando, a válvula de escape entope. Então, a polícia, que é mais ou menos uma extensão do crime organizado, executa a limpeza de terreno. Um cínico diria que é uma solução geopolítica. Com Bolsonaro e a vitória “filosófica” do bolsonarismo, formalizada pelo general Mourão ao afirmar que os mortos são bandidos, a situação tende a piorar. Ou, na visão autoritária de grande parte da classe média, melhorar. O governador do Rio, por exemplo, é um pastor pentecostal, cantor gospel. Além de fiel cristão bolsonarista.

Pode haver melhor conjugação de fatores para a barbárie?

Tem gente morrendo, tem gente morrendo, tem gente

Qual a característica psicológica mais evidente de Bolsonaro? Como enquadrá-lo psicologicamente para melhor entender sua insensatez?

 Deixemos as investigações da psicologia, etologia, biologia e outras ciências, e fiquemos com a simples definição do Aurélio sobre o instinto: é o “fator inato do comportamento dos animais, variável segundo a espécie, e que se caracteriza, em determinadas condições, por atividades elementares e automáticas”. Também, é a “tendência natural” e “impulso espontâneo e alheio à razão; (…) conjunto de reações instintivas que levam o indivíduo a manter-se vivo”.

Bolsonaro é puro instinto. Nem foi preciso apelar ao doutor Freud para entender que ele é um predador instintivo que, chegando ao poder, está em processo de franca desagregação humana para, instintivamente, “manter-se vivo” – no caso, preservar os espaços conquistados e defender a sua prole, sem sequer chegar ao primarismo tribal.

Acontece que ele é presidente do Brasil e já “cancelou o CPF” de quase meio milhão de pessoas, por enquanto. Mas ele não fez essa matança sozinho, teve a ajuda, cúmplice e velada, daqueles que, com poder de ação, por covardia ou formalismo legal assistem e acompanham a tragédia passivamente, atenuando a má consciência com pronunciamentos inócuos. Claro, não estamos falando dos seus asseclas, mas dos que compõem a chamada sociedade civil e seu complexo burocrático institucional e reagem com firulas constitucionais enquanto a mortandade avança.

Essa gente, com a justificativa de defender a democracia (qual?) afirma que para anular Bolsonaro é preciso respeitar os labirintos da lei e não ferir a “constitucionalidade”. Seria bom lembrar que São Tomás de Aquino afirmou e aconselhou ser justo e necessário eliminar o tirano genocida. No nosso tempo, há quase setenta anos, o poema de Solano Trindade também nos remeteu à urgência de socorrer a vítima e punir o agressor, ao denunciar:

Trem sujo da Leopoldina

            correndo correndo

            parece dizer

            tem gente com fome

            tem gente com fome

            tem gente com fome.

Hoje, além da fome, tem gente morrendo. Entre o morrer de fome, o que é tradicional no Brasil, e morrer de covid, a novidade, sofremos uma espécie de letargia política. Até a década de 1960 a fome nos indignava e motivava uma solidariedade que pretendia mudar o país. Com o golpe de 64 e a propaganda massiva de que é melhor gente com fome do que o “perigo comunista”, a classe média aderiu à “realpolitik” – a solidariedade social diluiu-se no medo de perder o que não tinha. A partir de então, o “sentimento” de humanidade foi se fragilizando até se transformar em escudo tribal/familiar do egoísmo. Uma série de circunstâncias produziram políticas específicas em defesa de privilégios reais ou imaginários e, por fim, chegamos à polarização aparente entre direita e esquerda, com o repúdio ao PT, o golpe contra Dilma e a eleição de Bolsonaro. Esse é um jogo de aparências que esconde as verdadeiras intenções de cada lado e, principalmente, o conteúdo da sobreposição de classes.

