Leitura paralela para a pós-pandemia

“A pandemia é um dos cavaleiros do apocalipse. O anticristo domina o mundo. Cientistas arrogantes dizem que a vacina salva, mas de que serve a salvação da carne se a alma está condenada ao inferno?” – pergunta o homem crédulo que tem todas as respostas.  

Na internet o site não deixa a por menos: “As catástrofes ao redor do mundo estão mais severas. O noticiário está cheio de histórias de pragas, terremotos, enchentes e secas. (…) Quando o Senhor nos levará para o reino celestial?” – indaga o guardião do “Evangelho da Descida do Reino”, braço da “Igreja de Deus Todo Poderoso”, que da China espalhou-se pelo planeta. Pastores de várias seitas e denominações repetem a dose nos púlpitos, no rádio e na televisão. A lavagem cerebral das massas vulneráveis tem mais de meio século e produziu uma visão do mundo forjada no medo e nos preconceitos, receptiva à “palavra do senhor” – saída da boca de pregadores semianalfabetos. Eles alertam os fiéis contra os descrentes e ameaçam: “Quem negar a palavra de Cristo morrerá”. Gritam que os dias estão cumpridos, o Apocalipse soltou sua cavalaria. Resta esperar ser arrebanhado para o céu – nada de vacina e atitudes mundanas, apegue-se à Bíblia, irmão, e estará salvo.

Quem me lê, pelo simples fato de ter o hábito de ler (e certamente por não morar em um bairro como o meu), talvez nunca conviveu e “trocou ideias” com os crentes, gente boa e ordeira, que só quer o bem de todos, auxilia-se mutuamente e pensa que o mal do mundo é o Demônio. Não pensem que eles estão apenas nas seitas pentecostais. Boa parte dos católicos “comungam” as mesmas “teorias”. São diferentes no estilo de vida. No fundamental temem a Deus e ao Diabo, morrem de medo do comunismo e não entendem como alguém possa ser ateu. Votam, votaram e votarão tanto no Lula como no Bolsonaro. Aliás, elegeram um e outro: sem o “voto evangélico” nenhum dos dois seria eleito. Aceitam e aceitarão ambos, dependendo dos conchavos dos seus pastores e bispos, padres e cardeais.

Só despertam quando já é tarde. Em Manaus, antes da tragédia que ainda vivem e cujas consequências sofrerão por longo tempo, saíram às ruas inspirados pelo presidente irresponsável, exigindo a abertura do comércio e o fim das restrições da quarentena. Não pediam vacina nem oxigênio; desprezaram os cientistas e desconhecem a ciência. Queriam trabalhar e não acreditavam que os pesquisadores ofereceriam alguma solução. “Se Deus está conosco, quem estará contra nós?” – e repetiam as sandices de Bolsonaro: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Não é por acaso que os pilantras misturam religião e política.

Guardadas as exceções costumeiras, o Brasil surfou nessa onda. Só uma minoria na imprensa ouviu os cientistas. Políticos e autoridades sempre optaram pelo “bom senso” que camufla a desumanidade e execraram os jornalistas, mentindo e caluniando. Dos vereadores do mais fundo grotão aos gabinetes luxuosos, incluindo a casta de privilegiados de toga e farda, da juíza idiota ao ministro empolado e ao general idiotizado pela caserna, do demagogo engomadinho ao populista desbocado, todos agiram com o oportunismo do momento.

Enfim, os representantes do povo “representaram” o brasileiro comum, que não quer saber de máscara nem de quarentena. Que só sai da embriaguez alienante quando a morte crava as unhas. Então, é tarde. Mas os profetas da ignorância aproveitam o atraso: o Senhor arrebatará os justos para o seu reino. Claro, o reino deles, da empulhação que explora os “filhos de Deus”.

 Não falemos da Argentina e sua tradição de rebeldia social; nem do Uruguai, uma nação que cresceu na adversidade e construiu barreiras contra a brutalidade política; nem do Chile, cuja experiência com a barbárie não permite sua volta. Lembremos o Paraguai, o Equador, o Peru. Nesses países a cultura popular sobreviveu à selvageria colonizadora do invasor e criou defesas contra a violência estrutural do colonialismo. Paraguaios, equatorianos e peruanos conservaram suas línguas maternas – o guarani, o quéchua, o aimará, por exemplo, são núcleos de resistência comunitária, grupal e familiar contra a opressão da elite política e econômica. Esses povos, há mais de cinquenta anos, elegem deputados, senadores e até presidentes indígenas. No Brasil, ao contrário, a derrota do povo foi completa: exterminamos os índios, hoje praticamente sem peso demográfico, e relutamos em reconhecer os negros como cidadãos – se fosse pouca tragédia, uma mídia a serviço das multinacionais do entretenimento ocupa-se em sufocar as manifestações culturais e artísticas que ainda resistem.

Por isso essa política brasileira pendular: da ditadura militar passamos à Constituição de 1988; do petismo caímos no bolsonarismo – e agora, com uma população descaracterizada, desorientada e amorfa politicamente, emerge uma forma de curandeirismo político opondo-se à ciência e à racionalidade, apelativa no sentido mais baixo do populismo. Isto será o rescaldo da pandemia. Quem convive com o povo, povo mesmo, a “categoria” de semianalfabetos vítimas de medos e preconceitos, percebe que não há perspectiva do Brasil livrar-se dessa política oscilante, entre o atraso e a esperança falhada. O povão não quer saber de sapiência e menos ainda de ciência. Ele crê. Tem certeza. Um dia, o povo sabe, Jesus nos arrebatará para o seu Reino. Enquanto isso…

De Saramago a Bolsonaro: lição de causa e efeito

Já que pouco, no meu caso nada, podemos fazer para conter Bolsonaro, o que fazer? Pelo menos estudar o “fenômeno”. Com certo afastamento brechetiano da realidade aparente para nos aprofundarmos na sua essência. Isto é, ir às causas para entender os efeitos.

Na falta do filósofo podemos apelar ao romancista, tal o Saramago. Na sua escrita ele navega pela história, um olho na filosofia; não há efeito sem causa. Foi o que deduziu do cerco de Lisboa, em 1147. Quase mil anos depois dos fatos, a ferramenta usada por Saramago para desvendar as relações entre os cruzados e os portugueses é fundamental para entendermos Bolsonaro. Na “História do Cerco de Lisboa”, se os cruzados ajudaram ou não o rei, é pretexto para o uso da palavra “não” – sua ausência ou interpolação servem ao discurso para uso conveniente de uns e outros, mas não mudam a história; porém, explicam os temores e amores da natureza humana.

