Notinhas

Nem cautela, nem água benta

O ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, informou que os cientistas brasileiros estavam testando o vermífugo Anitta contra o coronavírus, com 84% de eficiência “in vitro”. Como os calouros de medicina sabem, tudo que funciona nos tubos pode falhar nos humanos. Ontem, os chineses noticiaram que já tinham testado o vermífugo: além de nem fazer cócegas no covid19 ele pode ser altamente tóxico para os infetados.

O ministro “desculpou-se” pelo seu receituário: explicou que em tempos de pandemia é preciso dar uma esperança ao povo… Cautela e água benta têm a vantagem de não fazer mal a ninguém. Mas falar bobagem leva ao ridículo.

A cara deles

O ministro defenestrado, Mandetta, tem cara de bebê chorão. O novo, Teich, tem cara de vampiro de Curitiba. Se Bolsonaro deixar crescer o cabelo e se despentear ficará com cara de cientista louco. Nós, cara de bobos.

Só crê quem quer

Bolsonaro mais uma vez diz ter provas. Agora, denuncia que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, o governador de São Paulo, João Dória e os togados do Supremo Tribunal Federal estão conspirando para derrubá-lo. Como sempre, não mostra as tais provas. Com ele, cortina de fumaça é lança chamas: alimenta a fogueira, para desviar a atenção da sua incompetência ao lidar com a pandemia.

Dias contados

Gradual e lenta era a receita da ditadura quando se falava em democracia. Com o novo ministro da Saúde, a coisa vai pelo talvez, quem sabe, nem tanto ao mar e nem tanto a terra, sim, pode ser – isto quer dizer: a quarentena tem os dias contados e Bolsonaro venceu. Como diriam os antigos rabinos, “Deus nos acuda!”.

Ricos não esquecem, pobres não lembram

O que virá depois, será a questão. Mandetta, elogiado por peitar Bolsonaro e fazer o óbvio, trabalhou para acabar com o programa Mais Médicos, despediu os cubanos e não conseguiu nada para substituí-los. Seus esforços para levar médicos brasileiros às comunidades carentes fracassaram. Nas entrevistas falou muito do SUS, mas pouco fez para fortalecê-lo, pelo contrário, atendeu prioritariamente as reivindicações dos planos de saúdes particulares.

 Já o novo ministro é ligado à medicina empresarial e, como boa parte do empresariado, acha que o Estado é paternalista com os pobres.

Uma das lições da pandemia é que o Estado precisa manter um sistema público de saúde forte e atuante, pois é ele que suporta a demanda nas crises. Mas, a “vocação” do novo governo é “minimizar” o Estado, porém, só quando se trata de atendimento ao povo – para os investidores privados abre os cofres. Depois do coronavírus, tudo voltará ao “normal” e os setores públicos continuarão a mendigar verbas. O problema é que os donos do poder não esquecem as lições do patrimonialismo e a população não se lembra do que acabou de sofrer.

Missão (quase) impossível

O comportamento eleitoral do brasileiro teve três inflexões. A primeira, em 1950, quando votou em Getúlio Vargas. Até então, apesar das fraudes e da ditadura, majoritariamente os eleitores seguiam a orientação da Igreja Católica. A segunda, a partir de 1960, quando Jango furou o esquema conservador e elegeu-se vice de Jânio e foi presidente depois da renúncia. Até Dilma o eleitorado comportou-se de acordo com o esperado: primazia da classe média, oscilações momentâneas entre direita e esquerda e posterior alinhamento ao sistema.

A terceira inflexão, da qual Bolsonaro é beneficiário, começou com o pentecostalismo. A tática evangélica, aglutinando os pobres das periferias urbanas em diversas seitas, seguiu a liderança dos pastores, geralmente semianalfabetos com versículos bíblicos na ponta da língua. Não tardou, eles próprios entraram na política. Hoje, a bancada da bíblia, aliada à turma da bala e do boi, é decisiva em Brasília.

O PT, nascido na sacristia, foi o primeiro a entender a mudança. Mas aproveitou os “crentes” por pouco tempo. O personalismo dos bispos evangélicos e a cobiça das suas várias denominações perceberam que com o petismo não podiam surfar: embarcaram nos partidos de direita. Primeiro, os nanicos, em seguida, alugaram-se a quem oferecia mais. Hoje, inverteram a situação: escolhem seus parceiros e ditam as regras: Bolsonaro não vai às missas, frequenta cultos e em plena pandemia atende aos pedidos para abrir os templos.