Bolsonaro é a pontinha do furúnculo. Quando o carnegão for expulso e o pus sair teremos a resolução (não a solução) do impasse brasileiro: ou toda a sociedade será infectada pelo recheio pútrido e continuaremos nesse “cada um por si” ou teremos uma regeneração social, que revivificará nosso humanismo. Parece simples, mas entre a infecção e a esterilização enfrentaremos um período indefinido de nossa tragédia social – esse processo se dará enquanto o Brasil ainda não é uma nação, mas um país à procura de povo, sob o domínio do Estado opressor.

Enquanto isso, “tem gente morrendo, tem gente morrendo, tem gente morrendo…”

Prepare-se: de Mussolini a Hitler, sempre foi assim

Quando Mussolini aderiu ao fascismo percebeu que a linguagem autoritária, de início, assustaria a classe média educada tradicionalmente. Foi necessário, antes do discurso fascista, criar no imaginário popular um “inimigo da pátria”. Depois, formar grupos de opinião para intimidar os “cidadãos de bem”. Na sequência, usá-los (a militância e os intimidados) como massa de aglutinação ideológica. Na etapa final seduziu os desempregados e os moralistas, denunciando a pobreza e a corrupção. Hitler usou o mesmo método (com a agravante do antissemitismo): reuniu nas cervejarias alemãs os ressentidos e o lumpemproletariado.

Esses dois chefes da direita foram aclamados como mito por seguidores fanáticos e lideraram facções violentas, que se tornaram partidos únicos da ditadura. Com a influência política consolidada partiram para o ataque final: conquistar o coração e a mente da pequeno burguesia “institucional”. Eles sabiam que não se domina o Estado sem o apoio dos “cidadãos de bem” da classe média religiosa e moralizante. Por outro lado, as elites econômicas perceberam que poderiam lucrar com o fascismo e sufocar as reivindicações salariais. Na Itália e na Alemanha os grandes empresários e a mídia financiaram e apoiaram os fascistas e os nazistas.

A classe média nos dois países se empolgou e o fascismo e o nazismo venceram sem dificuldades. A esquerda democrática foi esmagada, seus representantes assassinados ou presos. As consequências são conhecidas.

Por que repetir o que supostamente todos sabem, se não adianta falar, escrever, protestar, pois a degenerescência ética no país é tão estarrecedora que, mesmo que se expurgue a nação do bolsonarismo, quem ficar será engolido pela massa falida?

Um dos motivos da insistência é que vai piorar – se não pudermos evitar o pior, pelo menos tentemos entendê-lo para nos precaver. Hoje, ainda podemos sair às ruas com relativa segurança. Há o risco do ladrão, mas por enquanto não nos ameaça uma tropa de assalto reprimindo as nossas convicções políticas. Em casa nos protegemos com chaves tetra, alarmes, cercas elétricas, concertinas, mas ainda estamos livres de uma “batida” por milícias ideológicas. Ainda.

Mas essa “segurança” pode acabar porque Bolsonaro trabalha para impor uma República Miliciana, como ressaltou Leandro Demori, no Intercept-Brasil. Bolsonaro quis aprovar um decreto que daria direito aos filiados dos clubes de tiro possuir mais armas do que um terrorista da Al Qaeda. A ministra do STF (Supremo Tribunal Federal), Rosa Weber, pôs fim à festa, ao deferir uma liminar suspendendo vários dos seus dispositivos. Se não houvesse a ação da ministra, bastaria alguém se cadastrar em clube de tiro para transportar armas sem nenhuma fiscalização. Além disso, se obtivesse o laudo de um psicólogo, o “cidadão de bem” poderia comprar sessenta armas, inclusive de grosso calibre, e adquirir anualmente cinco mil munições por arma. Um sócio de clube de tiro estaria mais bem armado do que um policial ou militar.

Imaginem o absurdo se o desejo presidencial fosse realizado. Existem mais de setecentos clubes de tiro no Brasil e milhares de atiradores. O risco seria incalculável, em um país que já mata à vontade com as armas roubadas e contrabandeadas, boa parte oriundas do Exército e das polícias militares. Então, teríamos um arsenal enorme à disposição das milícias.