Para o romancista, “(…) nunca se viu um efeito que não tivesse sua causa e que toda a causa, seja por predestinação ou simples ação mecânica, ocasionou e ocasionará efeitos, os quais, ponto importante, se produzem instantaneamente, ainda que o trânsito da causa ao efeito tenha escapado à percepção do observador ou só muito tempo depois venha a ser aproximadamente reconstituído. (…) todas as causas hoje visíveis e reconhecíveis já produziram os seus efeitos, não tendo nós senão esperar que eles se manifestem, e também, que todos os efeitos, manifestados ou por manifestar, têm suas inelutáveis causalidades, embora as múltiplas insuficiências de que padecemos nos tenham impedido de identificá-las em termos de com eles fazer a respectiva relação, nem sempre linear, agora como toda a gente, e antes que tão trabalhosos raciocínios nos empurrem para problemas mais árduos, como a prova pela contingência do mundo de Leibniz ou a prova cosmológica de Kant, com o que nos encontraríamos a perguntar a Deus se existe realmente ou se tem andado a confundir-nos com vaguidades indignas de um ser superior que tudo deveria fazer e dizer muito pelo claro (…)”.

Nesse ponto a Saramago basta saber, sem concordar com a conclusão do filósofo ardiloso, que “tudo o que existe tem uma explicação a sua existência”. Pois, o cerco de Lisboa estava armado e se os cruzados queriam o botim dos árabes ou expandir a gloria de Cristo, não modificou a história. Entendamos praticamente: “todas as causas hoje visíveis” já produziram seus efeitos – em Manaus, a morte por asfixia provocada pela falta de oxigênio nos hospitais é fruto da política genocida de Bolsonaro na pandemia.

Se a causa já produziu trágicos efeitos, o que fazer? Esperar que os políticos combatam o caos? Ir às ruas? Bater panelas? Escrever um texto que ninguém lerá?

O “efeito Bolsonaro” originou-se de tantas causas entranhadas na sociedade que é urgente, conhecidas suas consequências, investigar as próprias causas do efeito Bolsonaro – efeito que, por sua permanência, se transforma em causas de tantos desmantelos. Isto é, Bolsonaro tanto é causa como efeito. Se recuarmos ao núcleo dos destrambelhos políticos que acometeram o Brasil, identificaremos a causa que produziu efeitos cujo mais danoso produto, hoje e agora, é Bolsonaro. Isto é, não basta espremer o furúnculo, é necessário conhecer as causas da infecção para aplicar o antídoto eficiente.

Voltemos ao romance de Saramago:

“Enfim, viver não é apenas difícil, é quase impossível, mormente naqueles casos em que, não estando a causa à vista, nos esteja interpelando o efeito, se ainda esse nome lhe basta, reclamando que o expliquemos em seus fundamentos e origens, e também como causa que por sua vez já começou a ser, porquanto, como ninguém ignora, em toda essa contradança, a nós é que compete encontrar sentidos e definições, quando o que nos apeteceria seria fechar sossegadamente os olhos e deixar correr um mundo que muito mais nos vem governando do que se deixa, ele, governar.”

O proposital arremedo do estilo medieval é irônico e mostra-nos a impotência diante do absurdo da estupidez humana, que Einstein dizia ser infinita. E como é possível o efeito se confundir com a causa. Porém, um poema de Brecht nos inspira ao recomeço:

Tudo muda.

Mas podemos começar de novo,

com o último alento.

O que acontece, porém, está feito:

                        a água posta no vinho

                        não podemos mais separar.

Mas tudo muda:

                        com o último alento

                        podemos de novo

                        começar.

Quando viver é quase impossível, “a nós compete encontrar sentidos e definições”. Sempre haverá um último alento. Esse último alento é a política, embora seu acanalhamento pela quadrilha que tomou o poder. Para que a ação política tenha força é preciso, antes, ter consciência social e humana. No Brasil chegamos ao ponto que até certo maniqueísmo – ente causa e efeito, por exemplo – é desejável para identificarmos a fonte do mal. Se passarmos do tempo de reagir estaremos sujeitos à estupidez humana – e não só de um grupo de idiotas, mas da própria inércia diante da violência como forma de governo.

O que o fim da Ford sinaliza?

Além das exterioridades, o que o fechamento das fábricas da Ford indica?

Se a atual esquerda tivesse lido as velhas cartilhas socialistas, pelo menos saberia o que são bens de capital e bens de consumo – com as interligações entre eles e seus fatores diretos e indiretos na economia. E especificamente na vida dos trabalhadores.

Mas não há velhas cartilhas e a esquerda oficial tornou-se a flor de plástico do sistema para enfeitar a democracia burguesa. O que sobram são economistas a “explicarem” as formas da crise econômica pelo reverso da realidade, ignorando seus conteúdos. São eles, portanto, que dirão as bobagens sobre a retirada da Ford – e suas análises serão aceitas sem uma crítica objetiva, apenas factual.

Muitos analistas veem no fim das atividades da Ford uma estratégia global da empresa etc. Já disseram essa bobagem sobre a Volkswagen, a Mercedes e tantas indústrias de vários setores. Da mesma forma afirmaram que a falência e a “fusão” de bancos refletiram um “enxugamento” do mercado. E por aí foram, até que chegamos… a Paulo Guedes.

Do pau-brasil ao agronegócio o Brasil foi do escravismo à exploração da massa trabalhadora, com raros clarões progressistas. Nunca passamos de fornecedor de matéria prima e mão de obra barata. Nosso consumo mede-se pela grande população e não pela qualidade e valor do que necessitamos, compramos e vendemos. Por isso, produzimos mais bens de consumo, a maioria desatualizados tecnologicamente. Raros são os bens de produção, que são usados para o fabrico dos outros bens, sejam os de consumo ou os intermediários, aqueles usados para os produtos finais (os tais insumos). Sem fabricarmos máquinas nem equipamentos para as fábricas que produzem os bens de consumo, não passamos de importadores de técnicas e tecnologia das economias centrais. Assim, não fabricamos automóveis, apenas “montamos” – quase sempre usando equipamentos e modelos defasados nos seus países de origem. Dessa forma eles se livram de máquinas obsoletas e produtos rejeitados pelos seus consumidores de “primeiro mundo”.