Esta é a dificuldade para enfrentar o populismo tosco, como o bolsonarista. Não adianta o “discurso político”. Os “crentes”, que já são 44% dos votantes, não querem saber de economia, educação, saúde e outros quesitos que não exigem a presença de Deus. Querem, primeiro, o Todo Poderoso, que lhes abençoa e promete riqueza, na palavra do pastor. Depois, e sempre, o voto naquele que o iluminado indicar.

Como os partidos à esquerda podem enfrentar esse quadro? Será difícil convencer com argumentos racionais e lógicos quem desconfia dos políticos não alinhados à religiosidade popular. Levando-se em conta que os vitoriosos da hora, reacionários e oportunistas, alimentam os preconceitos religiosos que lhes garantem os currais eleitorais, a missão é árdua.

Piora, quando se sabe que os eleitos por esses segmentos moralistas esforçam-se por ideologizar a educação, vigiam e punem os professores, desconfiam da ciência e atacam quem não segue suas regras. Nesse quadro personalidades como Bolsonaro, Moro, Dória, Witzel e outros semelhantes são respeitados pelas bobagens que dizem e besteiras que fazem. O oposto, isto é, os críticos dessa situação são estigmatizados como ameaça ao bom mundo que Deus criou e os ateus estragam.

O sucesso do fracasso

Por que Bolsonaro ainda está na presidência?

Talvez porque, segundo Churchill, “a democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais”.

O Congresso, o Supremo e as outras instituições com força para conter as loucuras presidenciais, não reúnem autoridade suficiente para destituir o louco. Ou, o que é mais provável, falta-lhes coragem para ultrapassar a linha da legalidade: entre os limites constitucionais e o risco de uma mortandade, prevalecem os formalismos da lei e arrisca-se a saúde da população. Estamos em uma crise que já matou milhares e deve piorar. Enquanto a razão impõe condutas recomendadas pela ciência, Bolsonaro ataca como um fanático medieval. A razão o condena, mas ele se apoia na ignorância e explora a “intuição” popular e a mesquinharia de alguns empresários gananciosos.

As instituições observam e condenam, mas não conseguem cortar o mal pela raiz, afastando um inconsciente capaz de provocar o caos e levar milhares de pessoas à morte.

A teimosia de Bolsonaro não se explica apenas pela burrice. Nem pela indiferença ao bem comum. Mas, principalmente, pela crença absurda de que o acaso (no caso dele, Deus) resolva a crise espontaneamente. Com isso, liquidada a epidemia com “apenas” alguns milhares de mortos, e robustecido tanto pela ignorância como pela ganância empresarial, pensa se fortalecer para um autogolpe. Mas é tão difícil diagnosticar como prognosticar qualquer coisa a respeito de uma figura tão idiotizada em esperteza como Bolsonaro.

Não é ele o problema: o dramático é a impotência institucional para tirar do poder um presidente que age criminosamente contra a saúde pública. E que talvez, voltando a Churchill, comporte-se na crença de que “o sucesso é ir de fracasso em fracasso sem perder entusiasmo”. O sucesso de Bolsonaro será o fracasso da democracia.

Leninadas

Óbvio: não se pensa que nessa conjuntura é possível uma guinada socialista: a barbárie já venceu. Apenas uma visão do que foi e que nunca mais será – o mundo mudou e o que vem aí exige novas mudanças. Voltemos no tempo para encarar o futuro.

Os revolucionários produzem a revolução. As condições pré-existentes alavancam suas ações. Tanto os romanos, fossem escravos ou patrícios, como os franceses do século XVIII, sabiam. Lenine radicalizou e transformou as possibilidades em causas efetivas.

Todos diziam o que se exigia dizer. Os romanos foram das palavras ao punhal, os franceses ergueram guilhotinas e, por incrível que pareça aos reacionários do nosso tempo, Lenine foi o menos violento deles. Para evitar um um banho de sangue maior bastou-lhe a família imperial.

O que eles diziam, especialmente Lenine? Diziam a ação, a palavra viva. O que era urgente, sem papas na língua. Lenine atacava a todos que manifestassem dúvidas e preconceitos pequeno burgueses. Não poupava amigos e aliados. E a cada paulada dos seus artigos, curtos e diretos, os atingidos recuavam e formavam ao seu lado. Era a força do líder aliada à razão das palavras.