Ao tentar armar seus adeptos Bolsonaro insiste em legalizar o instrumental da violência e ameaça a vida daqueles que não são “cidadãos de bem” – isto é, os que rejeitam o autoritarismo genocida da família presidencial.

Acuado pela CPI da pandemia e investigações sobre seus filhos, Bolsonaro parte para as ameaças. Na semana passada, depois da escandalosa conversa com o bizarro senador Kajuru, o presidente “tuitou”: “Pergunte o que cada um de nós poderá fazer pelo Brasil e sua liberdade e… prepare-se”. Dirigia-se aos seus seguidores e, naturalmente, às milícias existentes e as que ele gostaria de ­formar.

Nunca um político foi tão explícito ao preparar o golpe contra as instituições democráticas. Ele não esconde o desejo de um autogolpe e a cidadania reage passivamente. Bolsonaro joga com a certeza de que, se der um golpe, a chamada sociedade civil continuará com sua cara de paisagem e o Exército o apoiará.

A CPI da covid pode mudar a pasmaceira política: se for séria, Bolsonaro reagirá como de costume e forçará uma solução de força. Se der em pizza, ele sairá mais forte para 2022. Sua força é fraqueza política do sistema que o criou.

Os dias piores já chegaram (e deve piorar)

Console-se (ou conforme-se): dias piores virão.

O Brasil não tem futuro. Nosso presente nos condena ao atraso. Não é pessimismo, nem ceticismo. É a realidade cuspindo fogo. Quem não vê, ou não percebe, sorria: viverá feliz como o idiota fundamental para a “construção” da “nova” sociedade. O novo Brasil já nasceu: está amamentado por um bando imbecilizado que debocha da maioria indiferente.

Historicamente, a elite econômica e social vê no povo mera mão de obra, explorado para enriquecer os privilegiados. Os políticos são a extensão desses aproveitadores. Os militares sua força bruta. Os bacharéis são os guardiões das leis exclusivistas que gerenciam a sobreposição de classes. O “povão” é a massa alienada a macaquear quem está no degrau acima na escala de miserabilidade: não tem educação, nem instrução e, menos ainda, sabedoria popular – os meios de comunicação de massa liquidaram sua resistência cultural. A exclusão social obrigou os pobres a migrarem, perdendo raízes e identidade. A elite intelectual perde-se na condescendência ao interpretar o panorama social e foge da radicalidade como o diabo da cruz. Está “encaixada” no processo dominado econômica e politicamente pela “democracia capitalista”.

A classe média deixou de existir. Dispersa, subdivide-se em nichos de assalariados bem ou mal pagos e ao cultivar o sonho consumista alia-se indefectivelmente ao sistema de dominação. Nela predomina o “espírito” da pequena burguesia, consequência natural da ideologia burguesa. Os críticos acadêmicos convencionalmente abandonaram há uns trinta anos o conceito de burguesia: ninguém mais identifica os exploradores do povo e beneficiários da conformação econômica e jurídica da sociedade como burgueses. Os sociólogos e a imprensa não nomeiam ninguém de burguês. Menos ainda, chama de pequeno burguês o idiota que levou o país ao fundo do poço: aquele alienado que votou em Bolsonaro; muitos deles não se arrependem e pedem uma dose maior de desumanidade.

Junte-se a esse quadro a onipresença militar em toda a nossa história. Se, por interesse das classes dominantes vivemos alguns períodos ditos democráticos, tal exceção só é possível pela anuência dos fardados. Aprendemos a aceitar a tacanhez militar como avalista de qualquer tempo de normalidade institucional, mesmo precária, como a atual. Nascemos e morremos com a convicção de que se os militares quiserem impõem qualquer ditadura. Não achamos estranho.

O que fazer? – Console-se (ou conforme-se): dias piores virão.