Mas essa é outra história, velha e desprezada. Nem o efeito cascata da retirada da Ford, provocando uma onda de desemprego que afeta milhares de trabalhadores e empresários – tanto os fornecedores de matéria prima como as concessionárias – e, também, os proprietários de veículos que se desvalorizam e perdem manutenção, nada disso é tão importante quanto a sinalização do fracasso da “economia liberal”.

No Brasil são os economistas no e do governo que detonam a economia. Se os donos do dinheiro fossem mais argutos ligariam seus alertas. O que se processa atualmente é perda de controle da economia, que será sentida em alguns meses. Não se trata apenas da incompetência de Paulo Guedes, mas de uma situação complexa que termina em Bolsonaro. Ele, e o “liberalismo” do Posto Ipiranga, foram escolhidos pela elite financeira para “salvar” o Brasil (isto é, o capital monopolista). Deu errado. Porém, como o ministro não sabe o que fazer com a economia, os financistas não sabem se livrar dele nem de Bolsonaro.

Como estamos no Brasil, isso se resolverá “naturalmente”, com eleições em 2022 ou um improvável impeachment a qualquer momento. E nem se descarta uma possível tutela do capital financeiro no governo para tentar mudar o jogo.

Enquanto isso há eleições para as presidências da Câmara e do Senado. O PT, principal partido da “esquerda reconhecida”, apoia Baleia Rossi na Câmara – que votou pelo impeachment de Dilma e é filho do braço direito de Temer nas peripécias do porto de Santos; e apoiará o candidato de Bolsonaro no Senado, talvez pensando em facilitar a vida de Lula e seus embates com a Lava Jato.

Voltando à Ford, e o chão da fábrica?

Não há mais chão da fábrica: o grande sucesso do liberalismo político e econômico foi estrangular os sindicatos e cortar direitos trabalhistas, de tal forma que os operários mais qualificados perderam a consciência de classe. A maioria deles se transformará em “empreendedores”, outros comprarão uma motocicleta para entregarem pizzas. Os mais sortudos comporão o exército de micro empresários, que terão mínimos ganhos, mas que somados, enquanto enganam a penúria familiar engordarão os lucros dos bancos e alimentarão com impostos a espoliação política.

Surgirá um novo lumpesinato no Brasil, porta aberta para um “governo forte”.

O golpe de estado de Bolsonaro está em curso

Ontem (6-1) houve a invasão do Capitólio, em Washington, na tentativa de impedira confirmação de Biden como presidente dos Estados Unidos. Seria uma antecipação do que Bolsonaro poderá fazer se perder as eleições de 2022? É mais objetivo deixar de futurologia e observar que o golpe bolsonarista já está em curso.

1– Na terça-feira Bolsonaro disse que “o Brasil está quebrado e eu não consigo fazer nada. Eu queria mexer na tabela do Imposto de Renda, teve esse vírus, potencializado por essa mídia que nós temos”. É o primeiro presidente a decretar a falência do país e pôr a culpa da pandemia na imprensa.

A juíza Ludmila Lins Grilo, da vara Criminal e da Infância e da Juventude, de Unaí (MG), incentivou nas redes sociais as aglomerações nas festas de fim de ano. Depois divulgou um vídeo ensinando a burlar o uso de máscaras nos shoppings: “1- compre um sorvete; 2-pendure a máscara no pescoço ou na orelha para afetar elevação moral; 3- caminhe naturalmente”. Ainda debochou dos cientistas e dos que lamentam as quase 200 mil mortes pelo covid-19: “O vírus não gosta de sorvete”.

No final do ano o juiz Rodrigo de Azevedo Costa, ao ouvir uma vítima de violência doméstica debochou da lei Maria da Penha e afirmou que “ninguém apanha de graça”. Aconteceram episódios vergonhosos patrocinados por juízes e juízas e até o STJ (Supremo Tribunal de Justiça), às vésperas do Natal, pediu à Fiocruz prioridade para vacinar seus servidores e também os do CNJ (Conselho Nacional de Justiça). A Fiocruz negou o privilégio.

 O ano terminou com o feminicídio disputando com o racismo quem mata mais – a violência machista ou o preconceito que dirige balas perdidas nas cabeças de adolescentes e crianças negras. Como prenúncio do futuro houve a indicação para o Supremo Tribunal Federal de Kassio Nunes, plagiador e doutor de fancaria, que estreou obediente a Bolsonaro, “afrouxando” a lei da ficha limpa.

O veneno final é o negacionismo que se espalha pela população, cada vez mais desconfiada da ciência e adepta das teorias da conspiração.

Aos ligarmos os fatos percebemos que o Brasil está pronto para aceitar a violência institucional, anunciada desde que Bolsonaro tomou posse. Como enfrentar a vanguarda do atraso que nos empurra às trevas da estupidez?

2– Uma lição histórica: quando o estado de direito e a democracia estão ameaçados por extremismos que tentam conquistar o Estado, não se tem sucesso na luta contra a ideologia e a boçalidade política dos seus personagens se não entendermos a sua tática. O modo mais eficaz para enfrentar o autoritarismo é conhecê-lo taticamente e entender sua técnica. Manifestações que saem do lodo para a luz (como as da juíza), o negacionismo, os preconceitos e os pronunciamentos bizarros de Bolsonaro camuflam as técnicas do golpe em marcha.

3– Passou o tempo das revoluções clássicas, com as massas contrapondo-se à exploração. Os golpes militares com soldados nas ruas, como em 1964 no Brasil, em 1966 e 1973 na Argentina e em 1976 no Chile, serão cada vez menos eficientes – ficarão restritos a países periféricos, que ainda não consolidaram o Estado, como alguns na África, no Leste Europeu e no Oriente Médio.

Atualmente a ascensão autoritária ao poder, dominando o aparato estatal, só será possível de duas formas: a legalização da violência política pelo Congresso ou a organização de milícias que podem se transformar em tropas de assalto.

Intuitivamente ou não, Bolsonaro percebeu e “trabalha” essas duas formas para conquistar e manter-se no poder. Unindo-se ao centrão obteve tranquilidade para suas traquinagens – algumas, assassinas, como sua “política” para a pandemia. Essa aliança com o centrão e a manipulação populista da minoria de fanatizados é visível e fácil de entender. Mas o uso das milícias é mais perigoso.

As milícias cariocas ligadas ao tráfico e à venda de proteção, especulação imobiliária nos bairros da classe média baixa e controle das favelas como base militarizada do crime organizado e base eleitoral, formam a estrutura de um núcleo político que pode ser usado como tropa de assalto. Bolsonaro já encontrou meio caminho andado.