Hoje, que não há sequer um mínimo sinal de socialismo ou transformação radical na sociedade, seria possível, na mambembe política brasileira, embora sabendo que falaria aos surdos, um panfletista como Lenine? Mesmo ciente da sua inutilidade prática? Não.

Seria escorraçado por quase toda a “massa culta” que se opõe ao populismo rastaquera de Bolsonaro, pois eles preferem “defender” a “democracia” a arriscar-se a melindrar os ouvidos delicados dos que detestam o sistema, mas se compõem com os “liberais” à maneira norte-americana…

Lenine, em defesa da revolução, dissecava a ambiguidade da democracia e ridicularizava a ilusória liberdade de opinião. Para ele, naquele momento, tratava-se de derrotar o governo despótico e triunfar a revolução. Isso só seria possível com a ditadura do proletariado.

Atualmente esse radicalismo objetivo é impossível (alguém lembra? – “Ser radical é tomar as coisas pela raiz; mas, para o homem, a raiz é o próprio homem”). Estamos conformados à camisa de força da democracia capitalista, que tudo nos permite, desde que nada ameace o sistema de dominação. Temos o direito de desejar tudo, sempre que saibamos que nada conseguiremos. Se algo sair do controle, nos oferecem prêmios de consolação.

O primeiro prêmio a mídia comemora: Bolsonaro reina mas não governa. E os premiados se orgulham ao constatar que o presidente é tutelado ou censurado pelos militares. No momento, isto parece contentar a todos, enquanto se teme o coronavírus.

Depois da epidemia este artigo nem pode ser considerado. Evoca, cruz-credo-ave-maria!, Lenine, a revolução e outros absurdos que já caíram de moda há décadas. Qual é a moda atual?

A moda é seguir receitas alheias, acompanhar os livros gringos que nos falam “como morrem as democracias” – e babar-se com eles, sem perceber que a baba implica em aceitar as “democracias mortas” como modelo a ser preservado. Tal democracia ameaçada de morte, enquanto viva, construiu os Trumps e Bolsonaros da vida.

Resumindo: na antiga Roma, na França revolucionária e na Rússia czarista, os progressistas venceram porque não tinham pruridos nem bons modos – porém, sobravam-lhes escrúpulos (e isto daria outro “capítulo”). Aliás, se quiserem um paralelo irônico, é a falta de bons modos, mas sem escrúpulos, que levou Bolsonaro e Trump ao poder, que eles exercem a patadas.

A vítamina da ignorância

Quem pensa que Bolsonaro sairá enfraquecido depois do coronavírus engana-se. Sairá fortalecido pela cloroquina – a vitamina da ignorância. O remédio pode até curar, se não matar idosos com arritmia, mas já funciona como aditivo ao populismo rasteiro do presidente.

Os eleitores de Bolsonaro não se arrependerão para sempre. Eles necessitam de um mito que lhes legitimem o ódio; leia-se, medo. Não há outro disponível e Mandetta, que se pintou “estadista”, começa a se mostrar como é: um bom moço que pegou o bonde errado, mas conforma-se em seguir a viagem – sua justificativa enganou bem, “médico não abandona o doente”, mas não encobre a subserviência a um esquema político: o poder é um visgo que gruda. Isso explica seu vai-e-vem.

Não há real oposição a Bolsonaro. Nenhum político na ativa é capaz de aglutinar as chamadas “classes médias esclarecidas” que, por sinal, pouco têm de esclarecimento. Lula, Ciro, Haddad estão queimados como representantes da “velha política” – no caso dos petistas sob a suspeição do que as classes médias mais praticam e fingem repudiar: a corrupção. A corrupção ética das classes médias, que têm acesso à informação (mas deturpa o conhecimento), manifesta-se na sua incapacidade de solidariedade e no conformismo ao compactuar ativamente com uma sociedade excludente. É pior do que meter a mão no dinheiro público, porque aceita a miséria, a fome e a doença a que estão condenados mais de 30% dos brasileiros, sem contar os milhões que nunca terão acesso à educação e saúde.

Resumindo e cessando o lero-lero, estamos ferrados.