Bolsonaro não é o mal em si: é a sua face visível, anunciando que as coisas devem piorar e, quanto pior, boa parte da população achará melhor, desde que tenha seus preconceitos e medos acalentados – se não assumirmos que a “massa” foi idiotizada pelos meios de comunicação, viveremos na vã esperança de ser possível recuperar espaços de liberdade pela ação de alienados políticos, sensíveis aos apelos fascistas que defendem a “moral e os bons costumes”. Temos inúmeros exemplos. Os erros de Bolsonaro foram/são aclamados pela população alienada e empresários brutalizados: ele foi eleito elogiando torturadores e ditadores; permanece no poder com uma política genocida e, sempre, promete aumentar suas sandices.

No Brasil os escravocratas estão no panteão da pátria como heróis. Militares que se transformaram em policiais do sistema para sufocar as rebeliões populares e massacrar índios e negros foram promovidos a heróis. Os oficiais que torturam e assassinaram na ditadura militar estão impunes. E a grande imprensa ainda trata os militares como “guardiães da democracia”, sob Bolsonaro. Democracia sob Bolsonaro: o contrassenso nem chega a ser uma contradição em termos…

Não chegamos à situação atual por acaso. Fizemos por merecer. No Brasil não se estranha que o presidente governe com uma “família presidencial”: três filhos aprontando e um quarto, o “garoto” que pede dinheiro aos empresários, “ameaçando” a qualquer momento entrar para o núcleo do governo. Não falta povo para votar essa gente. Aliás, ninguém se responsabiliza pelo seu voto.

Não temos futuro e voltamos ao passado mais sórdido: antigamente os genocidas matavam índios, negros e estrangeiros, nas guerras imperialistas. Hoje, menosprezam a morte de milhares e parecem abençoar a pandemia: mesmo o covid-19 “trabalha” pelo boçal na presidência – enquanto perdurar a mortandade causada pela política genocida de Bolsonaro os poucos que poderiam se opor não saem às ruas.

Dilema: conformar-se para se consolar na ilusão de melhores dias. Enquanto isso, os piores dias já chegaram. É a vanguarda do atraso engolindo o futuro que nunca passou de quimera.

Ao acordar do pesadelo qual será a realidade?

Mais produtivo do que discutir as consequências imediatas da troca de ministros por Bolsonaro, será estudar o que virá depois que o capitão for defenestrado (pelo voto popular em 2022 ou por uma medida sanitária a qualquer momento). No entanto, se apesar de tudo ele permanecer na presidência, com autogolpe ou reeleição, só um tango argentino…

Suponhamos que em 2022 ele será derrotado. O que nos deixará? O pior não é, como muitos temem, um país dividido e convulsionado, mas as instituições contaminadas pelo autoritarismo e incompetência. Será difícil consertar o desastre na Educação, Saúde e Economia, para não falar da tragédia ambiental. O novo presidente poderá se livrar dos principais agentes do bolsonarismo lotados no primeiro escalão dos ministérios. Mas quais as reações quando começar a higienizar o segundo escalão, onde se processa a burocracia administrativa, e demitir os quase sete mil militares infiltrados em todas as frinchas do poder? Por uma ironia da história o futuro presidente deverá lidar com um novo entulho autoritário, como aquele que a ditadura deixou em 1985.

O estrago feito por Bolsonaro é profundo. A sua boiada não só passou como estourou. Antigamente os literatos descreviam o “estouro da boiada” para demonstrar a força incontrolável do rebanho desembestado, como metáfora da insensatez humana. Euclides da Cunha narra que a boiada segue “vagarosamente, à cadência daquele canto triste e preguiçoso”. De repente, por um motivo trivial os bois “estouram” e arrasam tudo: “(…) não há mais contê-los ou alcançá-los. (…) milhares de corpos que são um corpo único, monstruoso, informe, indescritível, de animal fantástico, precipitado na carreira doida”. No rastro da boiada enlouquecida sobram desolação e destroços.