A capacitação política das milícias está em desenvolvimento e tem pontos importantes que se fortalecem legalmente, usando a legalidade parlamentar para dar segurança ao golpe em curso: mesmo sem necessitar, traficantes elegem vereadores e deputados, como a filha de Fernandinho Beira Mar.

Com apoio de congressistas, indiferença ou anuência do Judiciário, o presidente manipula leis e regras que viabilizam armar os milicianos. O armamentismo de Bolsonaro não visa dar armas aos cidadãos, mas “transferi-las” e facilitar a militarização das milícias, que já dominam praticamente o Rio de Janeiro e avançam em São Paulo. O processo usa menos a polarização e mais a indiferença popular e conta com o apoio da religiosidade, representada na tradição brasileira do “deus, pátria e família”. Esses elementos bastam: a apatia das massas diante da violência política beneficia o golpe.

4– A grande lição de como dar um golpe de estado é de Trotsky, que com menos de mil homens paralisou o governo russo e sem dar um tiro pôs os bolcheviques no poder, para espanto até de Lenine. Trotsky valeu-se da desarticulação do Estado, da letargia da massa religiosa e da vontade férrea dos revolucionários – a Revolução aconteceu depois, ao vencer os exércitos brancos que ameaçavam a existência do Estado comunista. Estranhamente, ou nem tanto, Mussolini aprendeu de Trotsky e com pequenas variantes, que incluíram a violência inerente ao fascismo, repetiu a dose na Itália, em 1922. Nem Trotsky, nem Mussolini, precisaram do exército: a história ensina que generais traem, à esquerda e à direita. Parece heresia comparar Bolsonaro a estes líderes, mas se justifica pela grande vantagem dele sobre os dois: já tem o comando dos postos chaves da República. E está no Brasil, onde a política não tem substância ideológica e moral.

Concluindo: Bolsonaro, que fala uma besteira atrás da outra e comete uma burrice por minuto, inconsciente ou de forma grotescamente planejada, está dando um golpe de estado ao aproveitar e estimular a desordem brasileira. Nem as milhares de mortes na pandemia sensibilizam ou despertam a consciência popular para resistir; pelo contrário, são muletas políticas usadas por membros do Judiciário e políticos para o desacato à Constituição e ao que resta dos direitos humanos.

O detalhe mais sórdido: para o golpe parlamentar não é preciso que a direita eleja deputados e senadores reacionários e venais. Basta usar o que existe: foi assim o impeachment de Dilma. A trágica comédia é a passividade que a esquerda demonstra diante do assalto bolsonarista – aceita escolher entre Baleia Rossi e Arthur Lira para a presidência da Câmara. A tradução disso é que o Congresso é impotente e dócil a qualquer golpe, mesmo quando Rodrigo Maia alfineta o presidente. Não passa disso: alfinetadas, para no fim, cobrar mais caro.

No Brasil, quando tudo parece perdido, o improvável muda a situação. Estamos reduzidos a esperar o acaso?

Bolsonaro: a boçalidade do meio como fim

Pode o boçal ser sutil? Um olhar diferente sobre Bolsonaro sugere que sim; a sutileza manifesta-se no encobrimento dos fins pela boçalidade. Bolsonaro não é um ser moral, não tem subjetividade. Tudo nele é claro e definido, expressando-se de forma crua e brutal. Mas, além das aparências, isso pode ser um meio usado como fim – isto é, para Bolsonaro os meios (métodos, modos, artifícios) são mais importantes do que o fim, pois ele já atingiu sua meta: a sutileza está em preservá-la. Para isso precisa manter a tensão: os meios são mais importantes do que o fim porque o meio é o próprio fim.

Uma das técnicas do poder autoritário é a ameaça do golpe de Estado destinado ao fracasso. As tentativas de Bolsonaro de fechar o Congresso, liquidar o Supremo e cancelar a Constituição, são meios que ele usou para manter o já conquistado: o domínio do Estado e a submissão da sociedade pela própria obediência às instituições que ele ameaça destruir, mas que necessita preservar para usufruir dos seus benefícios e legitimar seu poder.

Essa “divagação” seria muita areia para o caminhão bolsonarista? Talvez, se olharmos os fatos pela superfície e desprezarmos a “naturalidade” de o sistema produzir defesas para quem controla o aparelho estatal: a elite econômica e financeira, através da hierarquia política. Uma dessas “naturalidades” foi o impeachment de Dilma, já não uma ameaça, mas um golpe parlamentar “lampeduzano”: mudar para que tudo fique como está (no caso, a prevalência conservadora e reacionária). Aconteceu sem traumas políticos institucionais importantes, foi um golpe de Estado parlamentar pensado, “naturalmente”, não para modificar o sistema de governo, mas destituir o governante de turno (Dilma) e colocar na governança alguém dócil ao empresariado (Temer), para que as reformas pretendidas fossem executadas pela sua extensão política – deputados, senadores e a burocracia judiciária servil aos poderosos – o mesmo estamento que servia à presidente deposta.

Não previa conquistar ou dominar o Estado, apenas aproveitá-lo. Com a conivência da mídia, incentivando a classe média no repúdio à esquerda e retratando o PT como um bando de corruptos – o apoio à Lava Jato foi fundamental nessa farsa. Lembram-se daquela cornucópia abrindo o Jornal Nacional, derramando dinheiro “roubado” pelo PT? – não se incomodaram sequer com o disfarce subliminal.

Resultou em Bolsonaro presidente, uma consequência inesperada para a direita que preferia uma marionete mais comportada. Ele, indiferente aos interesses da “classe superior”, consolidou seu poder aparelhando o Estado com a ralé moral e intelectual do oficialato militar. Como o capitalismo é pleno de contradições e os conflitos de interesses surgem também “naturalmente” até em grupos homogêneos, o meio transformou-se no próprio fim. Para as classes dominantes Bolsonaro é um meio de fim imprevisível. Para Bolsonaro o meio, isto é, ele na presidência, é o seu próprio fim.