Organizar a derrota

Essa coisa vaga a que chamam “esquerda”, convivendo no mesmo saco socialistas, comunistas e quem apenas é “do contra”, precisa tirar o jegue da chuva. Que já é um temporal. Os novos tempos serão duros para quem tem mais de dois neurônios. Socialismo, nessa vida, jamais. Igualdade de direitos, nunca. Liberdade de expressão, por um fio.

Esse é o quadro e se não o entendermos, melhor para o “direitismo” ensandecido e pior para a massa cinzenta. Duplamente cinzenta: porque ainda pensa que pensa e, também, porque o pensamento é desbotado. Em suma, perdemos a capacidade crítica e a acuidade mental. Fomos derrotados pelo autoritarismo e nosso raciocínio segue os modelos impostos pelos ideólogos da ignorância.

Exemplo: gastamos energia para demonstrar que Bolsonaro é um imbecil, mas não nos esforçamos para explicar porque tal imbecil chegou à presidência. Quando o fazemos, analisamos o quadro político aparente, sem nos aprofundarmos nas estruturas econômicas e sociais que blábláblá – os velhos esquerdistas sabem o que se está afirmando.

Simples: o capitalismo ganhou o jogo. A esquerda precisa organizar a derrota.

Passou batido

Se querem, na prática, um exemplo de como a classe média é safada e espertinha para resolver sua “ética”, vejam a notícia de que nos últimos dezoito anos o PSDB paulista pegou gorjeta da Ecovias – todos os seus governadores (Covas, Serra, Alckmin) foram favorecidos pela propina que chegou ao partido e financiou campanhas políticas. Agora, a Ecovias foi condenada a pagar R$ 650 milhões ao Estado. Detalhezinho: a empresa foi condenada, os políticos, não. E se fosse o PT?

Bolsonaro: 30%+29%=59%

Segundo o Datafolha 59% dos brasileiros não querem a renúncia de Bolsonaro. A pesquisa confirma o que a experiência indicava. Eu, que sempre erro, afirmei várias vezes que com seus 30% de apoio incondicional o mito mitômano se aguenta na presidência e ainda se reelege.

Por quê?

Aprendamos com Joãozinho Trinta: “O povo gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual”. O filósofo da Beija-Flor não era inconsciente. Para quem não se lembra ou era criança na época, no carnaval de 1989, o enredo da sua escola de samba era “Ratos e urubus, larguem minha fantasia”, cujo samba cantava: “Sai do lixo a nobreza/ Euforia que consome/ Se ficar o rato pega/ Se cair urubu come”. Tratava, evidentemente, da miséria social que ainda perdura no Brasil. Joãozinho colocou um enorme Cristo de papel marché sobre um carro alegórico, cercado por sambistas catadores de lixo. Todas as alas mostravam a pobreza coberta de luxo (ou vice-versa, dependia do olhar), ironia pouca percebida por muitos intelectuais. A censura proibiu a exibição da imagem de Jesus. Joãozinho, transgressor como toda boa bicha, cobriu seu Cristo com plásticos pretos e uma faixa: “Mesmo proibido olhai por nós”.

Isto aconteceu há 31 anos, mas a metalinguagem carnavalesca de Joãozinho Trinta sobrevive se nos esforçarmos para entender o sentimento popular – apesar de ser quase impossível mensurar tal “sentir” estatisticamente, o que nenhuma pesquisa consegue.

Joãozinho Trinta não gostava do luxo para exaltar a riqueza: usava a ostentação criticamente, denunciando a diferença e a semelhança entre as pessoas (ele não pensava em classes), ressaltando que também os mais miseráveis sonhavam com o esplendor. Entendamos corretamente esplendor: brilho, no caso, lantejoulas, em síntese, ilusão. Na campanha eleitoral de 2018 o esplendor foi a mitomania popular com Bolsonaro – teve como recompensa as lantejoulas, a ilusão que hoje se apaga.

Voltemos ao Datafolha: se 30% da população automaticamente apoia Bolsonaro, conscientemente apenas 29% não querem sua renúncia. A soma dá uma maioria ilusória. Mas isso só terá importância se manipularmos os dados de acordo com nossos desejos (a ideologia está fora dessa situação anômala).