A analogia não serve apenas para o ministro Ricardo Sales: é uma imagem que denuncia todo o governo. Essa boiada espezinhou as instituições e, mais do que isso, modificou as relações burocráticas e técnicas com o sistema legal. Não por acaso, e só como exemplo, advogados de garimpos ilegais e desmatadores foram indicados para cargos no Ibama, no Inpe e no Incra. Enquanto a grande imprensa preocupa-se com as barbaridades ministeriais e do presidente, essas “formiguinhas” fascistas introduzidas na máquina administrativa minam as estruturas técnicas de vários setores.

Se derrotado Bolsonaro vai se esgoelar e insuflar a malta olavista para o ataque. Mas não é esse o perigo maior que ameaça a democracia e sim, o enfraquecimento político institucional ocorrido no seu governo. Para demonstrar nossa fragilidade democrática basta lembrar que a defesa da democracia depende do centrão, que também é a base de apoio do presidente. Para apoiá-lo o centrão quer sempre mais e Bolsonaro dá, e assim sabota a ação na defesa da democracia de quem hipoteticamente garante a ordem jurídica que o impede de loucuras políticas. Dessa forma, enquanto demite o maluco do Itamarati, atendendo ao centrão, mantém Ricardo Sales no Meio Ambiente e tira do governo o ministro da Defesa, o general que se recusou a fazer o seu jogo, com a indiferença do mesmo centrão.

Resumindo, é menos produtivo discutir se nos próximos dias ou semanas Bolsonaro deve extrapolar ou se conter, do que investigar o quanto a funcionalidade das instituições foi enfraquecida pela horda de fanáticos que o presidente nomeou fartamente – só militares são cerca de sete mil. Algo nunca visto no Brasil, sequer nos tempos da ditadura que, por sinal, durou 21 anos. Bolsonaro precisou de menos de dois anos para aparelhar o Estado com seus seguidores.

            No jogo de aparências da política brasileira os militares da ativa parecem “aborrecidos” com Bolsonaro. Será que estão “de mal”? O significado dessa rusga, por enquanto, é pura especulação. Mas, assim que o ciclo do besteirol político fundado pelo bolsonarismo for expurgado, aí sim, veremos o tamanho da tragédia. Então, cairemos na realidade.

Um país bárbaro governado pelos mais brutais

Carnaval em Marselha (França); pancadões em São Paulo; bonde da covid na Central do Brasil e no metrô do Rio. Como se explica?

Mais que normal, é natural. Admirável seria se as pessoas respeitassem a ciência e quem preza a vida. As sociedades atuais usam uma camada de verniz para encobrir a sua verdadeira natureza. Nos países atrasados e em processo de decadência, como o Brasil, os resultados são mais dramáticos, porque o Estado é cúmplice do desatino. As mortes por falta de oxigênio em Manaus, porém, foram rapidamente absorvidas: o presidente genocida não foi responsabilizado e o general incompetente sai ileso.

Somos um país de ignorantes, dominado por uma quadrilha de milicianos guiados pela ideia oportunista de patriotismo e religiosidade. Nos últimos cem anos tivemos lampejos de progresso, rapidamente contidos pelas elites sociais mais perversas do planeta. O egocentrismo e o obscurantismo, mais que a educação e a economia, produziram uma classe média idiotizada. O cinismo oriundo do patriotismo e a hipocrisia própria da religião aliaram-se à mesquinharia de uma pequena burguesia que agarra as migalhas que lhes são concedidas, sem a mínima solidariedade humana. Alie-se a esse quadro a herança escravocrata e temos o tempero da dominação: o racismo, a homofobia, a misoginia, que na prática se expressam no assassinato dos “diferentes” que incomodam os preconceitos; é necessário eliminá-los para não “contaminar” a mediocridade que perpetua o sistema.