O fim dessa engrenagem foi o meio utilizado: a falácia do combate à corrupção para encobrir a perda dos direitos dos trabalhadores e restringir as aposentadorias. Não para fortalecer a economia, mas para desonerar as obrigações trabalhistas das empresas e garantir, como ocorreu, a concentração de renda e o lucro dos bancos e associados. A devastação ambiental e a política externa desastrosa, comprometendo o agronegócio, são prejuízos colaterais indesejáveis, mas inevitáveis para as elites que se aliam a trogloditas como Bolsonaro. Para azar de todos e tragicamente para a nação, veio a pandemia, expondo a ignorância e o caráter genocida do maluco presidencial e provocando uma recessão que o ministro Paulo Guedes é incompetente para gerir. Não há saída para a elite empresarial a não ser romper com a maluquice bolsonarista. Mas isso provocaria um racha na direita que os donos da grana temem mais do que a volta do PT. Por quê? A resposta exigiria outro textão…

É dessa forma que o boçal pode ser sutil: “naturalmente”, mesmo sem perceber que a sutileza política que camufla sua boçalidade só é possível em sociedades politicamente desestruturadas eticamente. Assim, o boçal fez dos seus meios o fim em si. E ingenuamente discutimos o que ele ainda pode fazer. Já fez.

É ou não é o fim?

Já temos o nosso macho alfa

No domingo (13-12) a Folha publicou editorial na primeira página, dizendo tudo o que tem direito sobre Bolsonaro, chegando a chamá-lo de patife. Na segunda (14-12) o Datafolha divulgou sua nova pesquisa e o jornal deu em manchete: a porcentagem de ótimo/bom manteve-se em 37% e mais da metade dos pesquisados disseram que o presidente não tem culpa nas mortes provocadas pelo Covid.

E daí?

Daí que isso tem pouca importância se não observarmos o apodrecimento moral do país. Não é só a política que degenerou. Já é hora de entendermos que os políticos são a cara do povo que encontrou em Bolsonaro um “parça”. Se a totalidade da população ainda não se reconhece nele, pelo menos convive bem com um presidente que reproduz seus preconceitos, medos e, por que não?, as canalhices camufladas do bom-mocismo safado que lhes dissimula as culpas.

Eis o ponto: culpas.

A “culpa” que o Datafolha procurou em Bolsonaro foi medida em números, porcentagens. Se 52% não o culpam, ele não é culpado. Isso revela a fragilidade e degenerescência da ética nacional. Há alguns anos não se julgava o criminoso pela quantidade de gente que o condenava, mas pelos atos praticados. Agora, mudou. Se o “patife”, como o nomeou a Folha, não é reprovado pela maioria, tacitamente seu crime é aceitável, logo, desculpável. Outra visão mostra que ao procurar pela “culpa” ou um “culpado”, expressando o resultado em números, aceita-se, de antemão, que o crime pode ser mensurado quantitativamente, dispensando-se o julgamento ético. Mas essa é uma discussão que ninguém quer, pois exige argúcia e possibilita muita subjetividade.

O grave da questão é que, numericamente, Bolsonaro representa o povo brasileiro ou, pelo menos, aqueles “amaciados” por um abono de R$ 300,00 e a militância machista do ódio. O racismo, a violência, a exclusão e as variadas formas de alienação política que predominam na sociedade não é “culpa” apenas das elites politicas, culturais e das classes dirigentes e dominantes. Também emanam do povo – não se esqueçam, no Brasil, tanto os abolicionistas como os escravizados tiveram escravos. Portanto, a raiz vai mais ao fundo. E não vale o subterfúgio de que a “natureza humana” etc. explica a patifaria que, enfim, encontrou o seu patifão.

O Brasil apodreceu e não mudará nas próximas décadas, porque é parte de um processo global do fim dos princípios humanísticos e a prevalência dos dogmatismos religiosos, fenômenos empacotados na agonia do modelo capitalista (que vai demorar a cair, se cair…). Vulgarmente e em termos práticos, os atores políticos de relevo estão comprometidos com o “novo normal”: a liberalóide prepotência egoísta que, desde as “classes baixas”, pretende “subir na vida” desprezando os valores de honra e dignidade – e, por consequência, excluindo a solidariedade humana coletiva. Isso se reflete em todas as camadas sociais e intelectuais e levanta dúvidas sobre o próprio conhecimento científico. Dúvidas que se transformam em certezas quando manipuladas pelo populismo político. Então, bolsonarismo…

O povo não quer máscara nem vacina. Não quer justiça social nem direitos humanos. Quer cerveja e churrasco, com tudo o que isso significa e revela. É evidente que uma minoria deseja o contrário, mas é a maioria no poder que decide. “Morra quem morrer”, melhor cloroquina e tirar impostos da importação de armas e taxar livros – estes, sim, perigosos para a população pobre, porque educam, e mesmo que apenas instruam, obrigam a um comprometimento de solidariedade que é negado pela prática cotidiana: não se iludam, os pobres não querem sair da sua zona de conforto (leia-se: alienação). É mais interessante “pesquisar” como chegamos a tal ponto do que quantificar os males advindos.

Os animais selvagens que vivem em bandos submetem-se ao líder, que conquista o poder vencendo e matando os adversários que se recusam a obedecê-lo. É o macho alfa. No Brasil, a selvageria das balas perdidas, da matança de negros, homossexuais, o feminicídio e o genocídio dos pobres em geral e dos indígenas, é a histórica norma política do sistema – por isso elegemos, como os bichos, um macho alfa: Bolsonaro. Ele não tem medo dos maricas.

Chega de mimimi…

Conflitos de geração, a esquerda (e racismo subliminal)

Até o século 19 os valores passavam de uma geração à outra e perduravam por longo tempo. Só eram questionados depois de várias gerações. A partir do século passado, talvez pelos horrores das duas guerras mundiais e da influência revolucionária russa, o “conflito geracional” sentia-se imediatamente. O fim da União Soviética e a disseminação da internet aceleraram o processo. Hoje, não há valores estáveis: tudo é transitório, para a juventude o passado não existe e o futuro pouco importa.

Claro, essa não é uma “regra”, mas a característica da nossa época. A distância entre as classes sociais aumentou. A concentração de renda tornou os ricos mais ricos e os pobres mais sofridos. A classe média, eterno amortecedor do choque entre excluídos e endinheirados, acomoda-se na sua perda de privilégios. Começou por perder o ensino público gratuito de qualidade. Agora está perdendo a proteção dos planos de saúde. Há muito tempo vive amedrontada pela criminalidade e vê seus filhos visados pelos traficantes. Agarra-se ao que sobrou submetendo-se aos verdadeiros donos do poder: o conglomerado financeiro que explora seus medos e a mantém acuada – premiando, na cúpula dessa camada servil, funcionários bem pagos, que conscientemente ou não, são “formadores de opinião”. Isso, mas não só, explica porque a pequena burguesia votou massivamente em Bolsonaro, que encarna tudo o que a sua “boa educação” condena.