Os eleitores de Bolsonaro, antes da vitória, queriam o fim do petismo e alguém que acabasse com a “velha política”. Boa parte sonhava com um governo forte, que pusesse fim à imoralidade da “ideologia de gênero”. Entre estes, muitos temiam a própria sexualidade e alguns tontos se escandalizavam com a mamadeira de piroca. E manipulando a todos, os amalucados das redes sociais: doidos, mas competentes para o serviço sujo.

Hoje, aos quatorze meses de alucinações governistas, restam a Bolsonaro os mesmos incondicionais 30% que sempre o seguirão. Os políticos responsáveis pelo sistema e as “classes esclarecidas” recebem o estímulo de intelectuais preocupados com o retrocesso medieval e a ameaça que o presidente representa para a democracia.

Mas os eleitores, que de certa maneira viram em Bolsonaro o salvador da pátria, já não aceitam a “missão” salvadora. É a herança histórica no Brasil: Getúlio foi abandonado e deu um tiro no coração; Jango esperou a resistência que não veio; Collor ficou só; Dilma e Lula não reuniram a massa para intimidar os golpistas.

Eis porque, nesse momento, Bolsonaro não é um perigo para a classe média, principalmente. Ele nada mudará, perdeu força e é dispensável sua renúncia. Já não governa e qualquer ministro que o peita ganha a parada. Se ele demitir Mandetta, por exemplo, aí sim, torna-se perigoso – só então será realmente rejeitado de fato pela opinião pública.

A população é conservadora – inclusive os pobres, que raramente aceitam a “missão” que lhe exige um salvador da pátria. Se o líder insiste, recebe o recado claro: panelaço – e não passa disso.

Os 59% não significam de modo algum “aprovação” ou “apoio” a Bolsonaro. Apenas a inércia política tradicional no Brasil: deixar como está pra ver como vai ficar.

Paráfrase e virus

Os intelectuais de esquerda repetiam: “socialismo ou barbárie”.

A barbárie chegou e o socialismo, nem sonhar. Só que a proposição estava errada: o que se dizia barbárie não era e aquilo que se pressupunha socialismo nunca foi. A questão deveria ser: eles ou nós? Eles são os vencedores que impõem suas regras e nós, os que trabalhamos obedecendo às normas impostas para sustentar os impostores – à direita e à esquerda. Eles são menos bárbaros do que parecem, pois cultivam as artes e as ciências, tolerando certo humanismo supérfluo. Nós nunca fomos objetivamente socialistas, porque não entendíamos o mundo nem as nuances da dominação – e sequer dominávamos a práxis política, embora nos sobrasse eloquência. Éramos alienados, mas considerávamos que eles eram os alheios à realidade; porém, eles sabiam o que faziam.

A nossa farsesca tragédia: ao reconhecer a vitória deles, repito a fraseologia que nos levou à derrota – eles venceram e ainda não entendemos como perdemos. Nós nos justificamos; eles se confirmam.

Sempre nos preocupamos em dissecar a história e a reavaliar a política. Agora, vencidos, isso só nos vale de consolação. Parafraseando um velho filósofo, lamber as feridas, hoje, é o nosso ópio.

O que fazer?

Tirar proveito da derrota. Eles venceram, mas a vitória os levou a um beco sem saída e bastou um ser microscópico para mostrar que o rei sempre esteve nu. O coronavírus pode ser o nosso renascimento – para reerguer o sistema os bárbaros (eles) precisam de nós (os derrotados), que conhecemos as políticas públicas. Podemos injetar no sistema corrompido não mais a ideologia, mas o antivírus da hierarquia de classes. Problema: descobrir (ou inventar) como.

O que fazer depois?

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Desde a guerra da Coreia às intervenções no Oriente Médio e na Ásia, algumas em curso, quanto tempo os Estados Unidos estiveram em paz? Nem um dia.

Essas agressões armadas, entremeadas de tensões políticas, são a base e a essência da indústria bélica e da economia norte-americana. Nenhum “new deal” de Roosevelt ou qualquer “plano Marshall” para os europeus cooptados sobreviveriam sem o subsequente saqueio colonialista, mesmo travestido de outras formas e pretextando a defesa da “democracia” e da patética “civilização ocidental”. A crise cíclica do capitalismo monopolista dessa vez agravou-se com a pandemia do coronavírus e promete ser mais grave do que a de 1929. Agravou-se com a pandemia, mas não é causada pelo coronavírus.