O socialismo já não é sequer a esperança. O velho conceito de “socialismo ou barbárie” não tem mais sentido no Brasil. Somos bárbaros e a barbárie está sendo administrada pelos mais rudes. Não há solução à vista: tirar Bolsonaro, eleger outro qualquer, mesmo que seja o oposto disso tudo, é inócuo: a civilização brasileira perdeu o verniz dissimulador aos olhos do mundo e dos brasileiros mais lúcidos, rejeita e rejeitará qualquer política que mude hábitos e costumes determinados pela junção da ignorância com o egoísmo. Quando muito, aceitará uma nova camada de tinta por cima da violenta sociedade que criamos.

Só há um caminho: educação. Porém, o bolsonarismo, que é boçal e primitivo, ou talvez por isso mesmo, percebeu que é preciso corromper o ensino e promover a ideologização das escolas – fazendo o que acusa os “comunistas” de terem feito. O processo de decadência educacional está sendo“aperfeiçoado” por um método eficaz de contagiar a grade curricular com o negacionismo. Metodicamente o conhecimento científico e o saber são abalados pelas crenças reacionárias, que se afirmam em nome da moral e dos bons costumes das “pessoas de bem”.

Essa é uma forma de dominação que, sutilmente, estimula na prática a “liberalidade” comportamental como válvula de escape para que a pobreza não exploda. Nas artes ditas populares, no conjunto de entretenimento jogado às massas, do Big Brother às redes sociais, do sertanejo universitário ao funk, tudo forma uma avalanche ideológica que aliena a população. Aglomerações e pancadões atuam paradoxalmente como força auxiliar do bolsonarismo que promove a “moralidade” pelas igrejas pentecostais. Por outro lado, consuma-se a identificação ideológica que confunde e deturpa as conquistas fundamentais, como as liberdades de expressão e a de “ir e vir” e, certamente, demoniza os direitos humanos autênticos.

Nesse quadro as denúncias contra a política genocida do governo tornam-se crime para o Estado aparelhado pela idiotia; a atual “liberdade de expressão” justifica o “direito” de difamar e mentir, com um presidente mentiroso que, pego em flagrante, debocha ou diz que não disse o disse. Não há indignação popular contra isso.

Devemos reconsiderar o “um terço” que, segundo as pesquisas, apoia Bolsonaro. Na verdade, pelo comportamento do povo, dois terços dos brasileiros praticam o que o capitão indica: não usam máscaras, fazem aglomerações, consomem o pior da cultura brega, rejeitam a democracia e acreditam em salvação mágica para vencer a epidemia. No imaginário popular ninguém (isto é, aquele que age irresponsavelmente) morre de covid-19. A gripezinha mata os outros. É isso que está internalizado até em populações que morrem mais do que sua capacidade de sepultar. Como em Manaus, onde o povo saiu em passeata para ter o “direito de ir e vir” (isto é, aglomerar-se) e não usar máscara. O que deixa claro: as ideias de Bolsonaro não só ganharam as massas, mas são fortes porque foram assimiladas por ele das massas.

Outro ponto a considerar: a imprensa de qualidade não representa nem reflete o povo. É o megafone da pequena elite intelectualizada desligada do resto da nação ou porta-voz de grupos corporativos. Tradução final: estamos destinados ao fracasso. Engana-se quem pensa que Bolsonaro é o fundo do poço: o país todo está dominado, do Congresso às câmaras municipais cumprimos nossa tradição – por mais que o Brasil se degenere, prevalece a política da conciliação: o sistema absorve ou expele picaretas, de Collor a Bolsonaro, para que tudo permaneça como está.

No Brasil os poderosos se aproveitam e os historiadores são engolidos pela história. Os meios de comunicação se incumbem do “veja bem”… Precisamos de uma nova história e de uma nova sociologia para explicar nosso fracasso. As ciências sociais avançaram nas questões de gênero e racismo, mas não penetraram no conteúdo das suas origens. Por isso, Bolsonaro é tratado como um “fenômeno” desligado das nossas raízes de violência.