Como o fenômeno se reflete na esquerda?

Primeiro, qual esquerda? Assim como o denominado centro político não passa de uma direita disfarçada, a esquerda projetada nos partidos não vai além do discurso vazio em defesa da democracia, na ilusão de conter o autoritarismo ou superar a crise econômica e moral – e, por fim, assegurar a liderança de velhos caciques e clãs. Nesse ponto os paulistas (Lula) não diferem muito dos nordestinos (Ciro). Já não se fabricam direita e esquerda como antigamente. Nem Mussolini, nem Hitler. Nem Franco, nem Salazar, Nem Pinochet, nem Médici. Nem Stalin, nem Trotsky. Nem Prestes, nem Marighela.

(Até o nosso racismo não é preto nem branco: é dubiamente cinzento. Para ficarmos iguais aos Estados Unidos nossos negros são chamados de pretos pela nova moda cultural – uma jogada, talvez subliminal, que anula a África. “Preto” não é negro; preto é apenas a cor da pele – Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares, é preto, mas certamente não é negro. Subservientes, alguns “letrados”, especialmente os que fulguram na mídia, preferem “interpretar” negro como os seus ícones norte-americanos entendem “nigger”, forma pejorativa dos supremacistas brancos denominarem os afrodescendentes.

A nossa África é negra e nós somos os negros da África no Brasil – muito do que temos de bom deve-se à negritude africana plantada na nossa alma, de Pixinguinha a Luís Gama, de Zumbi a Lima Barreto, do Aleijadinho a Cartola, Machado de Assis, Clóvis Moura, Martinho da Vila e tantos outros.)

Mas voltemos à esquerda atual. Ela é, também, produto do “conflito geracional” que se acentuou a partir do golpe de 64. Não foi e não é formada por operários e trabalhadores, mas por uma burocracia que, deserdada do Partido Comunista a partir da ditadura militar, dividiu-se em várias correntes conflitantes e, em certo momento, desembocou no PT, um partido que do chão da fábrica organizou-se na sacristia e conquistou a pequena burguesia rebelde, com uma esdrúxula equação de padres dominicanos e guerrilheiros comunistas.

Mas o PT descarrilou. Antes da perseguição da Lava Jato os vários rachas revelaram Lula como chefe autocrático e indiscutível e abriu a porta para a aliança, explícita ou velada, com a grande burguesia – o que levou ao aceitamento da classe média, mesmo que provisório, enquanto durou a ilusão. Durante bom tempo deu certo e os pobres “andaram de avião”, alguns se embasbacaram com a Europa, outros compraram enxoval para bebê em Miami. Do paraíso ao inferno foi um pulinho e o empurrão para o fundo do poço veio com Bolsonaro. No meio disso nasceram dissidências e uma delas parece que vai liderar a “nova esquerda” – o PSOL.

Misture tudo, chacoalhe bem e jogue para o alto. O que vai cair?

Finalmente, um texto sem política: radical

Atualmente ninguém quer ser radical. Os matemáticos revisam a raiz quadrada, em busca de uma raiz redonda, lubrificada para se tornar escorregadia nas mãos dos malabaristas das teorias políticas. Os veganos ameaçam prender os radicais livres.

Radical, disse o filósofo, é observar as coisas pela raiz e, para o homem, a raiz é o próprio homem. Sei não, acho que radicais são os deuses e os religiosos. Os gregos, com Zeus no comando, tiveram deuses que despejavam raios, incendiavam a Terra, causavam terremotos e tempestades, enquanto se refestelavam em intrigas e incestos no Olimpo. Foram os grandes radicais da antiguidade.

Rival deles, só mesmo o Deus dos judeus. Tão poderoso que nem permite que se escreva seu nome completo. Os ortodoxos grafam D’us, para não irritá-lo. Se os deuses gregos surgiram de uma série de acidentes e conjunções antinaturais, entre touros e bichos de muitas cabeças e mulheres que tinham cobras no lugar dos cabelos, o deus judaico foi além – ele não tem origem, nascimento nem explicação para sua existência: Deus sempre existiu e ponto final. Não pergunte como: agnósticos e ateus curiosos são esculhambados pelos crentes. Alguns descrentes se queimaram, literalmente.

Deus, como o conhecemos na civilização judaico-cristã, não desperdiçava energia brigando com seus parentes. Só encrespou com Adão e Eva e os anjos caídos. Depois castigou aqui e ali os judeus que o desapontava, mas logo os perdoava e abençoava os puros de coração passando a fio de espada seus inimigos. Moisés, responsável pela Lei, se deu mal, mas fazia parte do projeto divino que ele levasse seu povo, mas não entrasse na Terra Prometida, que os palestinos acham que também é deles – se querem saber, estes são os grandes radicais do nosso tempo.

Radicais podem ser pacíficos, porém, duros na queda. Vejam Jesus. Difícil achar alguém mais firme nas suas ideias do que ele. Jesus, filho de Deus, nasceu de uma virgem, foi tentado várias vezes por seu Pai, que mandava Satanás azucriná-lo. Não caiu na esparrela e conquistou os pobres e as mulheres pias e putas, enquanto perturbava as autoridades romanas e judaicas. Todos conhecem a história.

O radicalismo de Jesus deu frutos. Houve desvios e atalhos, com os radicais no leme do barco. Quantos papas não cometeram as maiores loucuras para manter o poder familiar na Igreja? Mas tal radicalismo foi pragmático e consolidou politicamente o catolicismo. Esqueçamos os extremistas e fiquemos com os radicais da fé.

Mártires e santos foram comida de leão nas arenas de Nero – que não era radical, só doido. Radical foi sua mãe, Agripina, e sua mulher, Popeia, mas fica longo demais explicar. (Basta dizer que Agripina era irmã de Calígula e casou-se com seu tio, Cláudio, outro doidão; Popeia usava sandálias de ouro com tachinhas de prata na sola para fazer tic-tac quando andava, forçando que olhassem para os seus pés, que eram lindos.)