Em 1929 e depois da Segunda Guerra Mundial a tarefa foi fácil: a quebra das bolsas limpou a sujeira da especulação e preparou o terreno para os investimentos estatais e privados. A Europa, arrasada por duas guerras, conformou-se com a interferência norte-americana, favorecendo acordos, contratos e alianças militares que, posteriormente, culminaram na guerra fria. Em ambos os casos havia, como no fim da Peste Negra de 1348, sistemas econômicos que deixaram de funcionar e lentamente morriam. Não houve, como atualmente, abrupta revolução tecnológica e o desemprego pôde ser enfrentado dando aos pobres trabalho sem qualificação e baixos salários.

Hoje, é mais grave. O modelo capitalista esgotou-se e não há, como nas crises anteriores, uma tendência quase “natural” para implantar novos métodos, tanto de investimentos particulares como da intervenção do Estado. Sobra dinheiro, mas os donos da grana não sabem o que fazer com ele. Quem sabe é excluído do jogo: os donos do capital não aceitam reparti-lo.

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A crise do capitalismo contemporâneo tem vários componentes. O mais novo é o coronavírus, um coadjuvante que somado ao desemprego em massa e às mudanças tecnológicas, antecipa um panorama que não só muda os modos de produção, mas o relacionamento entre as classes sociais. As modificações nas normas de trabalho, a “flexibilização” das leis trabalhistas, sempre contra o trabalhador, sugerem um novo tipo de contrato social – o passo inicial, quase automático, foi a terceirização, que no seu primeiro teste mostrou a incapacidade de organizar a sociedade. Incapaz de qualquer prevenção, a fantástica máquina industrial mostra-se incompetente até para produzir máscaras de pano suficientes para proteger a população durante a epidemia. O homem vai à Lua, há bombas atômicas prontas para destruir o planeta. Mas faltam máscaras de pano.

O que está à vista para quem quer ver: a indiferença e o desprezo pelo bem-estar social volta-se contra o sistema capitalista, ameaçado, agora, pela sua imprevidência – imprevidência, em que pese a repetição, fruto do desprezo ao povo e da busca incontrolável do lucro.

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O que virá depois da pandemia?

O capitalismo não aprende as lições universais. Isto é, resiste às exigências da humanidade. Recorre a soluções unilaterais e desvios que contornem suas perdas e garantam sua lucratividade. A pandemia mostrou que será necessária uma correção de rumo profunda nas relações humanas e sociais. Será possível na prática?

De um lado temos a urgência de mais justa distribuição de renda e que o trabalho de todos seja aproveitado de forma equânime, na velha máxima de “a cada um segundo suas necessidades e de cada um segundo sua capacidade”. Em contraponto, o capitalismo sente-se apunhalado pelo esgotamento do sistema.

Dessa vez não será possível, sem o debate que a ascensão da direita sabotou, os donos do mundo se reunirem às portas fechadas para decretar medidas que revigorem um modelo mais que esgotado, falido. Note-se: falido, apesar de dispor de trilhões de dólares e uma estrutura industrial e militar praticamente incalculável.

O Estado, teoricamente o protetor do povo e mediador das relações humanas é uma mentira controlada pelo poder econômico. Os políticos comprometidos socialmente são perseguidos quando tentam mudar as regras do jogo em favor dos excluídos: no Brasil é “mal visto” até quem propõe dar comida aos famintos. A maioria dos representantes eleitos trabalha contra seus eleitores e serve ao patronato.

4

Se alguém percebeu, é hora de começar toda luta novamente. O que é “toda luta”?

Que farsa é essa?

Por que é tão difícil convencer ativistas das redes sociais de que o fascismo é ruim? Por que certas pessoas duvidam da ciência? Por que se agrupam na internet e se iludem com uma realidade virtual, descompromissada com a verdade? Por que acreditam nas mais estapafúrdias teorias da conspiração?

Tudo tem começo.

Francis Fukuyama, hoje esquecido, em 1992 com seu livro “O fim da história”, provocou euforia ao escrever que com o fim do fascismo e do socialismo – a União Soviética acabara – não havia mais “história” como estávamos acostumados. O repúdio de filósofos e historiadores não impediu que ele fizesse discípulos, especialmente em países subdesenvolvidos, em que a polarização ideológica é mais acentuada e às vezes a esquerda chega ao poder.