Minha radical preferida é Teresa D’Ávila. Grande poeta, grande mulher, não foi santa no sentido tradicional, apesar de doutorada pela Igreja. Teresa, aos 14 anos ficou morta três dias. Preparavam-se para enterrá-la quando despertou e resolveu ser freira. Enfrentou três papas e a Inquisição e venceu a todos. Fundou a ordem das Carmelitas e tinha uma ligação especial com Jesus, como conta no seu grande livro “As moradas” (estou escrevendo de memória, não sei se o título foi traduzido assim). Tinha êxtases e “recebia” de Jesus uma flecha no coração. Quando isso acontecia, gozava. Não estou sendo herético: é dela, acho, a primeira descrição do orgasmo feminino, com as águas borbulhantes em cascata pelo seu corpo quando ela se “abrasava” com a flechada do amor divino. Essa mulher é maravilhosamente radical! Foi às raízes mais fundas da fé.

Outro radical fantástico é seu amigo Juan de la Cruz, que Teresa chamava de padreco, porque ele era miudinho. Ele e ela, separados, escreviam poemas que comparados eram iguaizinhos. Os dois levitavam. Em Aveiro, Portugal, há o único quadro no mundo em que eles aparecem levitando – voltei a Portugal dez vezes só para ver esse quadro, esteticamente ingênuo, no mosteiro onde está enterrada minha santa profana favorita: a “princesa rainha” Joana, outra radical – se for contar a história dela escreveria um romance.

Da Idade Média pra trás tudo é tão mágico que seria um anticlímax terminar com política, que hoje, é o que interessa à falta de imaginação histórica. E o Brasil? Temos dois radicais que merecem atenção: Glauco Matoso e Lima Barreto – de vida e obra.

Por que a mulher é secularmente estuprada?

Hoje – O caso do estupro culposo é bastante conhecido. Pouco comentada é a reclassificação do Tribunal de Justiça de São Paulo ao transformar o estrupo de vulnerável em importunação sexual. Enquanto a “tese” do estrupo culposo é uma anomalia repudiada quase unanimemente, a importunação sexual é um artifício legal para absolver estupradores.

Segundo a reportagem de Phillippe Watanabe, na Folha de S.Paulo de 6/11/2020, “o Tribunal de Justiça de São Paulo reclassificou como importunação sexual a condenação em primeira instância de um homem por estupro de vulnerável de sua sobrinha de oito anos, abrandando a pena”. Segundo a investigação, o homem apertou o peito da menina e “esfregou acintosamente sua região genital no corpo dela”. O estuprador foi condenado a 18 anos e 8 meses de prisão, mas o desembargador que relatou o caso entendeu que embora houvesse crime, “o ato cometido não tinha gravidade suficiente para configurar estupro de vulnerável”, reclassificando a violência como “importunação sexual” e a pena foi reduzida para 1 ano, 4 meses e 10 dias”.

O precedente pode ser usado em favor de estupradores. É fácil transformar a vítima em culpada e “defender” que a mulher violentada e ultrajada foi apenas “importunada” – mesmo que seja uma criança e que as investigações comprovem o crime.

Por que homens togados, recebendo altos salários do Estado e com privilégios obtidos por uma suposta integridade ética, agem dessa forma?

Não procure a resposta analisando quem eles são e a sociedade que representam: a ignomínia vem de longe e está arraigada estruturalmente na psique dessa gente impregnada de um machismo inconscientemente corporativo, mesmo entre os mais lúcidos. Mergulhemos na história.

Desde sempre – A “desumanidade biológica” da mulher foi o coroamento de ideias milenares. Ésquilo (525/456aC), em As Eumênides, pôs na boca de Apolo: “Não é a mãe quem gera isso que se chama seu filho; ela é apenas a nutriz da semente depositada nas suas entranhas; quem gera é o pai”. Aristóteles (384/322aC) concordou e disse que a mulher é apenas o receptáculo que fornece material para a “semente do homem”. Segundo ele, a mulher é “um macho impotente, pois a fêmea é desse jeito devido a certa incapacidade de fabricar nutrientes em forma de sêmen, por causa da frialdade da sua natureza”. Ele deduziu que “a fêmea (…) é um macho mutilado e o mênstruo é sêmen, embora impuro, já que carece de uma só coisa: o princípio da alma. Enquanto o corpo procede da fêmea, a alma procede do macho (…) devemos considerar o caráter feminino como uma espécie de deficiência natural”.

Ele influenciou Tomás de Aquino, o santo que, de certa forma, depois de Agostinho, fundou a teologia cristã – ou católica. A tradição misógina de Paulo já impregnava o ideário de inúmeros religiosos. Com a Inquisição a política antissexual transformou a mulher na bruxa que copulava com o diabo, gerando monstros. No combate contra a luxúria e na propaganda da castidade o sexo foi associado a Satã e à tentação feminina.

Pecado e culpa passaram do moralismo ao controle ideológico, como meio de aumentar o poder da Igreja. Na Idade Média, na Renascença e hoje em certos segmentos cristãos, sexo é igual a pecado e culpa. Esse “sentimento subterrâneo” é responsável por preconceitos praticamente invencíveis. E justifica o “instinto reativo” do macho: se a mulher é assim, pode ser agredida, afinal ela é tentação e fonte do pecado, como a Bíblia mostra. É a provocadora usada pelo demônio.

A ciência, também, demorou em calar suas bobagens. Galeno (129/199) ainda repetia Aristóteles sobre a “frialdade” feminina: “Os testículos masculinos são mais fortes porque o homem é mais quente. (…) princípio sabiamente imaginado pelo Criador e em virtude do qual a fêmea é menos perfeita que o macho (…) a impossibilidade de que os genitais femininos aflorem externa­mente, a acumulação de um elemento nutritivo útil supérfluo, um esperma imperfeito, um órgão oco capaz de receber esperma perfeito. Mas no macho ocorre o oposto: um membro grande, próprio para a copulação e a emissão de abundante, espesso e cálido esperma”.

O piedoso santo João Crisóstomo, o Boca de Ouro, no século V, ensinava: “O que é a mulher se não um inimigo da amizade, um castigo (…), um mal necessário, uma tentação natural (…) um perigo doméstico, um mal da natureza pintado em cores benignas”. Para o santo, “entre todas as bestas selvagens, nenhuma é tão perigosa quanto a mulher”.

A Igreja “burilou” e escondeu o que de mais agressivo os santos e teólogos afirmaram sobre as mulheres. Cientistas e filósofos perdoam as besteiras dos antigos, imputando-as aos preconceitos naturais (!) do tempo, mesmo sabendo que contemporâneos a eles os corrigiam e os condenavam.

O santo Odon, de Cluny, no século X, escreveu: “A beleza do corpo (da mulher) só está à flor da pele. Na verdade, se os homens vissem o que há debaixo da pele, a visão das mulheres lhes daria náuseas. Pois, se nem com a ponta de um dedo podemos tocar um escarro ou um excremento, como poderemos desejar abraçar esse saco de fezes?” Mas nem só santos e padres ultrajaram as mulheres. Montaigne (1533/1592) acreditava que o “dever” da mulher era parir e se fosse estéril não deveria ter vida sexual. O machismo é uma presença forte na filosofia, embora os filósofos nunca tivessem a “força moral” e de convencimento dos religiosos.

Para terminar, lembremos o “tição da castidade” que Tomás de Aquino brandiu contra a tentação. Quando moço ele fugiu da mãe que pretendia introduzi-lo na hierarquia católica. Foi capturado e preso pelos irmãos. Para afastá-lo da castidade monacal enviaram uma prostituta para tentá-lo. Quando ela começou os agrados ele a atacou com um pau aceso, o “tição da castidade”. A moça fugiu apavorada e Tomás, com o tição, desenhou uma cruz na parede que o protegia das tentações do demônio.

Esta história medieval não é posta aqui aleatoriamente, mas um alerta contra os neomedievais – especialmente no Brasil. A Idade Média está de volta e somos ameaçados pela nomeação de juízes “terrivelmente evangélicos”. Está se formando, especialmente contra o feminino, um novo “tição da castidade”, aplicando sutilezas nada sutis para culpar as mulheres e absolver seus agressores. O “estupro culposo” e a “importunação sexual” só prosperam porque o inconsciente coletivo do macho, do varão, do pater famílias, responde ao condicionamento milenar em novas formas, mas o conteúdo é o mesmo, fortalecido pelo autoritarismo político – que, aliás, é muito macho. Freud explica.

Dos “daemones” ao extermínio das sardinhas

É difícil eleger o mais estarrecedor dos tempos bolsonaristas. Seria o próprio Bolsonaro? Seus seguidores? A paspalhice da nação que vê o circo pegar fogo e desvia o olhar?

O que leva alguém a ser contra a proteção ambiental e favorável à destruição da natureza? Como é possível um ministro como Ricardo Salles?

Qualquer ginasiano sabe que é criminosa a liberação da pesca das sardinhas em Fernando de Noronha. O presidente, porém, festeja, embora a totalidade dos cientistas e biólogos condene a ideia, só tolerada pelos puxa-sacos palacianos. São evidentes os malefícios da pesca liberada em plena temporada de reprodução, em um refúgio de várias espécies, especialmente com a queda assustadora da população de sardinhas. O aluno da quinta série sabe dos riscos à cadeia alimentar etc. E o governo?

Contra a estupidez, tentemos entender a “psicologia” de Bolsonaro e dos seus assessores, utilizando a mitologia – afinal, ele é um Mito. Se o jornalismo padrão não chega ao “fundo da alma” desses idiotas, é o caso de perguntar: qual o “daemon” que os possui?

A palavra grega “daemon”, através do latim deu demônio em português. Mas na sua origem não era tão simples. Os gregos tinham “daemones” de várias categorias, para o bem e para o mal, que agiam sobre as pessoas. Se alguns cidadãos comportavam-se irracionalmente, entendia-se que ele era possuído por um demônio específico, de acordo com o grau da sua maldade. Considerava-se que o sujeito com uma conduta contrária à inteligência não podia ser julgado pelas regras usuais, pois estaria tomado por um “daemon”.

Sem querer complicar, antropomorfologicamente, explica-se a irracionalidade bolsonarista pela possessão de Acrateia, por exemplo, o demônio da intemperança. O dominado por Acrateia é capaz de romper todos os limites, sem se importar com os males causados. Tal espírito demoníaco “incitaria” os atos do presidente. Só um prisioneiro de Acrateia poderia ser contra a vida, ao sabotar a vacinação, o isolamento social e, depois de negar as queimadas no Pantanal e na Amazônia, festejar a pesca das sardinhas no período em que elas precisam ser protegidas no seu santuário de Fernando de Noronha, ameaçado de ser a próxima vítima da sanha antinatureza de Bolsonaro.

Porém, o mito de Acrateia é pouco para o Mito. Ele deve ser prisioneiro do demônio maior, Cacodaemones, que congrega uma legião de espíritos malignos que distribuem os males que rebaixam a humanidade.

É irônico usar a mitologia para tratar do Mito. Mais objetivo é ficarmos no terra-a-terra. Marx, raramente lembrado quando se fala do meio ambiente, em A Ideologia Alemã escreve que “o comportamento tacanho dos homens em face da natureza condiciona seu comportamento tacanho entre eles”. Essa frase resume Bolsonaro: um criminoso diante da natureza e irresponsável quanto aos seres humanos.

Mas como explicar a passividade dos brasileiros que convivem com o terror político que avança rapidamente para a tragédia? A resposta simplista é citar a alienação política, as distorções da mídia, a “sociedade do espetáculo” e outros achados do nosso estoque de embromação. Mas pouco compreenderemos se não percebermos que o passado longínquo ainda nos assombra. Somos filhos da Inquisição e de alguns pensadores que pouco enxergaram além do nariz. Muita gente acredita que o “o homem é o lobo do homem”, como Hobbes. Centenas de religiosos, a maioria canonizados, nos ameaçam com o inferno e acusam-nos de pecadores condenados pelo pecado original. Com a consolidação dessas balelas passamos a menosprezar nossa condição humana e a duvidar da verdade. Fica mais nocivo quando pensamos “paralogicamente”, isto é, o que aparenta ser “lógico” passa a representar a verdade em nós.

De forma geral as sociedades criam líderes e projetam neles os seus anseios. Quando se frustram com os resultados acham que eles falharam pessoalmente. Assim, não percebem a evolução social como a soma de um conjunto de forças políticas e econômicas que, ao mesmo tempo em que condicionam a conduta das pessoas usam-nas para a preservação do poder das classes dominantes. E caímos, novamente, em Marx: as ideias dominantes são as ideias das classes dominantes. Fácil de entender: as classes dominantes são proprietárias da imprensa, das escolas, enfim, dos meios de produção material e reprodução intelectual. Por ignorarmos esse fato concreto julgamos Bolsonaro fora do contexto que o criou e se aproveita dele; por exemplo, enlatando sardinhas.

Que daemon!