No Brasil a volúpia anti-intelectual, destilando um negacionismo revisionista, começou a expandir-se popularmente em 2009, com o “Guia politicamente incorreto da história do Brasil”, de Leandro Narloch, ex-jornalista da Veja. Este livro “caiu bem” no, digamos, sentimento de uma cultura popular que se pretende inteligente e “esperta”. Deturpando fatos, citando fora de contexto e omitindo autores importantes, afirmava, entre outras bobagens, que o colonialismo foi bom para os brasileiros, especialmente para os índios. Para “amenizar” o escravismo disse que os quilombos eram escravocratas. E outras besteiras. Depois Narloch produziu um documentário para o History Channel: alguns historiadores que ele entrevistou exigiram que suas entrevistas fossem retiradas, pois sentiram-se enganados quanto aos fins do programa. Entre eles, Laurentino Gomes, Lilia Schwarcz e Lira Neto.

Rapidamente Narloch recolheu-se. Mas deixou sequelas. Logo em seguida surgiu outro livro, “Porque virei à direita”, dos colunistas da Folha, João Pereira Coutinho e Luiz Felipe Pondé, e Denis Rosenfield, do Estadão, a defender o conservadorismo como reação culta à ignorância da esquerda. Com toda a arrogância a que julgavam ter direito.

Desde então uma penca de “pensadores de direita” dominou o cenário. Quase todos com missão indisfarçável: destruir e negar o socialismo e combater as lutas progressistas. Mas estes ainda exibiam uma aura de intelectualidade, que escondia as intenções maliciosas. Foi nesse ambiente que se cristalizou o clima “cultural” para o impeachment de Dilma e a prisão de Lula – não se precipitem: os petistas não eram santos e alguns dos seus intelectuais faziam o mesmo jogo da direita, ao contrário.

Com a vitória de Bolsonaro as redes sociais substituíram as bibliotecas e os panfletários tomaram o lugar dos escritores. E tome cacete no lombo da cultura. Em suma, a degringolada intelectual nunca é originada pelos seus agentes visíveis. Começa com a elite pensante fornecendo argumentos para o escalão inferior que, estimulado, não tarda a criar um baixo clero que dissemina seus preconceitos.

Os intelectuais não são inocentes. Na Itália o grande incentivador de Mussolini foi Giovanni Gentile, pedagogo que se intitulava “filósofo do fascismo”. O famoso “Manifesto dos intelectuais fascistas”, redigido por Gentile, propunha a violência como método político e estimulava as milícias. Entre os que o assinaram estavam Giuseppe Ungaretti e Curzio Malaparte. Luigi Pirandello apoiou o “Manifesto” com uma calorosa carta. Não tardou outros aderiram, como Gabrieli d’Annunzio e Ezra Pound.

Na ascensão de Hitler, na Alemanha, os intelectuais conservadores desempenharam papel ativo. Comecemos com o mais famoso, o filósofo Martin Heidegger. Quando Hitler começou a aparecer, em dezembro de 1931 ele escreveu ao seu irmão: “Caro Fritz, parece que a Alemanha despertou, compreendeu seu destino. Gostaria que lesses o livro de Hitler (…) Já ninguém mais pode negar que este homem possui, e sempre possuiu, um seguro instinto político, quando todos nós ainda estávamos obnubilados. O movimento nacional-socialista crescerá no futuro, com novas forças adicionais. Já não se trata da mesquinha política de partido – trata-se antes a salvação ou do ocaso da Europa e da cultura ocidental”.

Heidegger aceitou o cargo de reitor da Universidade de Freiburg em maio de 1933, quando voltou a escrever a Fritz: “Entrei ontem no partido, não só por convicção pessoal (…) é preciso pensar não tanto em si mesmo, quanto no destino do povo alemão”. Aconselhou o irmão a também aderir ao partido, afirmando que “é preciso estar do lado dos nazistas e de Hitler”.

Intelectuais não gostam de aceitar que Hannah Arendt foi amante de Heidegger, de quem era aluna. E o filósofo, até 1941, ainda manifestava esperanças de que os nazistas vencessem os russos, contando ao seu irmão que “as tropas alemãs estão apenas a trinta quilômetros de Moscou”.

Na França talvez foi pior. Grandes nomes das artes e da literatura conviveram com os nazistas que ocupavam Paris. Entre eles, figuras icônicas, como Maurice Chevalier e Édith Piaf, que fizeram apresentações pagas pelos nazistas. Quase sempre se “esquece” que Coco Chanel, a famosa modista, era amante de um oficial nazista, com quem vivia no mais luxuoso hotel da capital. As mais pesadas críticas caem sobre Louis-Ferdinand Céline, escritor que nunca escondeu seu antissemitismo – mas ele, provavelmente, foi mais “honesto”, pois nada ganhou nem pediu aos nazistas e era um médico dedicado aos pobres. Diferente, por exemplo, de André Gide, que não teve pudor ao dizer: “Prefiro não escrever nada hoje, que possa me deixar arrependido amanhã”. Pablo Picasso, que se julgava “neutro”, recusou-se a assinar um abaixo assinado pela libertação de Max Jacob, que morreu em um campo de concentração.

Poucos se recusaram colaborar. Porém, depois da guerra, execraram as prostitutas, rapando-lhes os cabelos. Já Coco Chanel é admirada até hoje… E Picasso lembrado por Guernica e o magistral desenho da pomba da paz.

Mas outros tantos seguiram Albert Camus, George Politzer, Jean Gabin, Jean Renoir e criaram uma imprensa clandestina ou entraram para a resistência.

 Mas, o que isso tem a ver com o Brasil de hoje?

Se não aprendermos a resposta estaremos condenador a repetir a história como farsa.

Depois do coronavírus

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É impressionante (até com cedilha): depois de dez mil anos que o homem aprendeu a pensar, a razão ainda é vencida pela irracionalidade. Nas coisas mais simples.

Bolsonaro espanta não porque é estúpido, mas por lhe ser permitido usar o Estado contra a vida humana. Como um presidente pode contrariar a ciência, agredir o bom senso e ter milhares de seguidores que apoiam sua impostura? Quando a crise do coronavírus passar essa deve ser uma das questões a se discutir.

É impressionante (outra vez) a dificuldade institucional para conter a insensatez que pode causar uma mortandade. Bolsonaro usou a máquina estatal para fazer propaganda contra a quarentena, embora a OMS (Organização Mundial de Saúde) e a experiência dos países atingidos demonstrem a necessidade de isolamento social. A Justiça Federal, atendendo ao Ministério Público, proibiu que o presidente continuasse sua campanha irresponsável. Quanto tempo isto perdurará? A liminar pode cair, talvez já tenha caído.

Outro lado da história é a cegueira de boa parte da população e a ganância criminosa de empresários (grandes e pequenos) que aceitam, contra suas próprias vidas, as “teses” de um presidente amalucado. Trata-se de ignorância, fanatismo, lavagem cerebral, ódio ideológico em mutação para imbecilidade crônica grupal ou, talvez, a soma de tudo isso reforçando uma cultura que nascida na escravidão fez do racismo e do autoritarismo a base do seu ser social?

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Depois do coronavírus ficaremos com a economia extremamente debilitada. Já estava capenga, pelos de erros acumulados há anos e agravados com a imperícia do neoliberalismo que o Posto Ipiranga tenta impor. Como reagirá, não a economia em si, mas o capitalismo?

Em todas as suas crises anteriores, algumas fabricadas, o capitalismo reciclou-se e encontrou novas formas de permanecer essencialmente o mesmo: uma pirâmide cuja base trabalha e sofre, pouco recebe e sustenta o topo de 1% de privilegiados que distribuem para os 30% que estão abaixo deles o suficiente para eles não se aliarem aos 70% de explorados e excluídos na luta pela justiça social.

Agora, que o modelo de tanto se reciclar parece esgotado, como os capitalistas, na verdade o capital financeiro concentrado nos bancos, reagirão?

No piloto automático, buscando mais uma vez o socorro no Estado que eles tanto condenam? Ou surgirá uma nova forma ou fórmula, outra espécie de “plano marshall” para dourar a pílula da sobreposição de classes?

Também é um debate para depois. Com um novo fato: em todas as crises anteriores do capitalismo havia uma esquerda forte, um partido comunista organizado e uma intelligentsia em contraponto com a brutalidade do sistema. Agora, o sistema está livre, bajula uma direita fascista, praticamente sem outro limite a não ser o que os ingênuos chamam de “democracia”.